Relatório inédito do Instituto Questão
de Ciência destaca queda nas coberturas vacinais infantis desde 2015, com metas
não cumpridas, abandono crescente e desigualdades regionais. Embora haja sinais
de recuperação desde 2022, para a maioria das vacinas, 80% ou mais dos
brasileiros ainda viviam, em 2023, em áreas que não atingiam as metas do PNI
O Brasil enfrentou uma das mais graves crises em saúde pública
desde a criação do Programa Nacional de Imunizações (PNI), mais de meio século
atrás. O Anuário VacinaBR 2025, elaborado pelo Instituto
Questão de Ciência (IQC) com apoio da Sociedade Brasileira de Imunizações
(SBIm) e parceria do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF),
revela uma queda contínua e generalizada nas coberturas vacinais infantis a
partir de 2015, intensificada em alguns casos após 2020, possivelmente devido à
pandemia de Covid-19. Apesar da recuperação iniciada em 2022 e acelerada em
2023, o relatório mostra que nenhuma das vacinas infantis do calendário
nacional atingiu as metas de cobertura estabelecidas pelo PNI em todos os
estados em 2023.
O Anuário VacinaBR, que compreende o período que vai de 2000 a
2023, representa um marco inédito e pioneiro no panorama da saúde
pública brasileira. Concebido a partir da percepção da dificuldade enfrentada
por profissionais da área, pesquisadores, gestores e jornalistas no acesso à
informação, o relatório é um produto do VacinaBR, uma plataforma criada pelo IQC com o apoio da SBIm em
dezembro de 2023 para promover transparência e acessibilidade aos dados de
vacinação pública disponíveis no Brasil.
Além da análise das dificuldades enfrentadas na cobertura vacinal,
o estudo destaca o abandono vacinal como um problema crônico: vacinas que
exigem múltiplas doses, como a tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola),
apresentam altas taxas de evasão entre a primeira e a segunda dose. Em alguns
estados, esse indicador ultrapassa os 50%, comprometendo a efetividade da
imunização e aumentando o risco de reintrodução de doenças controladas.
As disparidades regionais e municipais também preocupam. Mesmo
quando a média estadual parece satisfatória, há variação interna, com
municípios vizinhos apresentando coberturas vacinais drasticamente diferentes.
Isso cria bolsões de baixa cobertura, tornando essas áreas vulneráveis ao
ressurgimento de doenças.
“Após anos de queda nas coberturas vacinais infantis, Brasil tem
avançado na retomada da vacinação, com importantes conquistas em diversas
regiões do país. Ao mesmo tempo, o relatório permite identificar onde ainda
existem desigualdades regionais e estruturais que precisam ser enfrentadas. Ter
um instrumento como esse é essencial para acompanhar os avanços alcançados e
para embasar a construção de políticas públicas de imunização cada vez mais
eficazes", comenta Luciana Phebo, Chefe de Saúde do UNICEF no Brasil.
O cenário desafiador para a vacinação infantil no Brasil é
evidenciado, ainda, por mecanismos de avaliação internos do próprio governo,
como explica Antonia Maria da Silva Teixeira, enfermeira sanitarista
especialista em Epidemiologia e Saúde Pública pela UFRN, em análise inédita
publicada no Anuário. No texto, ela informa que o Programa de Qualificação das
Ações de Vigilância em Saúde (PAQVS), indicador do Governo Federal que oferece
incentivos financeiros aos entes federativos por resultados atingidos, obteve
desempenho alarmante em relação à proporção de vacinas que atingiram índice de
95% de cobertura dentre as quatro selecionadas que compõem o Calendário
Nacional de Vacinação para crianças com menos de 1 ano de idade: pentavalente
(terceira dose), poliomielite (terceira dose), pneumocócica 10-valente (segunda
dose) e, com 1 ano de idade, a vacina tríplice viral - sarampo, rubéola e
caxumba (primeira dose). Em 2023, menos de um terço dos municípios brasileiros
(32%) conseguiu cumprir a meta de cobertura para os quatro imunizantes.
“Esse cenário evidencia a importância da transparência e da
sistematização do acompanhamento dos indicadores relativos à vacinação”,
observa Natalia Pasternak, presidente do IQC. “Precisamos de dados, estratégia
e compromisso institucional com a ciência e a prevenção. O Anuário VacinaBR é
nossa contribuição para isso”.
Ao consolidar séries históricas sobre a vacinação infantil no
país, a publicação representa o primeiro documento estatístico abrangente a
oferecer um panorama robusto e confiável sobre a cobertura vacinal no Brasil.
Para Paulo Almeida, diretor executivo do IQC e coordenador do relatório, a
expectativa é de que o documento funcione como “base sólida para análises
técnicas e tomada de decisões oficiais, ampliando a transparência e o
entendimento sobre a situação da vacinação no território nacional”.
“Vacinação sempre foi um tema caro ao IQC, desde sua fundação. Por
isso, frente ao volume inédito de dados que compilamos na plataforma VacinaBR,
pudemos conceber um anuário que funcionasse como ferramenta para qualificar o
debate público e, fundamentalmente, apoiar a criação e a gestão de políticas
públicas de imunização baseadas em evidências no Brasil. Esta primeira edição
inaugura uma série de publicações anuais que visam monitorar e documentar o
cenário vacinal do país com regularidade e consistência metodológica”,
acrescenta Almeida.
Metodologia
robusta e dados para ação pública
O Anuário é fruto do cruzamento de bancos públicos de vacinação
(como o DataSUS e o InfoMS) com dados populacionais do IBGE e Sinasc. O estudo analisa
dados de doses aplicadas, taxa de abandono e homogeneidade de cobertura do
calendário de vacinação infantil, mais a vacina HPV para adolescentes.
