No Dia Mundial de Conscientização sobre o Abuso contra a Pessoa Idosa,
especialista alerta para a importância de detectar casos de violência e
abandono, muitas vezes difíceis de notar
Uma fratura sem
explicação, marcas antigas pelo corpo, o olhar cabisbaixo, o silêncio. Em
muitos casos, é no hospital que os sinais de negligência ou maus-tratos contra
pessoas idosas se revelam – nem sempre de forma explícita. “Às vezes o que
chama atenção é o fato de o idoso estar internado há dias e não receber uma
única visita”, relata Ana Paula Coutinho, assistente social do Hospital
Municipal Evandro Freire, na Ilha do Governador, Rio de Janeiro.
Para além da
escuta atenta, o hospital adota um protocolo rigoroso para investigar e
notificar situações suspeitas, envolvendo uma equipe multiprofissional composta
por médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais.
Casos identificados
são registrados, encaminhados à rede de proteção social e, quando necessário,
notificados legalmente. “Nosso compromisso é garantir que esse idoso saia daqui
não apenas medicado, mas protegido”, reforça Ana Paula.
Neste 15 de junho,
Dia Mundial de Conscientização sobre o Abuso contra a Pessoa Idosa, o alerta é
claro: a violência nem sempre deixa hematomas. Pode estar no esquecimento, no
silêncio e até no cuidado que falta. E reconhecê-la é o primeiro passo para
combatê-la.
Negligência e
abandono são os casos mais comuns
De acordo com a
assistente social Ana Paula Coutinho, as formas de violência mais frequentes
entre os pacientes idosos atendidos na unidade são a negligência e o abandono.
“São pessoas que
chegam desidratadas, desnutridas, sem medicação ou com escaras que poderiam ter
sido evitadas com cuidados básicos. Em alguns casos, percebemos que o idoso não
está sendo supervisionado nem assistido como deveria”, explica.
Embora casos de
violência física ou psicológica também ocorram, a negligência costuma ser mais
difícil de identificar. “Muitas vezes, os sinais estão nas entrelinhas. No
discurso confuso do idoso, no silêncio constrangido do acompanhante, ou na
falta de informações mínimas sobre a rotina e a saúde daquele paciente.”
Atendimento
humanizado e articulação com a rede de apoio
Quando uma
suspeita de violência é levantada, entra em ação o protocolo de atendimento a
pacientes em situação de vulnerabilidade, que inclui avaliação
multidisciplinar.
A equipe do
hospital realiza escutas qualificadas e, se necessário, faz a notificação
formal ao serviço de proteção social, como o Centro de Referência Especializado
de Assistência Social (CREAS), o Conselho do Idoso ou o Ministério Público.
“Não basta acolher
e tratar. É preciso garantir que esse idoso tenha suporte ao sair do hospital.
A articulação com a rede de apoio é fundamental para interromper o ciclo de
violência”, afirma Ana Paula.
Além disso, o
hospital também oferece orientações aos cuidadores e familiares sobre os
direitos da pessoa idosa e os recursos disponíveis na rede pública.
Violência
contra a pessoa idosa é crime
O Estatuto da
Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003) estabelece que qualquer forma de negligência,
discriminação, violência, crueldade ou opressão contra pessoas com 60 anos ou
mais é crime, e deve ser denunciada. A pena para quem abandona o idoso pode
chegar a três anos de reclusão.
“Infelizmente,
ainda existe uma naturalização da violência contra idosos. Muitos acham normal
deixar o idoso sozinho o dia inteiro, não oferecer alimentação adequada ou
tratá-lo com desdém. Nosso papel é mostrar que isso não é aceitável e que a
sociedade tem mecanismos para intervir”, pontua a assistente social.
Como
denunciar
Casos de violência
contra idosos podem ser denunciados de forma anônima pelo Disque 100 (Disque
Direitos Humanos), que funciona 24 horas por dia, inclusive nos finais de
semana e feriados. Também é possível acionar o CREAS mais próximo ou procurar a
Delegacia do Idoso da região.
Hospital Municipal Evandro Freire
Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”
@cejamoficial
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