No Dia Nacional de Combate ao Câncer (27/11), o cirurgião Lucas Nacif explica os sinais que podem indicar tumores de intestino, fígado e pâncreas e como cada órgão é afetado
Os cânceres do fígado, pâncreas e colorretal estão
entre os mais letais no Brasil, não apenas pela agressividade biológica, mas porque
muitos evoluem por meses sem apresentar sinais claros. No Dia Nacional de Combate ao Câncer, que acontece em 27/11, o Dr.
Lucas Nacif, cirurgião do aparelho digestivo e membro do Colégio Brasileiro de Cirurgia
Digestiva (CBCD), reforça que identificar sintomas ainda discretos pode
significar a diferença entre tratamentos curativos e abordagens apenas
paliativas.
“Boa parte do que podemos fazer para reduzir a
mortalidade está na atenção aos primeiros sintomas e no rastreamento adequado.
Quanto mais cedo investigamos, maiores as chances de cura”, explica o
cirurgião.
Incidência cresceu entre 2023 e 2025
De acordo com as estimativas do INCA para o triênio 2023–2025, o Brasil deve apresentar um crescimento consistente na incidência de cânceres do aparelho digestivo. O câncer de cólon e reto, o mais frequente desse grupo, registra aproximadamente 45,6 mil novos casos por ano, com risco médio de 21 casos por 100 mil habitantes, afetando homens e mulheres em proporções semelhantes.
Já o câncer de fígado, aparece com 10,7 mil
diagnósticos anuais, o que representa quase 5 casos por 100 mil pessoas, sendo
mais frequente entre os homens. No pâncreas, considerado um dos tumores mais
agressivos, a projeção é de 10,9 mil novos casos por ano, também com incidência
próxima de 5 casos por 100 mil habitantes.
Por que esses tumores preocupam tanto?
Os cânceres digestivos têm características comuns que
aumentam sua letalidade:
- Crescimento silencioso: tumores de fígado e pâncreas raramente provocam sintomas nas
fases iniciais.
- Disseminação rápida: atingem órgãos
vizinhos e podem entrar em metástase
precocemente.
- Cirurgias complexas: a cura depende,
muitas vezes, de procedimentos de alta especialização e, em alguns casos,
transplante hepático.
- Resposta variável aos tratamentos tradicionais: quimioterapias clássicas nem sempre funcionam bem,
estimulando a busca por terapias-alvo e imunoterapia.
Como cada órgão é atingido
Fígado: os
principais fatores de risco são hepatites virais B e C, alcoolismo crônico,
obesidade, esteatose hepática avançada (NASH) e qualquer forma de cirrose. E
por que é agressivo? Muitas pessoas só têm o diagnóstico quando a função do
órgão já está comprometida. Em estágios iniciais, tratamentos como ressecção e
transplante podem ser curativos.
Pâncreas: associado
a tabagismo, histórico familiar, pancreatite crônica, obesidade e, em alguns
casos, diabetes recente, é considerado um dos cânceres mais letais. Apresenta
poucos sintomas no início e costuma ser diagnosticado já em estágio avançado,
reduzindo drasticamente as alternativas de tratamento.
Colorretal: tem
forte relação com alimentação pobre em fibras, consumo frequente de carnes
processadas, sedentarismo, tabaco, álcool, obesidade, pólipos e condições
hereditárias. Embora seja um dos mais preveníveis, muitos casos ainda são
descobertos apenas após sangramentos ou alterações intestinais persistentes.
Os primeiros sinais: o que não pode ser ignorado
O Dr. Nacif destaca que qualquer sintoma persistente,
mesmo que pareça “simples”, merece investigação:
- Dor abdominal contínua ou progressiva
- Perda de peso não intencional
- Pele e olhos amarelados (icterícia)
- Fezes escurecidas, com sangue ou muito finas
- Sangramento retal
- Anemia sem causa aparente
- Alteração recente do hábito intestinal por semanas
- Urina muito escura e coceira intensa na pele
- Aumento do volume abdominal (ascite)
- Diabetes recém-diagnosticado em pessoas sem fatores de risco
clássicos (pode ser sinal precoce de tumor de pâncreas).
“Na prática clínica, vemos muitos casos em que o paciente achava
que era apenas gastrite, gases ou estresse. Quando o diagnóstico chega, já
estamos lidando com tumores avançados”, alerta o especialista.
O que mais impacta a mortalidade? O estágio do diagnóstico
Quanto mais cedo se detecta um câncer digestivo, maiores as chances de cura. Tumores colorretais descobertos no estágio inicial chegam a ter grandes taxas de sobrevida. No fígado, o prognóstico depende não só do tumor, mas também da saúde do órgão.
“No pâncreas, a diferença entre diagnóstico precoce e
tardio pode significar a possibilidade ou impossibilidade de cirurgia”, explica
o Dr. Nacif.
Prevenção: o que realmente funciona
- Vacinar-se contra hepatite B e tratar hepatites crônicas
- Manter o peso ideal
- Reduzir álcool e evitar tabagismo
- Consumir mais fibras, frutas e vegetais
- Praticar atividade física regularmente
- Realizar rastreamento do câncer colorretal conforme a faixa
etária
- Investigar sintomas persistentes, sem esperar que “passem
sozinhos”
“A combinação de prevenção, atenção aos primeiros sinais e acesso
rápido à investigação é o que realmente muda o desfecho desses tumores.
Precisamos ensinar as pessoas a reconhecer sintomas que não são normais e
buscar avaliação médica cedo”, conclui o Dr. Lucas Nacif.

Nenhum comentário:
Postar um comentário