Pesquisa identificou microplásticos dentro de gametas e até na placenta, levantando preocupação sobre impactos hormonais e inflamatórios na reprodução humana. No Brasil, cerca de 15% dos casais enfrentam a infertilidade e médica alerta que o ambiente moderno pode estar influenciando esse cenário
A
discussão sobre fertilidade ganhou um novo capítulo após a divulgação de um
estudo conduzido pela Universidade de Utrecht, na Holanda, e publicado em
novembro de 2025.Os pesquisadores identificaram microplásticos dentro de
óvulos, espermatozoides e até em placentas humanas, após analisarem tecidos e
fluidos reprodutivos de voluntários.
Foram
detectadas partículas de polietileno (PE), polipropileno (PP) e poliuretano
(PU) tipos amplamente utilizados na fabricação de embalagens, utensílios e
produtos do dia a dia. A presença dessas micropartículas em células essenciais
para a reprodução levanta a hipótese de que possam interferir na função
hormonal, causar inflamação e até prejudicar a qualidade dos gametas.
O
alerta surge em um momento em que a infertilidade já é considerada um problema
crescente. No Brasil, 10% a 15% dos casais em idade reprodutiva enfrentam
dificuldade para engravidar. A Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida
(SBRA) estima que cerca de 8 milhões de brasileiros podem ser inférteis
individualmente ou precisar de tratamento para ter filhos. No contexto global,
a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que 1 em cada 6 pessoas é afetada
pela infertilidade.
As
causas são multifatoriais: cerca de 40% dos casos são de origem feminina, 40%
masculina, e em 20% dos casais há alterações em ambos os parceiros. Além de
fatores já conhecidos como adiamento da primeira gestação, obesidade,
tabagismo, álcool, estresse e estilo de vida a exposição a poluentes ambientais
vem ganhando destaque na literatura científica.
Dra.
Graziela Canheo Ginecologista e Especialista em Reprodução Humana, da La Vita
Clinic, explica como os microplásticos conseguem impactar células tão
sensíveis: “Os microplásticos são partículas extremamente pequenas, capazes de
entrar nas nossas células através do transporte de nutrientes e água. Por isso,
estão sendo encontrados dentro de óvulos, espermatozoides e outras células do
organismo.”
Segundo
ela, uma vez dentro da célula, essas partículas geram um processo inflamatório
significativo. “A célula reconhece o microplástico como um agressor e tenta
eliminá-lo. Ela pode tentar digerir a partícula ou, em último caso, entrar em
morte programada. Esse mecanismo de defesa pode comprometer a função celular e
impactar a fertilidade”, explica a especialista.
Apesar
da gravidade, a médica reforça que ainda faltam estudos para quantificar o real
impacto dos microplásticos na fertilidade humana: “O estudo mostra que
provavelmente há um prejuízo no funcionamento celular, mas ainda precisamos de
pesquisas robustas para medir exatamente o quanto isso interfere na
fertilidade.”
Como se proteger no dia a dia
Mesmo
com a ampla dispersão dos microplásticos no ambiente, a Dra. Graziela orienta
mudanças práticas especialmente importantes para quem planeja engravidar ou
está em tratamento de reprodução assistida:
-Evitar
armazenar ou aquecer alimentos em recipientes de plástico;
-Preferir
utensílios de vidro, aço inox ou cerâmica;
-Reduzir
o uso de produtos descartáveis;
-Escolher
roupas com fibras naturais;
-Usar
filtros de água que retenham micropartículas.
“Evitar
completamente é impossível, mas reduzir a exposição já traz benefícios”,
reforça.
Para
proteger a fertilidade das próximas gerações, políticas públicas e ações
conjuntas serão fundamentais. “O ideal seria diminuir o consumo de plástico e
investir em descarte correto, evitando que ele se degrade no ambiente. É um
esforço que envolve sociedade civil, setor privado e poder público. Precisamos
pensar nas próximas gerações”, afirma a ginecologista.
Com
evidências crescentes sobre o impacto dos microplásticos no corpo humano, o
debate deixa de ser apenas ambiental e passa a integrar um tema central da
saúde reprodutiva mundial.
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