Após mais de uma década desde a primeira crise de pancreatite, Josiano Severino de Santana finalmente recebeu o diagnóstico de síndrome da quilomicronemia familiar (SQF)
Desde
jovem, Josiano Severino de Santana, 51 anos, morador de Jaboatão dos Guararapes
(PE), convivia com sintomas sem explicação: triglicérides elevados, dores
abdominais intensas, inchaço, desconforto após as refeições, palpitações e
fadiga. Em 2008, foi diagnosticado com diabetes tipo 2, mas os problemas
continuaram mesmo com o tratamento. Entre 2011 e 2023, Josiano enfrentou três
crises graves de pancreatite e chegou a registrar triglicérides em torno de
4.900 mg/dL, cerca de 30 vezes acima da média considerada normal, que varia
entre 150 a 175 mg/dL.1 A confirmação do diagnóstico aconteceu
apenas em maio de 2024: se tratava da síndrome da quilomicronemia familiar
(SQF), uma enfermidade rara. “Passei anos tomando altas doses de medicamentos
que não traziam resultado, seguindo dietas genéricas que não consideravam meu
histórico e até enfrentando julgamentos sobre meu estilo de vida. Só quando
encontrei um atendimento cuidadoso e informado sobre doenças raras consegui, enfim,
chegar ao diagnóstico”, relata.
Na
primeira crise de pancreatite, Josiano ficou 14 dias internado e quase precisou
ser entubado. Em 2017, voltou ao hospital por oito dias com o mesmo quadro,
saindo com sequelas respiratórias e dificuldade de fala. Já em 2023, enfrentou
outra internação de sete dias. “Fora as dores intensas, desorientação e
mal-estar, as crises vinham acompanhadas de descontrole da glicose,
hipertensão, fadiga, febre e inchaço. Com o tempo, meu pâncreas deixou de
funcionar adequadamente e passei a depender de mais um tipo de insulina, além da
que já usava para controlar o diabetes”, conta.
O
alívio do diagnóstico chegou há pouco mais de um ano, quando uma
endocrinologista do posto de saúde de sua cidade revisou toda sua trajetória clínica
e solicitou um teste genético chamado “teste da bochechinha”, que analisa o DNA
coletado da mucosa bucal. O exame confirmou a SQF, uma doença genética
ultrarrara que impede o corpo de metabolizar corretamente as gorduras e exige
uma dieta extremamente restrita, geralmente entre 15 e 20 gramas por dia.2,3
“O diagnóstico finalmente esclareceu os sintomas que eu sentia, mas não deixou
de ser impactante ao perceber que por anos convivi com uma doença rara sem
tratamento adequado. O peso emocional foi grande”, relembra Josiano.
Hoje,
Josiano é acompanhado trimestralmente no Hospital das Clínicas da Universidade
Federal de Pernambuco (HC-UFPE). Seu plano de cuidado envolve controle rigoroso
de glicose, pressão arterial e colesterol, além de orientação nutricional para
dieta extremamente restrita em gorduras. “Nesse sentido, também estou em
processo para ter acesso a uma terapia indicada especificamente para a doença
que ajuda no controle da gordura no sangue”, explica.
Nesta
trajetória, que o afastou de seu trabalho na construção civil e impôs ajustes
diários, Josiano reforça o apoio fundamental da Associação Brasileira da SQF
(ABSQF). “Com a ABSQF, pude compartilhar experiências, compreender melhor a
doença e receber acolhimento. E, para quem também está nessa jornada, não
desista, mesmo quando parecer impossível. Busque especialistas, insista nos
exames, nas investigações, porque entender a causa muda tudo.”
Impactos da SQF e o cuidado adequado
Segundo
a cardiologista Maria Cristina Izar, professora da Universidade Federal de São
Paulo (Unifesp), a SQF pode afetar homens e mulheres em qualquer fase da vida,
além de ser uma doença exclusivamente genética que segue um padrão de herança
autossômico recessivo, ou seja, a pessoa precisa herdar duas cópias do gene
mutado - uma de cada progenitor - para desenvolver a doença. “Os sintomas
muitas vezes são inespecíficos, como dores abdominais intensas, fadiga e
erupções na pele, chamados de xantomas eruptivos, o que contribui para
diagnósticos tardios”, explica a especialista, que reforça a importância do
exame genético para confirmar a suspeita e direcionar o tratamento adequado.
Entre
os sinais mais graves está a pancreatite aguda.2 “Ela ocorre porque
o excesso de gordura obstrui os vasos sanguíneos do pâncreas, dificultando a
circulação do sangue e provocando inflamação no órgão”, explica a especialista.
Essa inflamação costuma se manifestar por dores abdominais intensas e
incapacitantes, que frequentemente exigem internações prolongadas. O risco é
ainda maior porque nos pacientes com a síndrome esses valores podem facilmente
ultrapassar 1.000 mg/dL. “Esses níveis extremamente elevados favorecem ataques
repetidos de pancreatite, que não só comprometem a qualidade de vida, mas
também podem levar à necrose pancreática e falência do órgão”, alerta a médica.
O
manejo da SQF exige acompanhamento multidisciplinar, podendo envolver
profissionais como nutricionista, endocrinologista, psicólogo,
gastroenterologista e hepatologista.1 “É essencial também que os
pacientes sigam uma dieta restrita em gorduras, o que significa limitar até
alimentos considerados saudáveis, como abacate, castanhas e azeite. A prática
regular de atividades físicas também é fundamental. A SQF não tem cura, mas
terapias inovadoras têm ampliado as perspectivas, como os inibidores da
proteína APOC3. “Ao silenciar esse gene, o organismo consegue quebrar e remover
os triglicerídeos com mais eficiência, reduzindo significativamente o risco de
pancreatite e de outras complicações relacionadas ao excesso de gordura no
sangue”, finaliza a especialista.
1 NATIONAL HEART, LUNG, AND BLOOD INSTITUTE. High Blood Triglycerides. Disponível em: Link. Acesso em: 29 set. 2025.
2 Williams L, Rhodes KS, Karmally W, Welstead LA, Alexander L, Sutton L, patients and families living with FCS Familial chylomicronemia syndrome: Bringing to life dietary recommendations throughout the life span. J Clin Lipidol. 2018;12(4):908–919. doi: 10.1016/j.jacl.2018.04.010. [DOI] [PubMed] [Google Scholar][Ref list]Flanigan KM. Duchenne and Becker muscular dystrophies. Neurol Clin. 2014 Aug;32(3):671-88, viii. doi: 10.1016/j.ncl.2014.05.002. PMID: 25037084.
3 Izar MCO, Santos Filho RDD, Assad MHV, Chagas ACP, Toledo Júnior AO, Nogueira ACC, Souto ACCF, Lottenberg AMP, Chacra APM, Ferreira CEDS, Lourenço CM, Valerio CM, Cintra DE, Fonseca FAH, Campana GA, Bianco HT, Lima JG, Castelo MHCG, Scartezini M, Moretti MA, Barreto NSF, Maia RE, Montenegro Junior RM, Alves RJ, Figueiredo RMM, Fock RA, Martinez TLDR. Brazilian Position Statement for Familial Chylomicronemia Syndrome - 2023. Arq Bras Cardiol. 2023 Mar;120(4):e20230203. English, Portuguese. doi: 10.36660/abc.20230203. Erratum in: Arq Bras Cardiol. 2023 May 26;120(5):e20230306. doi: 10.36660/abc.20230306. PMID: 37075362; PMCID: PMC10348387.
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