Falta de acervos
atualizados, tempo para leitura e formação docente limita o desenvolvimento de
leitores no ensino básico
Créditos: Johnny Mcclung/Unsplash
“Leitura, antes de mais nada, é estímulo, é
exemplo”, diz uma frase atribuída à escritora Ruth Rocha. O incentivo à leitura
desde os primeiros anos da infância é um dos pilares mais importantes da
formação educacional e cidadã de uma criança. Ainda assim, grande parte das
escolas públicas brasileiras enfrenta dificuldades para garantir acesso a
livros de qualidade, formação de professores como mediadores de leitura e
espaço para a literatura no currículo escolar.
Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil,
do Instituto Pró-Livro, 44% dos brasileiros não têm o hábito da leitura no
cotidiano. Entre os principais motivos apontados por eles estão a falta de
interesse e de acesso. Para especialistas, esse cenário é uma consequência
direta de um contexto sociocultural em que a leitura é tratada, em geral, como
uma obrigação do currículo escolar. Essa visão não permite que crianças,
adolescentes e até adultos encarem os livros como uma prática necessária para a
construção de repertório cultural ou mesmo como fonte de prazer.
“A leitura precisa ser encantadora. Quando a
criança se conecta com o livro por meio de histórias com as quais ela se
identifica, o impacto vai muito além do vocabulário: ela desenvolve empatia,
repertório e pensamento crítico”, afirma Damila Bonato, gerente de marketing e
produto da Aprende Brasil Educação, que atende escolas públicas municipais em
todo o país. Diante da concorrência com videogames, redes sociais e outras
distrações tecnológicas, iniciativas que combinem literatura, formação docente
e recursos digitais tornaram-se urgentes. Engajar crianças e adolescentes nas
páginas estáticas do livro é, mais que uma meta pedagógica, um desafio
contemporâneo.
Projetos de incentivo à
leitura precisam ser fomentados
Uma das estratégias mais eficazes para formar novas
gerações de leitores é por meio de projetos de incentivo à leitura. “Ao
oferecer acesso a acervos diversos, com mediação qualificada, esses projetos
estimulam o hábito da leitura desde cedo, o que é decisivo para o
desenvolvimento da linguagem, do pensamento crítico, da empatia e da
criatividade”, pontua o assessor de História dos colégios da Rede Positivo,
André “Bode” Marcos.
Ele lembra, ainda, que, quando bem estruturados,
esses projetos também ajudam a reduzir desigualdades de acesso à cultura
escrita, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. “Ao formar
leitores mais autônomos e reflexivos, eles contribuem para uma geração mais
preparada para compreender a realidade, dialogar com diferentes pontos de vista
e participar ativamente da sociedade. Em outras palavras, formar leitores é
formar cidadãos”, completa.
Um exemplo recente é o projeto “Além da Narrativa”,
desenvolvido pela Aprende Brasil Educação, que distribui livros impressos a
alunos da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Além dos
materiais físicos, as crianças têm acesso a QR codes que possibilitam ver e
ouvir as narrações em áudio e vídeo de alguns títulos. Por fim, as obras são
acompanhadas de percursos de leitura para professores, recursos em que se
apresentam orientações para condução do trabalho com cada livro em sala de
aula. “O papel do professor como mediador é essencial. Mas, muitas vezes, ele
mesmo não teve a oportunidade de vivenciar a leitura de forma prazerosa em sua
formação. Por isso, investir na capacitação do educador é tão importante quanto
garantir o acervo”, ressalta Damila. Os docentes recebem, ainda, formação
virtual voltada ao desenvolvimento da competência literária.
Embora ainda concentrados em poucas redes,
programas como esse apontam caminhos possíveis para transformar a relação das
crianças com os livros e, consequentemente, com o processo de ensino e
aprendizagem. Em tempos de defasagem educacional e baixo desempenho em leitura
nos indicadores nacionais, promover a leitura é uma estratégia urgente para
enfrentar desigualdades educacionais e sociais.
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