Estudo revela que pobreza, insegurança alimentar e ansiedade afetam crianças em tratamento contra o câncer. Iniciativas do Instituto Ronald McDonald mostram que ambientes acolhedores e apoio integral elevam a taxa de sobrevida para além da média nacional.
No Brasil, cerca de 8 mil crianças e adolescentes recebem, todos os anos, o diagnóstico de câncer, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Embora a taxa média de sobrevida seja de 64%, estudos apontam que esse índice pode ser significativamente maior quando há condições dignas de acolhimento durante o tratamento.
Um levantamento da Ronald McDonald House Charities (RMHC) em 15 países, incluindo o Brasil, mostrou que 51% das famílias vivem abaixo ou na linha da pobreza e 37% apresentam pelo menos uma necessidade social não atendida, como alimentação, transporte, fraldas, acesso à internet ou mesmo medicamentos. A consequência é direta: falta de adesão ao tratamento, abandono de consultas e agravamento do quadro clínico.
“O
câncer infantil não atinge apenas a criança, ele afeta toda a estrutura da
família. Muitas vezes, a mãe precisa largar o emprego para acompanhar o filho,
enquanto os irmãos enfrentam a ausência em casa e o impacto emocional. Se não
olharmos para o entorno, alimentação, moradia, acolhimento psicológico, o
tratamento fica mais pesado e as chances de cura diminuem”, explica Bianca
Provedel, CEO do Instituto Ronald McDonald.
Casas que viram lares
Foi justamente para enfrentar essa realidade que surgiram os Programas Casa Ronald McDonald e o Espaço da Família Ronald McDonald. A Casa oferece hospedagem gratuita, refeições, transporte até os hospitais, atividades pedagógicas e apoio psicossocial em um ambiente acolhedor, que faz as famílias se sentirem em casa. Já o Espaço da Família, dentro dos hospitais, oferece um local confortável para descanso, apoio emocional e momentos de alívio durante a rotina de tratamento. Somente em 2024, juntos, esses programas atenderam milhares de famílias em todas as regiões do Brasil.
Essas iniciativas ganham ainda mais relevância diante dos dados da pesquisa realizada com as famílias apoiadas: mais de 84% afirmaram que não teriam onde se hospedar caso não conseguissem uma vaga em uma Casa Ronald McDonald, e mais de 72% têm renda familiar de até um salário mínimo. Isso mostra o quanto o acolhimento oferecido é essencial para garantir o acesso contínuo ao tratamento.
Além dos espaços, hospitais parceiros em todo o país também investem na humanização hospitalar, com enfermarias reformadas, salas de aula, brinquedotecas e ambientes adaptados que ajudam a reduzir o impacto emocional das internações. De acordo com a Carteira 2025 do Instituto Ronald McDonald, a taxa de sobrevida estimada em centros de tratamento apoiados pela organização é de 72%, oito pontos percentuais acima da média nacional.
“Quando
uma criança encontra um espaço colorido, quando pode continuar estudando, ou
quando percebe que sua mãe tem um quarto limpo e refeições asseguradas, ela se
sente mais segura. Isso se reflete em adesão ao tratamento e melhora do
bem-estar emocional. Humanizar não é um luxo, é uma estratégia concreta para
aumentar as chances de cura”, destaca Bianca.
Atenção integral e Diagnóstico Precoce
O trabalho do Instituto vai além da hospedagem. Programas como o Atenção Integral e o Diagnóstico Precoce abrangem desde a compra de equipamentos de imagem e radioterapia até a capacitação de profissionais da atenção básica. Somente em 2025, estão previstos 20 projetos de diagnóstico precoce e 29 projetos de atenção integral em todas as regiões do Brasil.
Essas
iniciativas incluem desde a oferta de transporte para famílias que moram longe
dos centros de referência até o custeio de suplementos alimentares e apoio
psicológico. Em muitas cidades, também são viabilizados cursos
profissionalizantes para pais e mães que perderam a fonte de renda durante o período
de tratamento.
O peso emocional das famílias
Além das questões financeiras, o levantamento internacional da RMHC apontou que muitas famílias apresentam níveis clinicamente significativos de ansiedade e depressão durante a jornada do tratamento. Para Bianca, esse é um aspecto muitas vezes negligenciado nas discussões sobre saúde.
“O
impacto emocional pode ser devastador. Não é raro encontrarmos mães e pais em
sofrimento psicológico tão intenso que eles próprios adoecem. Por isso,
oferecemos acompanhamento terapêutico, grupos de apoio e atividades que
devolvem dignidade e esperança. Cuidar da família é cuidar da criança”, afirma
a CEO do Instituto.
Desafios e futuro
Nos próximos 10 anos, a RMHC projeta que mais de 2 milhões de famílias por ano em todo o mundo precisarão de apoio para enfrentar o câncer infantil. No Brasil, o desafio é ampliar a rede de acolhimento, investir em equipamentos de ponta e, sobretudo, fazer com que o cuidado centrado na família seja reconhecido como padrão de atendimento.
Bianca acredita que esse é o caminho para transformar a realidade da oncologia pediátrica:
“Nós
sonhamos com um Brasil em que nenhuma criança precise abandonar o tratamento
por falta de condições sociais. Queremos que o cuidado integral seja regra, e
não exceção. Cada ambiente humanizado, cada refeição servida e cada abraço de
acolhimento têm um impacto direto nos índices de cura. Essa é a nossa missão.”
Mais do que tratamento, esperança
Ao aliar ciência, estrutura e afeto, o Instituto Ronald McDonald mostra que a luta contra o câncer infantil não se faz apenas dentro dos consultórios e centros cirúrgicos. Ela acontece também no momento da refeição, no transporte para a consulta, na sala de aula improvisada dentro de um hospital e no olhar de uma mãe que sente que não está sozinha.
No
fim das contas, é essa rede de humanização que garante não apenas mais chances
de cura, mas também a preservação da infância em meio a um dos maiores desafios
que uma família pode enfrentar.
Instituto Ronald McDonald
www.institutoronald.org.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário