![]() |
| As M. contortum reduziram em até 42% a presença dos antibiótico s sulfametoxazol e trimetoprima na água e ainda geraram subproduto viável para produção de biodiesel (imagem: Marcelo Chuei Matsudo |
Em laboratório, a espécie Monoraphidium contortum eliminou parte dos medicamentos adicionados ao líquido e produziu biomassa com potencial valor comercial
Microalgas da espécie Monoraphidium
contortum têm a capacidade de remover da água resíduos de
antibióticos, em especial o sulfametoxazol e a trimetoprima. Dessa forma, reduzem
o risco de contaminação do meio ambiente, o que evita consequências severas
para o ecossistema e para a saúde humana.
Essa foi a conclusão de um
estudo realizado em parceria por pesquisadores da Universidade Federal do ABC
(UFABC), em Santo André, Universidade Federal de Itajubá (Unifei), em Minas
Gerais, e Universidade de São Paulo (USP), com o apoio da FAPESP.
O trabalho, publicado no Biochemical
Engineering Journal, teve duas frentes. “Em uma delas, cultivamos a espécie
de microalga em um fotobiorreator [biorreator que possui iluminação adequada
para que os microrganismos realizem fotossíntese] na presença de antibióticos
que são comumente utilizados no Brasil e encontrados em efluentes e corpos
d´água. Ou seja, resíduos, provenientes das atividades humanas, que não foram
removidos na estação de tratamento de esgoto, podendo ser lançados no meio
ambiente”, explica Marcelo Chuei Matsudo,
professor de biotecnologia da UFABC e autor correspondente do artigo.
Para simular o cenário
comumente encontrado na natureza brasileira, os pesquisadores utilizaram
sulfametoxazol e trimetoprima, que estão entre os dez antibióticos mais
consumidos no país nos últimos anos. “Verificamos que, em baixas concentrações,
condição encontrada nos efluentes, não houve prejuízo no crescimento da
microalga, que removeu de 27% a 42% dos medicamentos adicionados ao meio”,
conta Matsudo. O pesquisador ressalta ainda que nesse processo a microalga
produziu uma biomassa com potencial valor comercial, já que mostrou viabilidade
para a produção de biodiesel.
Na outra frente analisada na
pesquisa, o pesquisador Marcus Vinicius Xavier Senra conduziu
o sequenciamento do genoma dessa microalga e, com auxílio de ferramentas de
bioinformática, detectou a presença do gene responsável pela produção de uma
enzima que, potencialmente, degrada tais poluentes.
Os resultados obtidos ainda não
podem ser colocados em prática, ressalva o pesquisador. “Paralelamente a esse
trabalho, pretendemos estudar como seria esse comportamento em condições
naturais, no efluente proveniente da estação de tratamento de esgoto, por
exemplo, onde as condições encontradas não são as mesmas que aquelas otimizadas
em um fotobiorreator com meio de cultura sintético para o crescimento das
microalgas”, diz Matsudo.
Importância
para o ambiente e a saúde
Os antibióticos não são
totalmente metabolizados por humanos e animais. A fração restante que deixa de
ser processada pelo organismo é excretada nas fezes e na urina, chegando às
estações de tratamento de esgoto. A maior parte dessas substâncias não é
removida pelas estações convencionais, uma vez que os processos de tratamento
não são projetados para tal finalidade. Assim, pode ocorrer a contaminação do
meio ambiente, que resulta em consequências severas não só para os
ecossistemas, mas também para a saúde humana, com a proliferação de cepas de
bactérias resistentes a antibióticos.
Por isso, há a necessidade
urgente de tecnologias capazes de remover esses micropoluentes. A ozonização
(utilização de ozônio para desinfecção, purificação e tratamento), a adsorção
de carvão ativado (processo onde moléculas ou íons presentes em um fluido são
atraídos e retidos na superfície do carvão ativado) e os processos avançados de
oxidação e separação por membrana são algumas tecnologias testadas com essa
finalidade, mas os altos custos operacionais e a possibilidade de geração de
subprodutos ainda tóxicos limitam sua implementação.
“Nesse contexto, a
biorremediação baseada em microalgas surgiu como uma abordagem promissora
associada ao tratamento terciário de esgoto e águas residuais industriais”,
afirma o pesquisador.
O artigo Unveiling the antibiotics
removal ability of Monoraphidium contortum pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1369703X25000592.

Nenhum comentário:
Postar um comentário