Dra. Marise Samama destaca avanços e riscos do uso da inteligência artificial na fertilização in vitro, incluindo seleção de embriões e personalização de tratamentos
O uso da inteligência artificial (IA) na reprodução
assistida está transformando os caminhos da fertilidade humana. A tecnologia já
permite desde a escolha do embrião com maior chance de sucesso até a sugestão
de protocolos personalizados com base em dados clínicos. Para a ginecologista
Dra. Marise Samama, fundadora da Associação Mulher Ciência e Reprodução Humana
do Brasil (AMCR), a IA é uma aliada poderosa, mas precisa ser aplicada com
responsabilidade e sem criar falsas expectativas.
“Hoje utilizamos IA para analisar o desenvolvimento dos embriões
em laboratório. É como se fosse um ‘Big Brother’, que registra todo o processo
e compara com bancos de dados de embriões que resultaram em gravidez”, explica
a médica. Essa comparação permite identificar os embriões com maior potencial
reprodutivo, otimizando as chances de sucesso da fertilização in vitro (FIV).
Em alguns países, onde a análise genética de embriões é proibida
por lei, a IA já cumpre um papel alternativo, oferecendo informações
comparáveis às obtidas por testes genéticos. “A tecnologia pode até substituir,
em alguns casos, a biópsia embrionária, com resultados muito próximos. Mas tudo
isso ainda precisa de validação científica contínua”, ressalta Dra. Marise.
Apesar dos benefícios, o uso da IA não é isento de riscos. Um
dos principais é a criação de expectativas irreais por parte dos pacientes.
“Tecnologia nenhuma garante gravidez. Toda inovação precisa de tempo para
maturar e ser integrada com segurança à prática médica”, alerta. Ela lembra que
o congelamento de óvulos, por exemplo, levou anos até se consolidar como
técnica confiável.
Outro ponto importante é o equilíbrio entre automação e
personalização. Segundo a especialista, quanto maior o histórico de insucesso
reprodutivo, maior a necessidade de protocolos individualizados. “A IA pode
sugerir caminhos, mas a decisão clínica final deve ser do médico, que conhece a
história da paciente e os detalhes do caso”, afirma.
Há ainda o desafio da equidade no acesso. A reprodução assistida
é um procedimento de alto custo, e a aplicação de IA pode encarecer ainda mais
os tratamentos. “Precisamos pensar em como democratizar o acesso a essas
ferramentas. A IA pode ajudar a simplificar processos e até baratear etapas no
futuro, mas isso exige vontade política e investimentos em saúde pública”, diz
Dra. Marise.
A ética também entra na pauta. É fundamental garantir que os
algoritmos usados nesses tratamentos sejam auditáveis, seguros e validados por estudos
clínicos robustos. “Não podemos tratar a reprodução humana como se fosse um
processo industrial. A IA deve servir à ciência médica, e não ao mercado ou à
promessa de resultados infalíveis”, enfatiza.
Para a médica, a IA tem um papel transformador na medicina reprodutiva, mas precisa estar aliada a valores como empatia, cautela e rigor científico. “É uma ferramenta poderosa, sim, mas não é mágica. O futuro da fertilidade passa pela tecnologia, mas nunca sem o olhar humano que entende a complexidade e os limites da vida”, conclui.
AMCR – Associação Mulher Ciência e Reprodução Humana do Brasil
Para saber mais informações, acesse o site.

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