
Reprodução em 3D do projeto de Marcia Pastore.
Crédito: Marcelo Venzon
Marcia Pastore transforma os
vazios da Capela do Morumbi em esculturas e reflexão sobre o espaço

Crédito: Marcelo Venzon
Em Cabodá, obra inédita construída a partir dos furos originais da taipa de pilão, a artista Marcia Pastore instala gangorras que atravessam os muros da Capela do Morumbi e investigam as forças invisíveis que sustentam a arquitetura — e a própria ideia de equilíbrio entre interior e exterior, corpo e ausência
A artista
paulistana Marcia Pastore inaugura apresenta na Capela do Morumbi/Museu da
Cidade de São Paulo, a instalação inédita Cabodá. O projeto parte da estrutura
da edificação, feita em taipa de pilão, para construir uma obra que conecta
interior e exterior do edifício. A partir dos vazios deixados no processo construtivo,
Pastore transforma elementos arquitetônicos em escultura e propõe uma reflexão
sobre equilíbrio, corpo e espaço.
A obra,
selecionada pelo 1º Edital de Artes Visuais do Museu da Cidade de São Paulo,
instituição vinculada à Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa,
tem origem na observação dos furos deixados pelas travessas de madeira
utilizadas na construção em taipa de pilão, conhecidas como cabodás. Durante o
processo de erguer uma parede, essas travessas sustentam o molde enquanto o barro
é compactado; quando retiradas, deixam orifícios que permanecem como marcas da
ausência. A partir desses “vestígios”, Pastore concebeu gangorras em ferro e
argila, cada uma atravessando um dos furos originais da parede do altar. As
peças se projetam entre o interior e o exterior da capela, conectadas por um
mesmo eixo, mas separadas pela parede, num sistema de forças que mantém o
equilíbrio sem contato visual.
Essa tensão
invisível — entre o que sustenta e o que é sustentado — sintetiza a pesquisa da
artista, marcada pela observação das estruturas físicas e simbólicas do espaço.
“Sempre me interessou o modo como a arquitetura e o corpo se sustentam
mutuamente. Em Cabodá, esse equilíbrio aparece entre o que é visível e o
que permanece oculto. A parede da capela separa as partes, mas também as
conecta. É um trabalho sobre a força que existe no que não se vê — sobre a
presença que se constrói a partir da ausência”.
Cabodá torna visível o modo como o corpo e a arquitetura se afetam mutuamente. As gangorras, apoiadas em cavaletes de alturas variáveis, configuram uma coreografia estática de pesos e contrapontos. Para que um corpo se eleve, outro precisa tocar o chão. A força de um existe apenas pela resistência do outro. A parede, por sua vez, separa e conecta, funcionando como limite e mediadora — uma membrana entre dois mundos que se equilibram sem se enxergar.
A artista
realizou uma imersão em uma olaria no interior paulista para desenvolver as
peças de argila que compõem o trabalho. Durante o processo, testou deformações
em blocos cerâmicos industriais, batendo-os contra a parede até que perdessem
as arestas e ganhassem forma cilíndrica, próxima à dos vazios da taipa. O
gesto, quase performático, é tanto físico quanto simbólico: um embate entre
corpo e matéria que evidencia a resistência do material e a dimensão
experimental de sua prática.
“O trabalho
acontece quando se estabelece o diálogo. Não se trata de dominar a matéria, mas
de aprender com ela”, sintetiza a artista.
Ao longo de
mais de três décadas, Marcia Pastore consolidou uma trajetória singular na arte
contemporânea brasileira, investigando a plasticidade dos materiais e as formas
de ocupação do espaço. Sua pesquisa combina técnicas da escultura, da
engenharia e da arquitetura, incorporando estruturas pré-fabricadas, prumos,
roldanas e materiais maleáveis como gesso, breu e parafina.
A moldagem, recorrente em sua obra, é tanto procedimento construtivo quanto metáfora — um modo de convocar o público a perceber o espaço como extensão do corpo. Em Cabodá , esse princípio atinge novo grau de síntese: a escultura se confunde com a própria estrutura que a acolhe, revelando as linhas invisíveis que mantêm o edifício de pé.
Pastore já
realizou exposições individuais em instituições como a Pinacoteca de São Paulo,
o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ), o Museu Brasileiro da Escultura e
Ecologia (MuBE) e a Fundação Ema Klabin. Seus trabalhos integram acervos da
Pinacoteca, do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), do MAC USP e da
Fundação Marcos Amaro, entre outros.
Em Cabodá,
a artista amplia esse percurso com um trabalho de precisão formal e densidade
poética. Ao transformar os vazios da taipa em corpos de argila e ferro, Pastore
propõe uma escuta atenta da arquitetura e de sua memória material. O resultado
é uma instalação que atravessa o tempo e o espaço, fazendo da Capela do Morumbi
não apenas um cenário expositivo, mas um organismo em equilíbrio, sustentado
por forças que raramente se veem, mas sempre se sentem.
Museu da Cidade de São Paulo
O Museu da
Cidade de São Paulo, ligado ao Departamento dos Museus Municipais da Secretaria
Municipal de Cultura, tem como missão refletir sobre as dinâmicas físicas e
simbólicas da capital paulista, tratando a própria cidade como acervo
operacional. Em uma metrópole marcada pela expansão urbana, pela multiplicidade
de centralidades e pela diversidade cultural, o museu busca compreender e
registrar a memória coletiva e as expressões urbanas que moldam São Paulo.
Originado do Departamento Municipal de Cultura criado por Mário de Andrade em 1935, o museu se consolidou em 2018 como parte do Departamento de Museus Municipais. Sua rede física abrange doze edificações históricas e um logradouro: Solar da Marquesa de Santos, Casa da Imagem, Chácara Lane, Casa Modernista, Casa do Butantã (Bandeirante), Casa do Caxingui (Sertanista), Sítio da Ressaca, Casa do Grito, Casa do Tatuapé, Sítio Morrinhos, Cripta Imperial, Capela do Morumbi e Beco do Pinto.
Com acervo
composto por seis tipologias — arquitetônico, fotográfico, bens móveis,
história oral, documental e bibliográfico — o Museu da Cidade promove
pesquisas, exposições e debates sobre o passado, o presente e os futuros
possíveis, reafirmando sua missão de gerar e socializar conhecimento sobre São
Paulo para o desenvolvimento social.
Atuando na
categoria dos museus de cidade, o Beco do Pinto e a Capela do Morumbi abrigam
instalações site specific. Desde 2024, a seleção das propostas artísticas é
regulamentada pelo Edital de Artes Visuais do Museu da Cidade de São Paulo.
SERVIÇO
Exposição: Cabodá,
de Marcia Pastore
Abertura: 16 de novembro de 2025 (domingo), das 11h às 15h
Visitação: até 31 de maio de 2026
Local: Capela do Morumbi – Av. Morumbi, 5387, Morumbi, São Paulo
Horário: terça a domingo, das 9h às 17h
Entrada gratuita
Realização: Museu da Cidade de São Paulo/Secretaria Municipal de Cultura e
Economia Criativa
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