Cirurgião explica como identificar quando sintomas digestivos comuns indicam necessidade de intervenção cirúrgica
"Doutor, pensei que era só uma indigestão. Tomei
chá, fiz compressa quente, esperei melhorar..." Relatos como este são
frequentes e revelam um desafio comum, que é distinguir sintomas digestivos
corriqueiros de uma obstrução intestinal, condição que exige atendimento médico
rápido para evitar complicações.
"A obstrução intestinal é uma das emergências
mais subestimadas. O grande perigo é que ela se 'disfarça' de problemas simples
no início. O paciente acha que é gastrite, gases, ou até intoxicação alimentar,
e perde um tempo precioso tentando resolver em casa", alerta o Dr. Lucas
Nacif, cirurgião do aparelho digestivo.
O padrão que denuncia o perigo
Mas então, como diferenciar? Segundo o Dr. Nacif, existe um padrão evolutivo característico que muita gente desconhece.
"No mal-estar comum, você tem desconforto, pode até vomitar, mas consegue melhorar aos poucos, aceita líquidos, elimina gases. Na obstrução, é o contrário. Os sintomas pioram progressivamente. A dor vem em ondas cada vez mais fortes, os vômitos aumentam, a barriga vai inchando como um balão e você simplesmente não consegue soltar nada, nem gases, nem fezes", explica.
Outro sinal ignorado é a mudança no tipo de vômito.
"Quando a pessoa começa a vomitar um líquido escuro, com cheiro fétido, é
sinal de que o conteúdo intestinal está voltando. Isso já indica uma possível
obstrução em estágio avançado."
O custo do 'vou esperar até amanhã'
O Dr. Nacif conta que o maior erro é a tentativa de automedicação ou espera para "ver se passa". "Tem pessoas que tomam laxante achando que vai 'desentupir', e isso pode piorar o quadro. Se já existe uma obstrução, forçar o intestino pode causar complicações."
O diagnóstico e tratamento precoces fazem toda
diferença. "Quando identificamos e tratamos rapidamente, a maioria dos
casos se resolve bem, muitas vezes sem necessidade de cirurgia. Mas quanto mais
tempo passa, maior o risco de o intestino sofrer e precisar de intervenção de
emergência", explica o Dr. Nacif.
Quando a obstrução intestinal requer cirurgia imediata
O tratamento da obstrução intestinal varia conforme a causa e a gravidade. Nos quadros mais leves, como constipação ou impactação fecal, o manejo costuma ser clínico, com medidas para aliviar a pressão no intestino.
Já nas obstruções mecânicas, especialmente as causadas por hérnias encarceradas, aderências pós-operatórias ou torções, a abordagem muda completamente. “Quando o intestino perde circulação, não dá para esperar”, explica.
Nessas situações, a cirurgia é necessária para
liberar o bloqueio, restaurar o fluxo sanguíneo e, se houver dano irreversível,
remover o segmento comprometido. O cirurgião do aparelho digestivo reforça que
“o objetivo é evitar evolução para isquemia, necrose ou perfuração, que podem
colocar a vida em risco.”
Grupos de risco que ninguém comenta
Diferente do que se imagina, a obstrução intestinal não atinge
apenas idosos ou pessoas operadas. O cirurgião destaca grupos de risco pouco
conhecidos:
- Adeptos de dietas muito restritivas: Dietas pobres em fibras e baixo consumo de água podem
reduzir bastante a motilidade intestinal, favorecendo a impactação fecal,
um quadro que simula obstrução.
- Usuários de opioides: Outra causa
frequente de constipação severa, principalmente em pacientes oncológicos.
Em alguns casos, o intestino fica tão lento que evolui para quadros
semelhantes à obstrução.
- Quem tem hérnia e não sabe: Já as hérnias são um capítulo à parte. Muitas passam
despercebidas até o momento em que uma alça intestinal fica presa ali,
causando uma obstrução verdadeira e exigindo cirurgia de emergência.
O Dr. Nacif propõe uma orientação prática. "Se você está com dor
abdominal crescente, vômitos repetidos e não consegue eliminar gases por mais
de 6 horas, não espere. É melhor ser um 'falso alarme' do que chegar tarde
demais”, finaliza o especialista.

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