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sábado, 13 de abril de 2024

A Cilada do Narcisista

 

Nelson Rodrigues descrevia em suas crônicas as pessoas enamoradas de si mesmas com o termo: “Ele está em furioso enamoramento de si mesmo”. É um jeito muito divertido de chamar alguém de narcisista. Hoje as Redes Sociais não identificam o Narcisista apenas como alguém furiosamente enamorado de sua própria imagem, mas como pessoas egoístas, mesquinhas, manipuladoras. Isso chega no consultório, com denúncias do tipo: “Acho que meu marido é Narcisista”; “Eu tenho uma mãe Narcisista”; “Fiquei presa na cilada do Narcisista”.

O Narcisismo é uma dinâmica e um transtorno de Personalidade. São pessoas que tem um sentimento de auto-importância distorcido e desproporcional. Tem fantasias de sucesso ilimitado, acredita ser especial e único e exige, sempre, admiração excessiva. Acha que tem mais direitos que os meros mortais. Carece de empatia e tem atitudes e comportamentos arrogantes. O que? Você conhece alguém assim? Você é assim?

Sou capaz de jurar que a maioria esmagadora responde à primeira, mas não à segunda pergunta. É mais fácil identificar o Narcisismo alheio que o nosso, de cada dia. O mais incômodo é imaginar quantos portadores dessa personalidade Narcísica acabam atraindo uma fileira de seguidores e fãs. Alguns dispostos a abdicar de tudo para seguir essas pessoas como seres iluminados e realmente especiais. O que eu percebo clinicamente é que muita gente tem traços, mais ou menos numerosos, desse transtorno, mas não tem todas as características do espectro. O cara pode ser metido, arrogante, achar-se mais e melhor que os outros e, ainda assim, ser capaz de gestos de carinho e generosidade com as pessoas e familiares. Ou pode mandar invadir a Ucrâni. O fato é que dificilmente alguém que tem esse transtorno vai parar no consultório de um psiquiatra. Como um ser tão especial pode se submeter a um cara assim? Ele vai perceber como eu sou o cara?

Mas nem todo Narcisismo é ruim e nem todo Narcisista tem um Transtorno de Personalidade. Explico.

O Narcisismo é uma dinâmica de nosso aparelho psíquico. Ele se estrutura muito cedo em nossa vida, talvez desde a vida intrauterina. Estudos mostram que a gravidez onde a mãe e outras pessoas conversam, se interessam, fazem uma representação daquele ser que está em gestação, já começa a criar a díade Mãe/Filho e isso ajuda no posterior desenvolvimento cognitivo e emocional da criança. Ter uma boa imagem de si e ser apreciado pelas pessoas também ajuda a se criar um Narcisismo bem integrado e saudável. Outro dia vi uma criança esperneando e gritando porque sua mãe não queria comprar um pacote de cookies. Eu sou oriundo de uma família italiana, esse tipo de chilique eu sei bem como seria abordado. A mãe se ajoelhou, olhou nos olhos de sua filha com ternura e respondeu: “Eu sei que você vai ficar chateada, mas hoje não vamos levar o cookie, ok?”. A menina continuou resmungando, claro, mas aquela validação desarmou o escândalo. O Narcisismo bem trabalhado tem essa característica: eu te amo e valorizo sua tristeza, mas hoje não tem biscoito, ok? O Narcisismo disfuncional vai ser fabricado por essa Infantolatria que não pode, nunca, frustrar a pequena estrela de cinema que solicitou o cookie.

O contrário do Narcisismo, portanto, é a empatia. Colocamos as meninas para valorizar os caras confiantes, arrogantes e que se acham a última bolacha do universo. Depois vai denunciar nas redes sociais ter ficado presa na “cilada do Narcisista”.

Tem uma cena no fabuloso filme: “Sete Anos no Tibet” em que Brad Pitt faz o papel de um famoso alpinista alemão, preso durante a guerra nas montanhas do Tibet. Ele e seu amigo tem uma queda por uma bela habitante local. Brad Pitt, veja bem, Brad Pitt mostra para a moça a sua habilidade de alpinista, escalando e descendo de uma casa. Ela responde, educadamente, que ficar enaltecendo o próprio Ego é uma coisa bem broxante para uma moça do Tibet: as qualidades esperadas são generosidade, modéstia, empatia. Ela deu um pé na bunda do Brad e ficou com seu amigo, bem mais feinho, aliás. Você acha que essa moça iria cair na “cilada do Narcisista”?

Aposto que você está rindo, aí do outro lado da tela.

 

Marco Antonio Spinelli - médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”

 

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