No Brasil, pacientes com diabetes representam 29%
dos indivíduos em diálise; 40% das pessoas com diabetes desenvolvem doença
renal crônica
O Dia Mundial do Diabetes, celebrado em 14 de novembro, destaca um alerta importante: aproximadamente 40% das pessoas diagnosticadas com diabetes, seja tipo 1 ou tipo 2, desenvolverão doença renal crônica (DRC)1 em todo o mundo, uma condição silenciosa e assintomática e, consequentemente, diagnosticada tardiamente na maioria dos casos2. No Brasil, estima-se que 29% dos casos de DRC que necessitam de diálise ocorram entre pessoas com diabetes, de acordo com dados do Censo Brasileiro de Diálise de 2024 da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN)3.
Isso ocorre porque, com o tempo, os altos níveis de glicose podem afetar os rins, tornando essencial que as pessoas diagnosticadas com diabetes também tenham acompanhamento com um nefrologista e dediquem atenção à saúde de seus rins. Para preservar a saúde renal, é crucial manter o controle glicêmico, realizar exames de rotina e investir em hábitos de vida saudáveis, como uma alimentação equilibrada e atividade física regular4.
No entanto, monitorar ativamente a saúde renal também é essencial. “Apesar da ampla disponibilidade de exames simples como a creatinina, que indica a saúde da função renal, ainda vemos uma lacuna significativa no diagnóstico de DRC no Brasil. Por isso, é crucial que pacientes diabéticos e hipertensos, especialmente aqueles com histórico familiar, estejam vigilantes e realizem esse rastreamento”, comenta o nefrologista e Gerente Médico da Vantive Brasil, Paulo Lins.
De acordo com o
especialista, a realidade hoje é que a vasta maioria dos pacientes renais no
Brasil chega à diálise de forma emergencial, após uma condição de saúde grave.
“O que acontece com 70% a 90% dos pacientes é que eles se sentem mal, realizam
exames e descobrem, na hora, que seu rim já não funciona mais. Portanto, estar
ciente dos fatores de risco, como o diabetes, é muito importante para garantir
um diagnóstico precoce e melhores condições de tratamento”, comenta Lins.
Doença Renal
Crônica e Opções de Tratamento
Quando os rins param de funcionar, duas principais terapias de diálise estão disponíveis: a hemodiálise (HD) e a diálise peritoneal (DP). Atualmente, mais de 172.000 brasileiros dependem da diálise para sobreviver, de acordo com o Censo Brasileiro de Diálise de 2024, realizado pela Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN)4. Diante desse cenário, especialistas apontam que a diálise peritoneal – uma modalidade que pode ser realizada em casa – é uma alternativa estratégica para reduzir a sobrecarga nos centros de hemodiálise e expandir o acesso ao tratamento, especialmente em regiões com menor infraestrutura.
No Brasil, 87,3%
dos pacientes realizam hemodiálise, 7,1% hemodiafiltração, e apenas 5,6%
(aproximadamente 7.000 pessoas) fazem diálise peritoneal5. Essa
baixa adesão contrasta com a orientação de 20% das agências de saúde, número
que já alcançou 15% nos Estados Unidos e 50% no México.
A hemodiálise, o padrão predominante no país, é realizada em clínicas especializadas, onde o paciente permanece conectado a uma máquina por cerca de quatro horas, três vezes por semana. É um procedimento extracorpóreo baseado na filtração do sangue. Assim como em muitas intervenções médicas, os desafios potenciais incluem risco de infecção, possível impacto cardiovascular e o desenvolvimento da síndrome pós-diálise, que pode resultar em sintomas temporários como fadiga e fraqueza após uma sessão.
A diálise peritoneal, por outro lado, utiliza o peritônio – uma membrana que reveste a cavidade abdominal – como um filtro natural. O tratamento é diário e, na maioria dos casos, realizado à noite enquanto o paciente dorme, utilizando uma máquina cicladora. Oferece mais autonomia, flexibilidade e qualidade de vida, permitindo que o paciente mantenha suas atividades diárias, trabalhe e viaje sem as limitações impostas pela hemodiálise. Embora geralmente segura, uma complicação conhecida da diálise peritoneal é a peritonite, uma infecção que pode ser manejada eficazmente com antibióticos.
Para o nefrologista Paulo Lins, a escolha do tipo de diálise deve ser feita de forma planejada, após um diagnóstico precoce da doença renal crônica. “Em um mundo ideal, após a identificação da falha renal, o paciente seria encaminhado a um nefrologista, que indicaria o melhor tipo de diálise para aquele caso. Ele pode ir a uma clínica de hemodiálise, onde fica conectado a uma máquina três vezes por semana, ou pode realizar a diálise peritoneal em casa, recebendo a máquina, as soluções e o treinamento para executar o procedimento com segurança”, explica.
O especialista reforça que, do ponto de vista clínico, os resultados de ambas as modalidades são equivalentes, mas a qualidade de vida com a diálise peritoneal é superior. “O paciente mantém sua autonomia, pode seguir trabalhando e viajando, não sente a ‘ressaca da hemodiálise’ e acorda sentindo-se bem”, diz. “Alguns dos benefícios indiretos da DP podem, de fato, melhorar alguns resultados clínicos para os pacientes, pois eles conseguem permanecer mais tempo em terapia”.
A diálise
peritoneal é coberta pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e está incluída na lista
de procedimentos da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Uma portaria
do Ministério da Saúde de 2011 estabeleceu a meta de que 20% dos pacientes em
diálise no Brasil utilizassem essa modalidade, mas, mais de dez anos depois, o
país ainda está longe de atingir esse objetivo. Para os especialistas, expandir
o uso da diálise peritoneal não significa apenas melhorar a qualidade de vida
dos pacientes, mas também reduzir os custos hospitalares e aliviar a sobrecarga
dos centros de hemodiálise, tornando o sistema de saúde mais eficiente e
acessível.
Referências:
1- Atlas do
Diabetes. Disponível em: Link.
Acesso em: Nov. 2025.
2- Ministério da
Saúde - Doenças renais crônicas. Disponível em: Link.
Acesso em: Nov. 2025.
3- Diretriz SBD
2025 – Manejo da doença renal do diabetes. Disponível em: Link.
Acesso em: Nov. 2025.
4- American
Diabetes Association. (s.d.). Doença Renal (Nefropatia). Disponível em: Link.
Acesso em: Nov 2025.
5- Censo SBN 2025.
Disponível em: Link. Acesso
em: Nov. 2025.
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