Aguardava um voo que me levaria em busca de felicidade. Não digo de mais felicidade, porque não acredito que consiga ser mais feliz do que sou. Cabe, pois, ser perguntado: por que buscar felicidade se não será acrescentada felicidade? Ora, porque felicidade não se acumula, vive-se, e não é uma coisa que é, mas que às vezes está. Então, apesar de a ter com as minhas pessoas e os meus lugares, é sempre bom buscá-la, mais ainda se ela se oferece.
Matutava sobre o que escrever quando percebo um grupo com
cerca de dez amigos que tomaria o mesmo avião que eu. Estavam quietões. Anúncio
de embarque, tomamos aquele ônibus que força a lotação e que nos conduziria à
aeronave. Um dos sujeitos do grupo fez uma graça que nem era tão engraçada
assim: “Senhoras e senhores, tomaram o avião errado. O destino deste é tal, não
qual”. Pois não foi que se puseram a rir?
Creiam em mim: o cara repetia, o grupo ria; o sujeito
repetiu muitas vezes. Contagiou. Ao fim, muitos já ríamos das suas risadas. A
felicidade foi geral. Pensei: como o governo vai cuidar disso? É que a ONU vem
de aprovar uma resolução que reconhece a busca pela felicidade como “um
objetivo humano fundamental”, e o texto convida os estados-membros a promoverem
políticas públicas que incluam a importância da felicidade e do bem-estar em
sua aposta pelo desenvolvimento.
A resolução dignifica a busca pela felicidade, mas estou
convencido de que nenhum governante a propiciará. E os que até agora se
propuseram a propiciá-la sempre vieram com ortopedias sociais. De toda forma,
as Nações Unidas não alvitraram além de pedir condições materiais: “A
necessidade de que se aplique ao crescimento econômico um enfoque mais
inclusivo, equitativo e equilibrado, que promova o desenvolvimento sustentável,
a erradicação da pobreza, a felicidade e o bem-estar de todos os povos”.
O documento das Nações Unidas quase sugere que os
governos não conspirem contra a construção da igualdade real de oportunidades,
e por isso é válida. Todavia, à parte esse “detalhe”, a felicidade depende das
peculiaridades de cada indivíduo e da ocasião. A ocasião é sempre meio
aleatória, mas... e o indivíduo? O que pode fazer o indivíduo para ser feliz?
Pensei em consultar o Google, o oráculo da modernidade; fiquei com a voz do
povo, que, época, se expressava pelo Facebook
Segundo Luana Martins, para ser feliz, basta esperar:
“Depois do sofrimento, vem a felicidade. E por mais que demore, ela sempre vem
para bater na sua porta”. Revidei: “A minha não veio à porta; fui buscá-la por
aí. Às vezes a encontrei, às vezes, não. Então, a construí”. Gresiela Nunes da
Rosa abrange: “De algumas, fui atrás, deliberadamente; outras foi pura
contingência mesmo, que aproveitei”. Fátima Cabral reconhece o aleatório, cuida
de: “Construir tranquilidade, porque, sofrimento ou felicidade, tudo depende
das circunstâncias”.
Sobre esse debate, creio que se pode concluir: de fato, a
felicidade pode só chegar, alcançar a sua vida; noutras vezes, temos que
buscá-la. Pois, então, devemos estar sempre habilitados, seja para recebê-la,
seja para fazê-la. E aí vem um último aspecto, que é o lidar com ela, o
conseguir frui-la, o saber gozá-la; em uma palavra: aproveitá-la. Nisso, não
creio que as coisas sejam de ocasião; acredito que há muito que depende de um
projeto meu, um projeto de mim. Eu fazedor de mim.
Juliana Barbacena cita Guimarães Rosa: “A felicidade se
acha em horinhas de descuido”. Ela deseja “que as pessoas tenham, nesta
vivência, várias e várias horinhas de descuido”. Está bem, mas isso é a
felicidade brincada, como a do pessoal topado na minha viagem. Ela vem, me
anima, e fica por ali. É como se não tivesse nada comigo e eu não tivesse nada
com ela. Alegria passageira, como um ventinho bom que passa. Ora, falemos de
passear na praia. Se na praia tem sempre uma brisa boa, por que não a buscar,
incluí-la na vida?
Nathalie Alves Batista cita Caio Abreu: “Está tudo tão
legal, um legal batalhado, merecido...”, e diz que “está tentando manter tudo
isso em pé”. Maíra Zimmermann tem dúvida sobre esse esforço para manter o legal
construído. Ela pensa com John Lennon: “A vida é o que lhe acontece, enquanto
você está ocupado fazendo outros planos”. Sim, já vi, voltamos a um ponto que
parecia vencido, e assim fica a impressão de que o caminho da felicidade não
tem mapa. E... deveria ter? Alice Bianchini refere Paulo Francis: “A vida é
muito mais variada, anárquica e imprevisível do que sonham os ideólogos”.
Yara Becke quer tão só que “sejas livre de ti mesmo”.
Portanto, nada de intenção desenhada. A tua parte no fazer felicidade é o
imaginar por cima do muro de teus preconceitos, ideologias, censuras, culpas.
Há vida do outro lado dessas cerquinhas morais. Viaja por lá, essa vida te vai
encontrar ou será por ti encontrada. Mas nada de amarrá-la. Vida amarrada é
vida banal. Ademais, a vida tem vida própria, não dá para controlá-la. É o
fascinante incerto da existência. Não há receita. Ainda bem.
De repente, pousamos. Sempre é bom pousar: para algumas
pessoas, porque chegaram; para outras, pelo alívio do medo de voar. Então as
malas, as poucas conversas, a dispersão. Todo mundo se vai. No saguão, a minha
felicidade estava lá. Outra breve viagem, a caminho do interior. Felicidade de
outro modo; felicidade no plural. Outra história para contar.
Doutor em Direito pela UFSC
Psicanalista e Jornalista
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