O anuário é um desdobramento da Plataforma VacinaBR,
lançada em 2023 pelo IQC, que já se tornou referência entre profissionais de
saúde e imprensa. Com interface acessível e interativa, o sistema reúne todas
as vacinas do calendário infantil e também para HPV, por ano e por localidade.
O Anuário VacinaBR completo estará disponível gratuitamente em Link a partir de 17 de junho.
Principais
achados por vacina
Sarampo, caxumba e rubéola (SCR) - Em 2014, todos os estados cumpriam a
meta de 95% para a primeira dose. Em 2023, apenas quatro estados alcançaram
essa meta. Além disso, 14 estados apresentaram cobertura inferior a 50% para o
esquema completo.
Poliomielite -
Desde 2016, o Brasil não atinge a meta de 95% de cobertura vacinal. Em 2023,
menos de 20% da população brasileira vivia em municípios que cumprem a meta de
vacinação contra poliomielite. O índice ficava entre 60% e 75% na década de
2001 a 2010.
Meningococo C - Nenhum estado atingiu a meta de cobertura vacinal em 2021, 2022
ou 2023. Em 2023, quase 90% da população brasileira residia em municípios que
não alcançaram a meta, um aumento significativo em relação aos 25% em 2011.
HPV - Apesar da expansão para meninos e alteração para dose única a
partir de 2024, a cobertura da segunda dose (tanto feminina quanto masculina)
manteve índices baixos em 2023 (abaixo de 80% para meninas e abaixo de 50% para
meninos). Apenas nove estados e o Distrito Federal atingiram coberturas acima de
80%, a maioria no Sudeste e Sul, e apenas o Paraná ultrapassou 90%. O
levantamento considera dados de 2023 e inclui a porcentagem de adolescentes que
completariam 15 anos em 2024 e já haviam sido vacinados.
A adesão dos meninos é notavelmente baixa. As coberturas para a
primeira dose em adolescentes do sexo masculino que completaram 15 anos, entre
2020 e 2024, ficaram em torno de 65% a partir de 2021. Para a segunda dose,
mantiveram-se em torno de 50% a partir de 2021. Acre, Pará, Amapá e Rio de
Janeiro destacam-se negativamente pelos baixos índices em uma ou ambas as
doses/sexos.
BCG - Historicamente com bons índices devido à aplicação em dose única, a cobertura caiu significativamente a partir de 2019, quando apenas três unidades da federação atingiram a meta de vacinação de cobertura, e onze apresentaram índices abaixo de 80%.
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Metas não atingidas e abandono em alta
O Anuário VacinaBR revela que, apesar
dos percentuais crescentes observados nos últimos dois anos do estudo, ainda
assim, em 2023, nenhuma vacina infantil do calendário nacional atingiu a meta
de cobertura em todos os estados, com destaque negativo para poliomielite,
meningococo C, Hib e varicela, para as quais nenhum estado alcançou a meta
naquele ano. A situação da vacina meningocócica C é considerada crítica, pois
nenhum estado cumpriu a meta entre 2021 e 2023.
Também chama a atenção o quadro para a vacinação contra a
varicela, já que, em 2023, apenas 3% da população brasileira vivia em
municípios que atingiam 95% de cobertura vacinal em crianças de um ano de
idade. Apesar dessa vacina nunca ter atingido a meta pretendida pelo PNI a
nível nacional, esse é o menor percentual desde o início da vacinação contra a
doença, iniciada em 2013.
O relatório mostra ainda que vacinas que exigem múltiplas doses
enfrentam altos índices de abandono, com cobertura caindo significativamente da
primeira para as doses seguintes e reforços. Para sarampo, caxumba e rubéola,
por exemplo, o abandono superou 50% em estados como Acre, Pará, Amapá, Maranhão
e Mato Grosso do Sul.
Ainda que menor, o abandono também afeta vacinas como a pneumocócica
e a rotavírus, dificultando o cumprimento das metas mesmo onde as primeiras
doses têm boa aceitação. O padrão se repete: quanto mais longa a jornada
vacinal, maior a evasão.
Disparidades regionais e bolsões de risco
As análises por municípios e estados mostram que, mesmo quando a
média estadual parece razoável, há enormes variações de uma cidade para a
outra. Em estados como Amazonas, Pará, Maranhão e Rio Grande do Sul, a
cobertura pode ir de 95% a menos de 50% entre municípios vizinhos. Esses
bolsões de baixa cobertura criam zonas vulneráveis ao ressurgimento de doenças
e comprometem a eficácia da imunização coletiva.
A região Norte demonstra ser a mais vulnerável do país. Lá se
concentram os menores índices de cobertura para sarampo, caxumba, rubéola,
varicela e poliomielite. Estados como Acre, Amapá, Pará, Rondônia e Roraima
apresentam os piores resultados em abandono vacinal e na aplicação de segundas
doses.
Ainda assim, estados ricos e populosos também apresentaram
resultados preocupantes. É o caso do Rio de Janeiro, a terceira maior população
e o segundo PIB do país. Em 2023, o estado não atingiu as metas de cobertura
vacinal do PNI para nenhuma das doses analisadas de diversas vacinas, como
sarampo, pneumocócica, meningocócica C e poliomielite, frequentemente ficando
abaixo das médias nacionais.
Ainda no estado do Rio de Janeiro, observa-se redução na adesão
entre a primeira e as doses subsequentes, com taxas de abandono significativas,
chegando a 50% para algumas vacinas. As coberturas específicas em 2023 incluem
36,9% para crianças que receberam a segunda dose de sarampo com 1 ano e baixos
índices para hepatite A (65,1%) e varicela (39,4%). A vacinação contra HPV em
adolescentes também demonstra baixa adesão, especialmente entre o público
masculino.






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