Extração otimizada de açúcares,
ácidos orgânicos e compostos fenólicos com propriedades antioxidantes,
antimicrobianas e anti-inflamatórias utiliza apenas água e é promissora para
aplicações na indústria de biocombustíveis, farmacêutica e alimentícia
Em estudo publicado no Biofuel Research Journal, pesquisadores das
universidades Estadual de Campinas (Unicamp) e Tecnológica Federal do Paraná
(UTFPR) avaliaram a eficiência e o impacto ambiental do aproveitamento da palha
de milho com uma técnica que utiliza apenas água pura como solvente para
extrair bioderivados.
A palha de milho é um
subproduto agrícola abundante (frequentemente descartado) e rico em compostos
lignocelulósicos, como hemicelulose, celulose e lignina. No trabalho, fruto da
pesquisa de doutorado de Rafael
Gabriel da Rosa, o grupo de cientistas extraiu
açúcares, ácidos orgânicos e compostos fenólicos com propriedades
antioxidantes, anti-inflamatórias e antimicrobianas a partir desse resíduo,
otimizando os parâmetros do processo ao empregar hidrólise (quebra de moléculas
grandes em menores) com “água subcrítica” (em alta temperatura e sob pressão
alta para evitar ebulição) em vez de hidrólise ácida. O avanço é útil para
aplicações na indústria alimentícia, farmacêutica e de biocombustíveis.
A obtenção de cada subproduto
depende de variações na temperatura e no pH, seguindo uma sequência de
decomposição que inicia nos compostos fenólicos e termina nos ácidos orgânicos,
passando pelos açúcares.
Os resultados revelaram uma
recuperação significativa: a hidrólise subcrítica conseguiu obter compostos
fenólicos em valores de 16,06 miligramas a 76,82 miligramas equivalentes de
ácido gálico por grama (padrão na quantificação de compostos fenólicos),
enquanto trabalhos com hidrólise ácida obtiveram 12,76 miligramas equivalentes
de ácido gálico por grama.
No caso de açúcares (glicose,
xilose e celobiose), foram obtidos 448,54 miligramas por grama de palha de
milho hidrolisada a 170 °C por no máximo 30 minutos e pH 1. Métodos
tradicionais de hidrólise não superam a marca de 74,5 miligramas por grama de
palha hidrolisada. Assim, a um rendimento seis vezes maior aliam-se redução de
custos em tempo e energia.
Finalmente, no caso de ácidos orgânicos (acético e fórmico), foram obtidos 1.157,19 miligramas por grama de palha de milho hidrolisada a 226 °C e pH 4,5. “Essa extração de ácidos orgânicos representa uma oportunidade concreta para a produção de precursores químicos renováveis com aplicação em plásticos biodegradáveis, solventes e conservantes naturais”, afirma Tânia Forster-Carneiro, orientadora de Rosa, coautora do artigo e professora da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp.

Tânia Forster-Carneiro e Rafael Gabriel da Rosa
acervo pessoal
Método
sustentável
Os pesquisadores também fizeram
uma análise de sustentabilidade da tecnologia, chamada EcoScale. Trata-se de
uma métrica semiquantitativa para avaliação das condições de reação química em
escala de laboratório. A ferramenta, capaz de avaliar os impactos ambientais,
econômicos e sociais de um processo ou tecnologia, usa uma escala de 0 a 100,
com 0 representando uma reação totalmente falha (0% de rendimento) e 100 a
reação ideal: composto A (substrato) reage com (ou na presença de) composto
barato B para dar o composto desejado C com 100% de rendimento, à temperatura
ambiente, com um risco mínimo para o operador e um impacto mínimo para o meio
ambiente. “Nosso resultado surpreendeu: o método atingiu 93 pontos”, comemora
Forster-Carneiro. Outros processos que utilizam produtos químicos agressivos,
como ácido sulfúrico e hidróxido de sódio, obtiveram notas entre 54,63 e 85,13
pontos.
Segundo a cientista, outra
novidade do estudo foi a análise técnico-econômica preliminar (ou taxa de payback),
integrando dados experimentais com estimativas de investimento, operação e
retorno econômico ao levar em consideração fatores como custo de equipamentos,
insumos e energia.
“A análise fornece uma visão
estratégica para a tomada de decisão, simula diferentes cenários e identifica
os mais promissores para aplicação industrial, fortalecendo o elo entre
ciência, inovação e aplicação prática”, explica Forster-Carneiro. O trabalho
focou no açúcar como produto final de maior valor econômico, visando os
biocombustíveis, e os resultados demonstraram um tempo de payback variando
entre quatro e cinco anos.
Além de Rosa e
Forster-Carneiro, o trabalho, apoiado pela FAPESP (projetos 18/14938-4, 18/14582-5, 22/02305-2, 23/02064-8 e 21/04096-9), é assinado por Luiz
Eduardo Nochi Castro, Tiago
Linhares Cruz Tabosa Barroso, Vanessa
Cosme Ferreira (FEA); Maurício
Ariel Rostagno (Faculdade de Ciências
Aplicadas da Unicamp) e Paulo Rodrigo Stival Bittencourt (UTFPR).
O artigo Valorizing corn stover waste into valuable bioproducts using subcritical water hydrolysis pode ser lido em: www.biofueljournal.com/article_216413.html.
Ricardo MunizAgência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/tecnologia-verde-aproveita-palha-de-milho-para-gerar-bioderivados-de-alto-valor-com-economia/54883

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