Cirurgião materno-fetal destaca a importância da abordagem precoce e especializada
A eritroblastose fetal, também conhecida como doença
hemolítica perinatal, é uma complicação rara, mas potencialmente grave, que
pode ocorrer durante a gestação quando há incompatibilidade sanguínea entre mãe
e feto — geralmente envolvendo o fator Rh. Esse processo imunológico pode levar
à destruição das hemácias do bebê, causando anemia grave, icterícia, hidropisia
fetal (acúmulo excessivo de líquido em pelo menos dois espaços do corpo do
feto, como abdômen, pulmões, coração ou sob a pele, causando inchaço) e, em
casos mais severos, até óbito intrauterino ou neonatal.
Segundo o Prof. Dr. Rodrigo Ruano, médico e cirurgião
materno-fetal referência mundial nesse campo por mais de 20 anos, sendo
pioneiro em cirurgias fetais com vasta experiência nos Estados Unidos, Europa,
América Latina (incluindo o Brasil), a condição é evitável e tratável quando
diagnosticada a tempo.
“A eritroblastose fetal é uma condição séria, mas que
pode ser identificada e controlada com o devido acompanhamento. A chave está na
prevenção e no diagnóstico precoce, ainda no pré-natal”, afirma.
A doença geralmente ocorre quando uma mãe Rh-negativa
entra em contato com sangue Rh-positivo do feto, o que pode sensibilizá-la e
fazer com que seu sistema imunológico produza anticorpos contra as hemácias do
bebê em gestações futuras. Essa sensibilização pode acontecer durante o parto,
em abortos espontâneos, procedimentos invasivos como amniocentese (exame
pré-natal invasivo que envolve a coleta de uma amostra do líquido amniótico, o
qual envolve o feto no útero, para análise) ou mesmo pequenos sangramentos
transplacentários.
O rastreamento da eritroblastose fetal começa com um
exame simples de tipagem sanguínea e pesquisa de anticorpos logo nas primeiras
semanas de gestação. Em casos de risco, o acompanhamento é feito por meio de
exames sorológicos seriados e ultrassonografia com doppler do cérebro fetal,
que permite avaliar sinais precoces de anemia. “Com o avanço da medicina fetal,
conseguimos identificar alterações no fluxo sanguíneo cerebral que indicam
anemia antes mesmo de qualquer manifestação clínica. Isso nos permite intervir
com segurança, quando necessário”, explica Ruano.
Quando há risco confirmado de anemia fetal moderada a
grave, o tratamento pode incluir transfusões intrauterinas de sangue, feitas
ainda durante a gestação, geralmente a partir da 20ª semana. O procedimento,
realizado em centros especializados, pode ser repetido a cada duas a três
semanas até que o bebê esteja suficientemente maduro para nascer em segurança.
“As transfusões intrauterinas salvaram a vida de inúmeros bebês que, há algumas
décadas, não teriam chance de sobreviver. É uma técnica sofisticada, que exige
precisão, mas que tem excelentes resultados quando bem indicada”, destaca o
médico.
Apesar dos recursos terapêuticos avançados, a melhor
abordagem ainda é a prevenção. Para isso, administra-se a imunoglobulina
anti-Rh (RhIg) em gestantes Rh-negativas durante a 28ª semana de gestação e até
72 horas após o parto ou qualquer situação que envolva sangramento. Esse
protocolo reduz drasticamente as chances de sensibilização materna. “Com a
aplicação correta da imunoglobulina, conseguimos reduzir a incidência de
eritroblastose fetal a níveis mínimos. Mas é fundamental que todas as gestantes
tenham acesso ao exame de tipagem sanguínea e sigam com um pré-natal de
qualidade”, reforça o cirurgião.
A eritroblastose fetal, que já foi uma das principais causas
de mortalidade neonatal, hoje é amplamente controlável. A atuação integrada
entre obstetra, especialista em medicina fetal e neonatologista é essencial
para garantir o melhor desfecho para mãe e bebê. “Nosso papel é oferecer às
famílias a tranquilidade de que, mesmo diante de uma complicação como essa,
existem caminhos seguros, éticos e eficazes de cuidado. A medicina fetal tem
avançado para salvar vidas ainda dentro do útero. E isso é extraordinário”, finaliza
o especialista.
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