Campanhas visam ampliar o conhecimento sobre a condição que atinge milhões de mulheres e é comumente confundida com obesidade ou linfedema
Junho marca o mês da
conscientização sobre o lipedema, uma doença crônica, progressiva e ainda pouco
conhecida, que atinge majoritariamente mulheres. Caracterizada pelo acúmulo
anormal e doloroso de gordura subcutânea, principalmente nas pernas e, em
alguns casos, nos braços, a condição é frequentemente confundida com obesidade
ou linfedema, o que dificulta o diagnóstico e o tratamento adequados.
Segundo o estudo “Prevalência e
Fatores de Risco para Lipedema no Brasil”, realizado em 2023, o problema atinge
12,3% das mulheres brasileiras, o que representa cerca de 200 mil casos só no
Espírito Santo e milhões no Brasil. O lipedema costuma surgir na puberdade e
pode se agravar com a obesidade. Muitas pacientes relatam sintomas como pernas
pesadas, hematomas frequentes, inchaços e sensibilidade ao toque, além de um aspecto
ondulado na pele, similar à celulite.
“O lipedema ainda é pouco
reconhecido, mesmo entre profissionais da saúde, o que atrasa o diagnóstico e o
início do tratamento. Conscientizar é fundamental para que mais mulheres possam
identificar os sintomas, buscar ajuda especializada e evitar o avanço da
doença”, destaca o médico Diego Torrico.
A campanha tem como objetivo
informar a população e os profissionais de saúde sobre os sinais da doença,
suas causas, formas de diagnóstico e opções de tratamento. “Os sintomas mais
comuns incluem dor, sensibilidade ao toque, inchaço desproporcional e
facilidade em formar hematomas. Como o lipedema não melhora com dieta ou
exercícios físicos, muitas mulheres enfrentam anos de frustração até receberem
um diagnóstico correto”, explica.
Impactos psicológicos: uma dor
que vai além do físico
Segundo o médico Diego Torrico,
por trás das queixas de dor, inchaço, hematomas frequentes e sensibilidade,
existe também um histórico de sofrimento emocional. Muitas pacientes passaram
anos, ou até décadas, sendo invalidadas, ridicularizadas e culpabilizadas pelo
próprio corpo.
“Muitas dessas mulheres foram
vistas como ‘desleixadas’ ou ‘sem disciplina’, mesmo levando uma vida ativa,
com alimentação controlada, exercícios regulares e, ainda assim, sem resultados
nas áreas afetadas”, diz o Dr. Diego Torrico.
Essa invalidação constante gera
impactos profundos na saúde mental. “O ciclo de dor crônica, com tentativas
frustradas de emagrecimento e a dificuldade no reconhecimento da doença levam
muitas pacientes a desenvolverem quadros de ansiedade, depressão, isolamento
social, transtornos alimentares e queda na autoestima”, afirma Torrico.
“Quando o próprio médico não
acredita em você, você começa a duvidar de si mesma. O lipedema não afeta só o
corpo. Ele adoece também a mente”, relata a paciente Valéria Mendes Magalhães,
que descobriu a doença já no grau 3.
Por isso, o tratamento do
lipedema precisa ser multidisciplinar, incluindo não só a abordagem clínica e
física, mas também o acolhimento psicológico, que é essencial para resgatar a
autoestima, restaurar a relação com o próprio corpo e lidar com os impactos
emocionais da doença.
Junho é muito mais do que um mês
de conscientização. É um movimento de resistência, de acolhimento e de
empoderamento para todas as mulheres que carregaram, por muito tempo, a culpa
de um corpo que nunca foi entendido — nem por elas, nem pelos profissionais que
deveriam cuidar delas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário