Questões socioeconômicas impactam em decisões sobre filhos; congelamento de óvulos surge como alternativa para quem tem dúvidas sobre o futuro
O recente relatório do Fundo de População das
Nações Unidas (Unfpa), divulgado em 10 de junho, acendeu um alerta global: o
mundo vive uma crise de fertilidade impulsionada pelo alto custo de vida,
desigualdade de gênero e crescente incerteza sobre o futuro. O documento “A
verdadeira crise da fertilidade: a busca pela autonomia reprodutiva em um mundo
em transformação”, ouviu mais de 14 mil pessoas em 14 países, incluindo o
Brasil, e revela que quase 40% dos adultos desejam ter mais filhos do que têm,
mas esbarram em dificuldades financeiras e sociais para concretizar esse desejo.
No Brasil, onde 1.053 pessoas participaram da
pesquisa, o cenário não é diferente. A limitação econômica foi apontada como o
principal entrave à maternidade e paternidade. Para o médico ginecologista e
especialista em reprodução humana Dr. Luiz Fernando Pina, diretor do Baby
Center Medicina Reprodutiva, os dados reforçam uma tendência já observada em
consultórios e clínicas de fertilidade: “Cada vez mais mulheres têm adiado a
decisão de ter filhos por fatores como instabilidade financeira, ausência de
parceria ou insegurança com o futuro. O congelamento de óvulos é uma
alternativa que vem sendo muito buscada para preservar a fertilidade e garantir
a liberdade de escolha no futuro”, explica.
O relatório também destaca que adultos que
conseguem acesso a crédito habitacional têm quase um terço a mais de chance de
ampliar suas famílias. A observação reforça o quanto decisões reprodutivas
estão diretamente conectadas a políticas públicas de moradia, emprego e
proteção social. “A autonomia reprodutiva deve estar no centro do debate”,
defende Pina. “Isso inclui acesso a métodos contraceptivos, informações sobre
fertilidade e tecnologias como a criopreservação de óvulos, que ainda são pouco
conhecidas ou acessadas por grande parte da população brasileira.”
A pesquisa mostra ainda que 1 em cada 3 adultos
relatou ter vivenciado uma gravidez indesejada, enquanto 1 em cada 4 afirma não
se sentir capaz de ter um filho. “Esses dados indicam que o planejamento
reprodutivo, apesar de essencial, ainda é um privilégio de poucos. Falar sobre
congelamento de óvulos é falar também sobre democratização do acesso à saúde
reprodutiva, uma agenda urgente para o Brasil”, finaliza o especialista.
O Brasil foi o único país de língua portuguesa incluído no levantamento, que envolveu também Alemanha, Estados Unidos, Índia, Suécia, México, entre outros. A pesquisa reafirma um ponto comum entre diferentes culturas: as pessoas querem mais filhos do que têm, mas precisam de condições reais para tomar essa decisão com segurança.
Luiz Fernando Carvalho - médico ginecologista especializado em reprodução humana e endometriose. Pós-doutor em Reprodução Humana pela Harvard Medical School/USP e doutor em Ginecologia pela FMUSP, com especialização em pesquisa na Cleveland Clinic (EUA). É fundador da clínica Baby Center Medicina Reprodutiva e possui título de especialista em Ginecologia e Obstetrícia (TEGO 126/2013) e em Reprodução Humana pela FEBRASGO e SBRA.

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