Pesquisas mostram
que 7 em cada 10 brasileiros se arrependem de compras feitas por impulso
durante o período promocional. Especialista explica o papel da ansiedade nesse
comportamento e como a TRG ajuda a romper o ciclo
As promoções de Black Friday, que movimentaram mais
de R$ 7,5 bilhões em 2023 segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC),
também revelam um lado emocional pouco discutido, o consumo por ansiedade. De
acordo com levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL)
e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil, 2024), 68% dos brasileiros
afirmam já ter comprado por impulso e se arrependido logo depois, especialmente
em períodos de grandes descontos.
O fenômeno, embora estimulado por estratégias de
marketing e gatilhos de escassez, tem raízes emocionais mais profundas. Para o
psicólogo Jair Soares dos Santos, doutorando em Psicologia pela Universidade de
Flores (UFLO), na Argentina, e fundador do Instituto Brasileiro de Formação de
Terapeutas (IBFT), a compulsão por compras está diretamente ligada à ansiedade.
“A compra impulsiva é uma tentativa inconsciente de aliviar uma tensão interna.
O cérebro entende aquele ato como uma forma de prazer imediato, mas o alívio
dura pouco e logo vem o arrependimento”, explica.
Segundo ele, o problema não está no ato de
consumir, mas na função emocional que o consumo assume. “Eu já atendi várias
pessoas que tinham problema de compras compulsivas, mesmo tendo consciência no
momento da compra de que não precisavam daquilo. A questão não é o objeto em si
e sim, o vazio que ele tenta preencher”, afirma o psicólogo.
A Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG),
método criado por Soares e aplicado no IBFT, propõe identificar a origem
emocional dessa necessidade de satisfação imediata. O processo atua no
reprocessamento de experiências antigas que moldaram a forma como o indivíduo
lida com a ansiedade e o controle. “Muitas pessoas aprendem desde cedo a buscar
compensação no externo, seja no trabalho, na comida ou no consumo. Quando a dor
emocional não é acolhida, ela se transforma em urgência e a compra se torna um
anestésico socialmente aceito”, explica.
A ansiedade, segundo o psicólogo, é a base de
praticamente todos os comportamentos compulsivos. “A mente ansiosa busca
controle e previsibilidade. Comprar é uma forma simbólica de dizer, ‘agora eu
tenho algo sob controle’. O problema é que esse alívio é ilusório e reforça o
ciclo. A pessoa compra para se acalmar, mas o arrependimento logo reativa a
ansiedade e o impulso volta ainda mais forte”, alerta o especialista.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2023)
indicam que o Brasil lidera os índices globais de transtornos de ansiedade,
afetando 9,3% da população. Em paralelo, o estudo Radiografia do Consumo no
Brasil (NielsenIQ, 2024) mostra que 62% dos consumidores admitem sentir culpa
após compras feitas em momentos de estresse ou tristeza.
Para romper esse padrão, Soares explica que é
preciso compreender a origem da ansiedade antes de tentar controlar o sintoma.
“Não adianta apenas se proibir de comprar. É necessário entender o que está
sendo buscado por trás dessa urgência. Quando a causa emocional é trabalhada, a
necessidade de repetição desaparece naturalmente”, orienta.
Ele destaca que a TRG oferece um caminho seguro
para reorganizar os registros emocionais que sustentam o comportamento
compulsivo. “A terapia permite que o cérebro reconheça que aquela dor do
passado não precisa mais ser compensada. Quando isso acontece, a pessoa pára de
buscar no consumo uma forma de se sentir inteira.”
Um exercício para pensar antes
de comprar
De acordo com Jair Soares, o segredo
está em pausar o corpo para escutar o que o impulso tenta dizer. “A urgência da
compra é uma forma que o cérebro encontra para aliviar a ansiedade. Quando a
pessoa pára por alguns segundos e identifica o que está sentindo, o impulso
perde força”, explica.
O exercício proposto segue
três etapas simples:
- Nomeie a sensação. Antes de clicar em
“finalizar compra”, pergunte-se: “O que estou sentindo agora?”. Ansiedade?
Tédio? Vazio? A TRG parte da ideia de que o sintoma é uma linguagem
emocional e nomeá-lo já começa a desativar o ciclo.
- Respire e observe o corpo. Feche os olhos por 30
segundos e perceba onde a tensão se manifesta no peito, na garganta, nas
mãos. “A mente ansiosa se desconecta do corpo. Trazer a atenção para o
físico ajuda o cérebro a perceber que não há perigo real”, orienta Soares.
- Questione a necessidade. Pergunte-se com
honestidade: “Estou comprando para suprir algo que me falta ou para
aliviar algo que estou sentindo?”. Se houver dúvida, adie a decisão por 24
horas. “Quando a urgência é emocional, ela não resiste ao tempo. Se ainda
fizer sentido no dia seguinte, a compra é mais consciente”, explica o
psicólogo.
Soares reforça que o objetivo não é eliminar o
prazer de consumir, mas reconhecer quando o consumo está a serviço da
ansiedade. “O problema é quando a compra se torna uma tentativa de acalmar o
que não foi escutado”, finaliza.
Jair Soares dos Santos - psicólogo, terapeuta, hipnólogo, pesquisador e professor, além de ser o fundador do Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas (IBFT). Criador da Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG), sua trajetória é marcada por desafios pessoais que o motivaram a buscar soluções eficazes para o sofrimento emocional. Após enfrentar episódios de depressão e insatisfação com abordagens terapêuticas tradicionais, Jair dedicou-se ao desenvolvimento de uma metodologia que pudesse proporcionar alívio real e duradouro aos pacientes. Sua formação inclui graduação em Psicologia pela Faculdade Integrada do Recife e especializações em áreas como hipnoterapia e análise comportamental. Atualmente é doutorando em Psicologia pela Universidade de Flores (UFLO) na Argentina, onde desenvolve uma pesquisa com a TRG em pessoas com depressão e ansiedade, alcançando resultados promissores com a remissão dos sintomas nestes participantes. Há mais dois doutorados com a TRG a serem desenvolvidos neste momento.
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Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas - IBFT
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