O que se espera de um funcionário? Ser pontual, entregar mais do que esperado, vestir a camisa. E se for uma funcionária mulher?
Acrescente
à lista: vestir-se de forma “adequada”, “ser forte” e encarar as coisas “como
um homem”. Não se ausentar em períodos de forte crise menstrual. Fazer vista
grossa para alguns comentários e comportamentos inadequados.
Em
muitos ambientes, é isso que se espera das mulheres: que deixem parte de quem
são na porta e entrem descomplicadas, neutras, produtivas e que não criem
problemas. É justamente desse padrão de exigência e silêncio que nasce boa
parte da violência que mulheres enfrentam no trabalho.
Essa
violência não é só o assédio ou o comentário inadequado. Às vezes, é a reunião
em que se tenta falar e não consegue. O chefe que sabe exatamente como
desestabilizar. O olhar que diminui. A promoção que não vem. O salário menor do
que o do colega.
Para quem já precisou sobreviver a outros medos, dentro e fora da vida profissional, cada microagressão desperta gatilhos que não desligam tão facilmente. E é aí que a violência encontra o esgotamento.
Pesquisas
recentes mostram que trabalhadores expostos à violência psicológica têm risco
significativamente maior de desenvolver burnout.
Não é difícil entender o porquê. Quando o corpo aprende a sobreviver, ele não
sabe mais relaxar, a mente se acostuma a mapear perigos, o ambiente reforça a
sensação de desproteção, a exaustão deixa de ser fase e vira modo de existência.
No
dia 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as
Mulheres, costuma-se falar das agressões mais explícitas. Mas é preciso lembrar
que muitas mulheres adoecem silenciosamente dentro de empresas que não
reconhecem a violência que se infiltra nas entrelinhas, seja moral, emocional,
institucional ou estrutural.
Falar
sobre isso é importante porque o ambiente de trabalho continua sendo um dos
espaços onde a violência contra mulheres se reproduz com maior sutileza e menor
responsabilização. Reconhecer isso não é fragilidade. É responsabilidade
corporativa. Ao lembrar que violência também se mede em interrupções, em
silenciamentos, em pequenas erosões diárias da nossa voz, pode-se construir
ambientes seguros, lutando por dignidade, autonomia e futuro.
No
25/11 e em todos os outros dias, abordar esse tema é um convite para que
profissionais mulheres possam existir inteiras, sem precisar esconder os
traumas e viver no silêncio. Para que o trabalho deixe de ser mais um
território de sobrevivência e possa, finalmente, ser um espaço de vida, onde todos
vivem seu propósito de forma plena.
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