Opinião
De alguns anos para cá, o
termo “inteligência artificial” deixou de ser tema de filme de ficção
científica e passou a fazer parte da rotina de milhões de pessoas, seja no
trabalho, nos estudos ou até mesmo para tirar uma dúvida rápida sobre um
assunto qualquer e procurar uma nova receita. Essa transformação não poupou o
setor de seguros no Brasil, que vem sendo silenciosamente remodelado por essa
tecnologia. Dentre todos os ramos de seguros, as modalidades relacionadas ao transporte
rodoviário, como os seguros de cargas e de frotas, certamente estão entre as
mais impactadas. Enquanto a FenSeg projeta um crescimento de 11,5% para o
seguro transporte em 2025, o que mais chama atenção é a maneira com que a IA
está redefinindo o conceito do que é proteger suas operações de transporte no
contexto brasileiro.
A realidade do mercado
brasileiro é única: ampla dependência do modal rodoviário, altos índices de
roubos de cargas, infraestrutura precária e sem investimentos, além de jornadas
exaustivas de motoristas comumente mal remunerados. É justamente nesse cenário
que a IA revela seu maior valor. Essa tecnologia está servindo como base para
criação de soluções práticas dos desafios genuinamente brasileiros. Um ótimo
exemplo são os sistemas de análise de risco que hoje operam em tempo real,
identificando rotas a serem evitadas considerando não apenas dados históricos,
mas também variáveis atualizadas instantaneamente, como eventos locais, volume
de tráfego e condições da estrada, algo que era impraticável há alguns anos.
Destacam-se também
equipamentos instalados nos caminhões e carretas, que através de diversos
sensores auxiliam no monitoramento dos riscos e condições do veículo em tempo
real. Esses sistemas permitem intervenções preventivas em termos de manutenção
do conjunto, além de monitorarem os padrões de condução do motorista, como
detecção de sinais de fadiga, distração ou direção imprudente. Resultados
gerados por esse tipo de iniciativa já são expressivos. Diversas pesquisas e levantamentos
com transportadoras de pequeno e médio porte apontam reduções de até 35% em
paradas não programadas e mais de 40% em acidentes de trânsito relacionados à
fadiga. Além do ganho de eficiência em diversos âmbitos da operação, o que
torna as empresas mais competitivas nesse ambiente tão desafiador, esses
números também representam vidas preservadas nas estradas brasileiras.
Todos esses fatores têm
afetado também a relação entre as seguradoras e transportadoras. O modelo de
“apólice de gaveta” dá lugar ao conceito de seguro como serviço, com coberturas
ajustadas dinamicamente conforme comportamento da operação do segurado. Para as
seguradoras isso significa uma melhor compreensão dos riscos, o que auxilia na
definição de prêmios e coberturas adequadas. Por outro lado, para as
transportadoras que trabalham com operações de níveis de riscos distintos, essa
flexibilidade pode ser um fator essencial para sua sobrevivência. Todos ganham.
É claro que ainda existem
desafios, como a limitação de cobertura de internet em rodovias, falta de
investimento público em infraestrutura e algumas tecnologias ainda podem ser
consideradas caras, especialmente para pequenas transportadoras. Mas a
tendência é clara e irreversível, à medida que casos de sucesso se multiplicam
e os custos diminuem, a adoção de IA no monitoramento e gestão de frotas é uma
questão de tempo. Como profissional que atua diariamente com transportadoras de
todos os portes, afirmo que estamos apenas no início dessa transformação. Toda
mudança traz oportunidades, e o Brasil tem potencial para desenvolver soluções
adaptadas às nossas particularidades, mas também servir de modelo para outros
mercados emergentes. O futuro do seguro de transportes no país será digital,
preditivo e personalizado, e quem não entender o jogo, vai acabar
desaparecendo.
Pedro Picolotto Ferraro Lima - corretor de seguros
especializado no setor de transportes e sócio da Forte Brasil Corretora de
Seguros e Gerenciadora de Riscos

Nenhum comentário:
Postar um comentário