Reflexões e pequenos rituais para fechar ciclos com amor, presença e leveza — por Luciana Palhares
Fim de ano é sempre um território
curioso. Parece que no primeiro de dezembro algo se acende dentro da gente: um
relógio interno, uma vontade de revisar o tempo. Já estive em todos os lugares
possíveis dessa jornada: a que se desespera com o que não conseguiu fazer, a
que quer que o ano acabe logo, e a que chega à linha de chegada com serenidade.
Este ano, com ênfase em este,
escolhi a terceira opção.
Sempre fui uma mulher fascinada pela
ideia de ciclos. Encerrar um para abrir outro me traz a sensação de ordem e
propósito. É como se, entre o 31 de dezembro e o 1º de janeiro, fosse possível
zerar o cronômetro e começar de novo — e, de certo modo, é.
Tenho meus rituais: gosto de escrever uma
carta de despedida para o ano que termina, agradecendo o que vivi, me
despedindo do que não quero mais carregar e acolhendo as versões de mim que
precisei deixar para trás. Às vezes, choro no meio do processo. Outras vezes,
rio de lembranças pequenas que só agora percebo o quanto foram grandes. Também
faço listas de intenções, pulo sete ondas, como uva, medito e acendo uma vela
para lembrar que o recomeço sempre vem de dentro.
Esses rituais me lembram que a vida é
feita de passagens. E que, como nas estações, a gente muda também. Algumas
relações se transformam, certos lugares deixam de caber, alguns sonhos mudam de
forma. Já percebi que não é sobre perder, mas sobre se atualizar. O que parecia
essencial há um tempo pode, de repente, se tornar leve o suficiente para ir
embora.
Gosto de pensar nas pessoas que cruzaram
meu caminho como personagens de uma série: algumas vêm para causar e somem na
temporada seguinte, depois de cumprirem o papel que precisavam cumprir. A
questão é que, na vida real, a gente demora a entender os motivos. Já me peguei
tentando segurar o que já tinha cumprido seu ciclo — até perceber que às vezes
as pessoas não fazem o que queremos, mas nos entregam algo inesperado. Um
aprendizado, um espelho, um lembrete. A partir do momento em que reconheço
isso, posso agradecer e deixar ir.
Deixar ir é um gesto de amor. Amor pela
vida, por mim e até pelo outro. Nem sempre é fácil abandonar o que é confortável,
o que parecia seguro, o que já conheço de cor. Mas o novo só entra quando o
velho tem permissão para partir. A vida é movimento — e quando tento
controlá-la demais, ela estagna.
Hoje, prefiro seguir o fluxo. Mesmo que o ritmo não seja o que eu esperava. Mesmo que a estrada tenha curvas que eu não planejei. Como dizem os espanhóis: “¡Es lo que hay!” — é o que há. E, no fundo, é isso o que me sustenta: saber que a vida continua, mesmo quando não entendo tudo, e que posso sempre tentar de novo — com mais amor, mais presença e um pouco mais de mim.
Luciana Palhares - luso-brasileira, nascida no Rio de Janeiro, onde cresceu entre livros, idiomas e arte. Além de autora, atua como atriz, performer, cantora, taróloga, consteladora familiar, radiestesista e modelo vivo. Publicou “Pequenas Verdades e Outras Histórias” (2022) Publicou “Pequenas Verdades e Outras Histórias” (2022) e agora “Para Entender Uma História De Amor” (2025). Foi finalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro (2023) e integra a Coletânea de Cronistas Contemporâneos (2024). Prepara o livro de contos “A Vida Não Sabe de Pontos Finais” (Editora Caravana). Também oferece mentorias individuais ou em grupo no Escrita Íntima, seu projeto de escrita terapêutica. Para ela, a escrita é refúgio, sobrevivência e reinvenção.

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