O racismo não é apenas uma questão social — é também um fator de risco para a saúde mental e para o desenvolvimento cognitivo. O trauma racial já é reconhecido como uma forma específica de sofrimento psicológico, e a ciência mostra que seus efeitos vão muito além do emocional: eles ficam registrados no cérebro.
O
médico Dr. Fernando Gomes, neurocirurgião, neurocientista e professor
livre-docente da Faculdade de Medicina da USP, afirma que a exposição repetida
a situações de discriminação ativa de forma contínua o sistema de alerta do
cérebro. A amígdala, estrutura responsável por detectar ameaças, torna-se
hiper-reativa, o que mantém o organismo em estado constante de vigilância.
“Esse mecanismo aciona automaticamente as respostas de luta ou fuga, mesmo
quando não há perigo real. Além disso, essa hiperativação impacta diretamente
regiões como o hipocampo (responsável pela memória) e o córtex pré-frontal
(área ligada ao planejamento e às decisões). Com o tempo, o cérebro passa a
registrar qualquer ambiente potencialmente discriminatório como perigoso —
criando um ciclo de estresse crônico”, explica o neurocientista.
Sinais do trauma racial
Para
Dr. Fernando, os sinais do trauma racial podem aparecer em diferentes faixas
etárias, muitas vezes sem que a causa seja identificada. Entre os sintomas mais
frequentes estão:
- Hipervigilância e sensação constante de ameaça
- Irritabilidade, ansiedade e dificuldade de relaxar
- Baixa autoestima e autopercepção negativa
- Em crianças e adolescentes, evasão escolar, queda no rendimento e
isolamento
- Em adultos, aumento de estresse no trabalho, medo de exposição e
retração social
“Quando
a pessoa negra vive repetidamente situações de discriminação, seu cérebro
aprende que o mundo não é seguro. Isso tem impacto direto na saúde, no
comportamento e no desempenho”, explica o neurocientista.
Tratamento
Para
lidar com esse tipo de trauma, pesquisadores indicam abordagens integradas que
atuam tanto no nível individual quanto no coletivo. Entre elas a psicoterapia,
especialmente terapias focadas em trauma e regulação emocional além do suporte
comunitário e redes de pertencimento, que ativam mecanismos de segurança e
fortalecimento identitário e a educação antirracista em escolas, ambientes
corporativos e serviços públicos, reduzindo a ocorrência de novos episódios de
discriminação
“O
trauma racial não se cura apenas no consultório. Ele se transforma quando a
sociedade inteira reconhece o problema e trabalha para reduzir as violências
cotidianas”, aponta o especialista.
O que acontece no cérebro de quem sofre racismo
Quando
alguém teme confirmar um estereótipo racista (“pessoas negras não são tão
competentes”, “não são tão capazes”, “não têm bom desempenho”), o cérebro entra
em estado de alerta. “Dessa forma a ansiedade surge e reduz a memória de
trabalho, prejudica o foco, compromete a tomada de decisão e ainda desencadeia
autossabotagem involuntária. Ou seja: não é falta de capacidade — é excesso de
pressão”, alerta o médico.
Como reduzir o impacto
Segundo
a neurociência algumas estratégias concretas para diminuir o efeito ameaça, que
incluem criar ambientes inclusivos, onde a diversidade é percebida como norma,
não exceção e no qual professores e gestores treinados para identificar vieses
e ajustar práticas avaliativas.
“Quando
uma pessoa sente que pertence ao ambiente, o cérebro deixa de gastar energia
com defesa psicológica. Isso libera mais capacidade para aprender, criar e se
desenvolver”, conclui Dr. Fernando Gomes.
Dr. Fernando Gomes - Professor Livre Docente de Neurocirurgia do Hospital das Clínicas de SP com mais de 2 milhões de seguidores. É também autor de 9 livros de neurocirurgia e comportamento humano. Professor Livre Docente de Neurocirurgia, com residência médica em Neurologia e Neurocirurgia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, é neurocirurgião em hospitais renomados e também coordena a Unidade de Hidrodinâmica Cerebral relacionada ao diagnóstico, tratamento e pesquisa de doenças como Hidrocefalia de Pressão Normal (HPN) e Hipertensão Intracraniana Idiopática (HII ou pseudotumor cerebral) no Hospital das Clínicas.
drfernandoneuro
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