A tecnologia deveria ser um dos maiores motores da inovação, mas, ao invés disso, em muitas empresas, acaba se tornando um freio deste desenvolvimento. Em uma era intensa de transformações digitais, a corrida desenfreada pelo destaque competitivo impulsiona o investimento massivo desses recursos, muitas vezes, sem inteligência ou real conhecimento de como funcionam. E, o que acontece quando essa adoção é puramente reativa e carece de profundidade estratégica? A tecnologia, ao invés de alavancar, passa a travar a inovação.
Para
entendermos melhor essa correlação, vamos utilizar o exemplo da inteligência
artificial, um dos recursos que mais vem se destacando nesse sentido. Segundo
uma pesquisa da McKinsey, a adoção de IA subiu de 55% para 72% globalmente
entre 2023 e 2024. No Brasil, outro estudo da IDC apontou que 58% das empresas
nacionais já utilizam esse recurso, além de 32% que se consideram preparadas
para aproveitá-la nos próximos dois anos.
Essa
virou uma das tecnologias mais presentes em nosso cotidiano, em soluções
amplamente utilizadas pela população como o ChatGPT, Gemini e demais
ferramentas de conversação. Mas, e se disséssemos que os exemplos acima não
são, de fato, inteiramente desenvolvidos com base na IA? São classificados, na
verdade, como modelos de linguagem de grande porte (LLM), os quais se utilizam
de deep learning e
redes neurais para processar e gerar linguagem natural.
Outro
ponto crucial que poucos se questionam é a origem dos dados compartilhados por
essas ferramentas. Muitos deles captam as informações provenientes das
plataformas melhor ranqueadas nos buscadores online – porém, até que ponto são,
realmente, verídicas e confiáveis? Tudo que está disponível online nesses sites
pode ser totalmente acreditado? Quem os inseriu, e de onde também os
capturaram?
Falta
esse senso crítico quanto ao entendimento do que é, ou não, uma inteligência
artificial, assim como a veracidade de tudo que é compartilhado por essas redes
neurais. Sem esse olhar e critérios rigorosos, sua adoção massiva pela ânsia em
também contar com benefícios de uma IA poderá, certamente, gerar muito mais uma
dependência perigosa do que um investimento inteligente e vantajoso ao
crescimento corporativo.
Imagine
esse movimento desenfreado dentro de cada vez mais organizações ao redor do
mundo, direcionando essa tecnologia nos processos internos na busca por um
maior lucro, destaque competitivo, e demais conquistas que elevem a imagem e
reputação da marca em seu segmento. Ao invés de se tornar um apoiador
fundamental nessa prosperidade, tenderá, na verdade, a engessar um planejamento
realmente estratégico, assim como intensificar uma dependência tecnológica sem
nenhuma geração de valor.
Com
isso, ao invés de entendermos a tecnologia como um copiloto do ser humano, de
forma que impulsione nossa criatividade e desenvolvimento de produtos e
serviços inovadores, muitas vezes, ela assume um protagonismo por completo nas
tarefas de diversos profissionais, de forma que tome todas as decisões sozinha
do que deve ser feito e, com isso, elevando os riscos de engessar processos e
métodos que poderiam melhorar a eficácia das operações.
Para
evitar esses riscos de utilizar a tecnologia como substituta do pensamento
crítico e criatividade de cada um de nós, é essencial que, antes de tudo, haja
um maior entendimento de que forma cada recurso realmente funciona, até que
ponto suas informações são 100% verídicas e qual a melhor forma de explorá-los
a favor de um melhor desempenho e produtividade. É como se fosse o copiloto de
um avião: nunca irá comandar totalmente a aeronave, mas apoiar em um voo seguro
que chegue ao destino.
Faça,
também, diagnósticos periódicos nas empresas, em termos de cultura corporativa,
aplicando métricas direcionadas a esse sentido que sinalizem de que forma os
times estão compreendendo os pontos acima e o que ainda pode ser melhorado para
que consigam gerar valor com as ferramentas investidas. A gestão de
conhecimento é parte fundamental para o máximo proveito de cada tecnologia, de
forma que as equipes saibam como manusear soluções disruptivas entendendo seu
papel como auxiliadoras, e não que substituirão o trabalho humano.
Ter
tempo de qualidade fora das telas é outro fator importante. O brasileiro passa,
em média, mais de nove horas navegando na internet, segundo dados da pesquisa
Consumer Pulse, o que não apenas pode agravar transtornos mentais como a
ansiedade, mas também prejudicar nosso poder criativo. Quanto mais tempo de
ócio desconectados tivermos, maior será o descanso de nossas mentes e,
consequentemente, as chances de termos ideias inovadoras.
O fato de a tecnologia poder travar a inovação não é uma crítica às ferramentas digitais em si, mas sim à falta de entendimento e estratégia quanto a seus funcionamentos e aplicações. O futuro da inovação não será definido por quem investe mais em hardwares ou softwares robustos, mas sim por quem conseguir integrar a digitalização com real geração de valor. Em uma comparação, a tecnologia é como se fosse o motor de um veículo, e a estratégia o mapa. Sem este último, o motor apenas nos fará andar em círculos.
Alexandre
Pierro - mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico,
bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na
implementação da ISO de inovação na América Latina
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