Advogado
especialista argumenta que decisão da Anvisa reforça o dever do Estado de
reduzir situações de risco à saúde coletiva.
Desde segunda-feira,
(23), farmácias e drogarias de todo o país deverão reter a receita médica na
venda de medicamentos agonistas GLP-1, também conhecidas como
"canetas emagrecedoras", como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Saxenda. A
medida, determinada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa),
busca conter o uso indiscriminado desses medicamentos, que têm sido muito
utilizados para fins estéticos, muitas vezes sem acompanhamento médico
adequado.
Antes da
decisão, esses remédios podiam ser comprados com uma receita simples, bastando
ao paciente apresentá-la no balcão. No entanto, embora tenham sido
originalmente desenvolvidos para o tratamento de diabetes tipo 2, muitos
passaram a ser usados como auxiliares no emagrecimento especialmente por
pessoas que não têm diagnóstico clínico de obesidade, mas buscam resultados
rápidos de emagrecimento, gerando até mesmo a escassez dos produtos nas
prateleiras.
A partir de
agora, a prescrição deverá ser feita em duas vias: uma fica com o paciente, e a
outra deve ser retida pela farmácia no momento da compra, assim como ocorre com
antibióticos e medicamentos de controle especial. Além disso, todas as vendas
precisam ser registradas no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos
Controlados (SNGPC), o que aumenta o rastreio e a fiscalização.
Para Thayan
Fernando Ferreira, advogado especialista em direito de saúde e direito público,
membro da comissão de direito médico da OAB-MG e diretor do escritório Ferreira
Cruz Advogados, a decisão da Anvisa é coerente com o princípio
constitucional da proteção à saúde, previsto no artigo 196 da Constituição
Federal: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante
políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de
outros agravos”.
A decisão da
Anvisa se baseou em dados do sistema VigiMed, que apontou um número elevado de
notificações de efeitos adversos relacionados ao uso inadequado dessas
substâncias. De acordo com a agência, o volume de reações adversas no Brasil
foi significativamente maior se comparado aos registros internacionais
principalmente entre usuários que utilizaram os medicamentos para fins
estéticos e sem acompanhamento médico. Entre os efeitos adversos mais relatados
estão náuseas intensas, vômitos, alterações pancreáticas, problemas
gastrointestinais e distúrbios alimentares.
De acordo
com o advogado, o aumento desenfreado no consumo das canetas emagrecedoras já
vinha prejudicando diretamente os pacientes que realmente dependem desses
medicamentos. “A escassez de produtos essenciais como Ozempic e Wegovy nas
prateleiras não é apenas um problema de mercado. É uma consequência direta da
banalização de um tratamento médico sério, muitas vezes incentivada por redes
sociais, influenciadores e até prescrições irresponsáveis. A decisão é
legalmente fundamentada e necessária frente ao cenário de uso abusivo”, pontua.
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