Farmacêuticas investem em pesquisa e famílias recorrem ao bom humor para lidar com a doença
Mais de 50 milhões de pessoas vivem com Alzheimer
no mundo, e esse número deve triplicar até 2050. No Brasil, dados do Conselho
Nacional de Saúde (CNS) indicam que 1,8 milhão de pessoas foram diagnosticadas
com a demência até 2019. A projeção para 2050 é de 5,7 milhões de brasileiros,
o que representa um aumento de 206%.
Essa inversão do topo da pirâmide se deve porque a
tendência é que, nos próximos vinte anos, teremos mais idosos do que jovens no
mundo, já que a longevidade e a qualidade de vida estão crescendo. Como o
Alzheimer é uma doença do envelhecimento, o número de casos tende a crescer.
Especialistas apontam que as placas de amiloide,
características do Alzheimer, começam a se formar no cérebro cerca de 20 anos
antes dos primeiros sintomas de perda de memória. Agora, uma pesquisa da
Universidade de Columbia, publicada neste mês na revista The Lancet
Regional Health, revela que indícios de risco do Alzheimer já podem
ser identificados em adultos na faixa dos 20 anos.
Para o farmacêutico e gerente de inovação e
pesquisa clínica da farmacêutica Prati-Donaduzzi, Liberato Brum Junior, o
desenvolvimento de medicamentos enfrenta desafios significativos,
principalmente devido à complexidade da doença e à compreensão ainda limitada
de suas causas. “Os estudos clínicos são longos, caros e apresentam alto risco
de insucesso. Nesse cenário, a identificação precoce da doença, por meio de
biomarcadores mais precisos, e o desenvolvimento de modelos experimentais mais
representativos são essenciais para avançar nas pesquisas e encontrar
tratamentos que melhorem a qualidade de vida dos pacientes”, explica.
Sinais de alerta
Esquecimentos frequentes estão entre os primeiros e
mais comuns indícios da doença, mas o geriatra do Hospital São Marcelino
Champagnat, em Curitiba (PR), Clóvis Cechinel, ressalta que não são os únicos.
“Além da perda da memória recente, esquecer informações recém-aprendidas,
compromissos ou onde colocou objetos com frequência podem ser um sinal. Também
é importante observar dificuldades para planejar e resolver problemas,
desorientação no tempo e espaço, perder-se em lugares familiares, confundir
onde está e problemas de linguagem”, ressalta o médico.
Outros sintomas incluem mudanças de humor e
comportamento, como irritabilidade, depressão, ansiedade, retraimento social,
evitar interações, hobbies ou atividades que antes eram prazerosas. “O
diagnóstico do Alzheimer é muito complexo, nenhum sinal deve ser
desconsiderado. Muitas vezes, o próprio paciente não percebe o declínio
cognitivo; os familiares tendem a considerar esse processo natural da idade, e
os profissionais de saúde nem sempre estão preparados para reconhecer a doença.
Por isso, é fundamental a consulta com especialistas”, afirma Clóvis.
A família da idosa Amália Theresa da Silva, de 96
anos, vivenciou todas essas etapas até receber o diagnóstico do Alzheimer. “Foi
duro, difícil de assimilar, porque o Alzheimer não vem com um manual. Ele é
muito demorado, existem muitos outros tipos de demência que se parecem. Foi
preciso fazer exames, testes clínicos e buscar o parecer dos médicos”, relembra
o neto, um dos cuidadores da dona Amália, Raul Junior.
Diagnosticada aos 88 anos, Amália passou a viver
com a família, que assumiu os cuidados. No início, além dos medicamentos, ela
fazia terapia, fisioterapia e a família procurava estimular cognitivamente a
idosa com brincadeiras, inserindo-a na rotina da casa. Agora, com o estágio
mais avançado da doença, as terapias foram substituídas pelo humor. “Nós fomos
nos adaptando ao longo do tempo. Eu tinha uma conta na rede social que colocava
coisas engraçadas, comecei a mostrar alguns momentos nossos. Assim nasceu a ‘Vó
da Pomba’, que tem mais de 10 milhões de seguidores. Ali, mostramos como o bom
humor deixa o cuidado mais leve, mas não é fácil cuidar de um idoso com
Alzheimer”, conta Raul que compara a tarefa a “cuidar de mais de dez crianças
de dois anos”.
No caso da Dona Amália, todos os familiares se
envolveram nos cuidados. Cerca de dois anos após o diagnóstico, ela passou a
ter memória de 15 segundos, repetindo sempre as mesmas frases. “Quem recebe o
diagnóstico na família precisa ter em mente que a doença não vai deixar de
existir e que aquela pessoa vai deixar de ser quem sempre foi dizendo coisas
que machucam e, muitas vezes, ficando agressiva. Também é fundamental contar
com uma rede de cuidados, sempre que possível, porque é muito difícil cuidar
sozinho. E, acima de tudo, é preciso lembrar de cuidar de si mesmo”, reforça
Raul.
Prati-Donaduzzi
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