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quarta-feira, 4 de junho de 2025

IA na reprodução assistida: esperança tecnológica ou ilusão de controle?

Dra. Marise Samama destaca avanços e riscos do uso da inteligência artificial na fertilização in vitro, incluindo seleção de embriões e personalização de tratamentos


O uso da inteligência artificial (IA) na reprodução assistida está transformando os caminhos da fertilidade humana. A tecnologia já permite desde a escolha do embrião com maior chance de sucesso até a sugestão de protocolos personalizados com base em dados clínicos. Para a ginecologista Dra. Marise Samama, fundadora da Associação Mulher Ciência e Reprodução Humana do Brasil (
AMCR), a IA é uma aliada poderosa, mas precisa ser aplicada com responsabilidade e sem criar falsas expectativas. 

“Hoje utilizamos IA para analisar o desenvolvimento dos embriões em laboratório. É como se fosse um ‘Big Brother’, que registra todo o processo e compara com bancos de dados de embriões que resultaram em gravidez”, explica a médica. Essa comparação permite identificar os embriões com maior potencial reprodutivo, otimizando as chances de sucesso da fertilização in vitro (FIV). 

Em alguns países, onde a análise genética de embriões é proibida por lei, a IA já cumpre um papel alternativo, oferecendo informações comparáveis às obtidas por testes genéticos. “A tecnologia pode até substituir, em alguns casos, a biópsia embrionária, com resultados muito próximos. Mas tudo isso ainda precisa de validação científica contínua”, ressalta Dra. Marise. 

Apesar dos benefícios, o uso da IA não é isento de riscos. Um dos principais é a criação de expectativas irreais por parte dos pacientes. “Tecnologia nenhuma garante gravidez. Toda inovação precisa de tempo para maturar e ser integrada com segurança à prática médica”, alerta. Ela lembra que o congelamento de óvulos, por exemplo, levou anos até se consolidar como técnica confiável. 

Outro ponto importante é o equilíbrio entre automação e personalização. Segundo a especialista, quanto maior o histórico de insucesso reprodutivo, maior a necessidade de protocolos individualizados. “A IA pode sugerir caminhos, mas a decisão clínica final deve ser do médico, que conhece a história da paciente e os detalhes do caso”, afirma. 

Há ainda o desafio da equidade no acesso. A reprodução assistida é um procedimento de alto custo, e a aplicação de IA pode encarecer ainda mais os tratamentos. “Precisamos pensar em como democratizar o acesso a essas ferramentas. A IA pode ajudar a simplificar processos e até baratear etapas no futuro, mas isso exige vontade política e investimentos em saúde pública”, diz Dra. Marise. 

A ética também entra na pauta. É fundamental garantir que os algoritmos usados nesses tratamentos sejam auditáveis, seguros e validados por estudos clínicos robustos. “Não podemos tratar a reprodução humana como se fosse um processo industrial. A IA deve servir à ciência médica, e não ao mercado ou à promessa de resultados infalíveis”, enfatiza. 

Para a médica, a IA tem um papel transformador na medicina reprodutiva, mas precisa estar aliada a valores como empatia, cautela e rigor científico. “É uma ferramenta poderosa, sim, mas não é mágica. O futuro da fertilidade passa pela tecnologia, mas nunca sem o olhar humano que entende a complexidade e os limites da vida”, conclui.



AMCR – Associação Mulher Ciência e Reprodução Humana do Brasil
Para saber mais informações, acesse o site.


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