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terça-feira, 18 de novembro de 2025

20 de novembro: Dia da Consciência Negra

 O racismo não é apenas uma questão social — é também um fator de risco para a saúde mental e para o desenvolvimento cognitivo. O trauma racial já é reconhecido como uma forma específica de sofrimento psicológico, e a ciência mostra que seus efeitos vão muito além do emocional: eles ficam registrados no cérebro.

 

O médico Dr. Fernando Gomes, neurocirurgião, neurocientista e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da USP, afirma que a exposição repetida a situações de discriminação ativa de forma contínua o sistema de alerta do cérebro. A amígdala, estrutura responsável por detectar ameaças, torna-se hiper-reativa, o que mantém o organismo em estado constante de vigilância. “Esse mecanismo aciona automaticamente as respostas de luta ou fuga, mesmo quando não há perigo real. Além disso, essa hiperativação impacta diretamente regiões como o hipocampo (responsável pela memória) e o córtex pré-frontal (área ligada ao planejamento e às decisões). Com o tempo, o cérebro passa a registrar qualquer ambiente potencialmente discriminatório como perigoso — criando um ciclo de estresse crônico”, explica o neurocientista.
 

Sinais do trauma racial

Para Dr. Fernando, os sinais do trauma racial podem aparecer em diferentes faixas etárias, muitas vezes sem que a causa seja identificada. Entre os sintomas mais frequentes estão:

  • Hipervigilância e sensação constante de ameaça
  • Irritabilidade, ansiedade e dificuldade de relaxar
  • Baixa autoestima e autopercepção negativa
  • Em crianças e adolescentes, evasão escolar, queda no rendimento e isolamento
  • Em adultos, aumento de estresse no trabalho, medo de exposição e retração social

“Quando a pessoa negra vive repetidamente situações de discriminação, seu cérebro aprende que o mundo não é seguro. Isso tem impacto direto na saúde, no comportamento e no desempenho”, explica o neurocientista.
 

Tratamento

Para lidar com esse tipo de trauma, pesquisadores indicam abordagens integradas que atuam tanto no nível individual quanto no coletivo. Entre elas a psicoterapia, especialmente terapias focadas em trauma e regulação emocional além do suporte comunitário e redes de pertencimento, que ativam mecanismos de segurança e fortalecimento identitário e a educação antirracista em escolas, ambientes corporativos e serviços públicos, reduzindo a ocorrência de novos episódios de discriminação

“O trauma racial não se cura apenas no consultório. Ele se transforma quando a sociedade inteira reconhece o problema e trabalha para reduzir as violências cotidianas”, aponta o especialista.
 

O que acontece no cérebro de quem sofre racismo

Quando alguém teme confirmar um estereótipo racista (“pessoas negras não são tão competentes”, “não são tão capazes”, “não têm bom desempenho”), o cérebro entra em estado de alerta. “Dessa forma a ansiedade surge e reduz a memória de trabalho, prejudica o foco, compromete a tomada de decisão e ainda desencadeia autossabotagem involuntária. Ou seja: não é falta de capacidade — é excesso de pressão”, alerta o médico.
 

Como reduzir o impacto

Segundo a neurociência algumas estratégias concretas para diminuir o efeito ameaça, que incluem criar ambientes inclusivos, onde a diversidade é percebida como norma, não exceção e no qual professores e gestores treinados para identificar vieses e ajustar práticas avaliativas.

“Quando uma pessoa sente que pertence ao ambiente, o cérebro deixa de gastar energia com defesa psicológica. Isso libera mais capacidade para aprender, criar e se desenvolver”, conclui Dr. Fernando Gomes. 



Dr. Fernando Gomes - Professor Livre Docente de Neurocirurgia do Hospital das Clínicas de SP com mais de 2 milhões de seguidores. É também autor de 9 livros de neurocirurgia e comportamento humano. Professor Livre Docente de Neurocirurgia, com residência médica em Neurologia e Neurocirurgia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, é neurocirurgião em hospitais renomados e também coordena a Unidade de Hidrodinâmica Cerebral relacionada ao diagnóstico, tratamento e pesquisa de doenças como Hidrocefalia de Pressão Normal (HPN) e Hipertensão Intracraniana Idiopática (HII ou pseudotumor cerebral) no Hospital das Clínicas.
drfernandoneuro



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