Apesar dos avanços na oncologia, a maioria dos homens com câncer ainda não recebe orientação sobre o congelamento de sêmen antes do tratamento, uma lacuna que pode significar o fim do sonho da paternidade biológica ou dificultar muito a concepção.
A preservação da fertilidade em homens com câncer é um tema muito importante dentro da saúde masculina, mas que ainda é pouco abordada, inclusive durante o Novembro Azul. Segundo dados do Ministério da Saúde, o número de atendimentos entre homens com até 49 anos para tratamento de câncer de próstata aumentou em 32% no Brasil entre 2020 e 2024, ou seja, cresce rapidamente o número de pessoas mais jovens que podem ter o sonho do filho biológico comprometido. Embora não seja possível afirmar que em 100% dos casos a fertilidade é comprometida, o risco é alto, devido às possibilidades de tratamento como radioterapia, quimioterapia e até a cirurgia. Entretanto, o congelamento de sémen é um caminho para preservar a fertilidade desse grupo de pessoas diante da luta contra o câncer.
Para Moacir Rafael Radaelli, urologista, andrologista e Vice-Presidente da Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), embora o tratamento oncológico seja essencial para vencer o câncer de próstata, ele também pode ter como consequência a perda da fertilidade e o fim de um sonho do filho biológico: “A falta de informação ainda é o maior obstáculo. O congelamento de sêmen é um procedimento simples, seguro e com taxas de sucesso elevadas, mas poucos pacientes sabem que essa decisão precisa ser tomada antes do início da terapia oncológica”, afirma.
De acordo com dados e estimativas do setor, apenas cerca de 20% dos homens diagnosticados com câncer recebem orientação sobre preservação da fertilidade antes do início do tratamento. A falta de informação gera um impacto profundo não apenas físico, mas também emocional: segundo estudo publicado no Journal of Psychosocial Oncology (2021), 52% dos entrevistados relataram sofrimento psicológico moderado a grave relacionado à perda da fertilidade e 38% afirmaram que tiveram seus relacionamentos afetivos afetados.
Os números reforçam a urgência de incluir o tema nas campanhas de saúde masculina: o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 72 mil novos casos de câncer de próstata em 2025, e o câncer de testículo, mais incidente entre jovens de 15 a 35 anos, apresenta crescimento médio anual de 2,5% nas últimas duas décadas, segundo o World Cancer Research Fund (2024).
“As campanhas de saúde masculina precisam evoluir. Falar sobre câncer é essencial, mas falar sobre o futuro dos pacientes também é”, afirma Radaelli. “O pós-tratamento é ainda um momento de adaptações, mudanças e de recomeço, por isso é necessário mostrar as possibilidades para esses pacientes.” completa.
Desde
2021, a American Society of Clinical Oncology (ASCO) recomenda que todos os
pacientes oncológicos em idade fértil sejam informados sobre as opções de
preservação da fertilidade antes do início do tratamento. Para além das
estatísticas, o tema toca um ponto central do cuidado masculino: garantir que
pessoas em tratamento contra o câncer tenham acesso à informação, autonomia
sobre suas escolhas e a possibilidade real de planejar o próprio futuro. Em um
momento em que a sobrevivência ao câncer cresce de forma consistente, falar
sobre fertilidade é também falar sobre qualidade de vida, projeto de família e
esperança.
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