Condição crônica pode comprometer a
mobilidade e a qualidade de vida; especialista alerta para os riscos do
autodiagnóstico
O lipedema pode causar dor, sensação de peso, hematomas
e aumento desproporcional das pernas.
Divulgação
Dor
ao toque, sensação de peso nas pernas, hematomas frequentes e aumento desproporcional
do volume dos membros podem estar relacionados ao lipedema. A condição crônica
atinge predominantemente mulheres e ainda enfrenta dificuldades de diagnóstico.
O
primeiro Consenso Brasileiro de Lipedema, publicado em 2025 no Jornal Vascular
Brasileiro, aponta prevalência estimada de 12,3% entre as mulheres adultas do
país, o equivalente a aproximadamente uma em cada oito. O documento foi
desenvolvido pela Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular
(SBACV).
O
estudo reuniu 90 afirmações sobre diagnóstico, tratamento e manejo da condição,
avaliadas por 113 profissionais de diferentes áreas da saúde. A maior parte dos
temas alcançou o nível de concordância estabelecido pelos pesquisadores.
A
estimativa brasileira, no entanto, deve ser interpretada com cautela. Uma
revisão publicada em 2026 na revista npj Metabolic Health and Disease
identificou limitações metodológicas no levantamento que originou o percentual
e alertou para a possibilidade de superestimação.
Os
pesquisadores destacam que ainda faltam critérios diagnósticos universais e
estudos populacionais mais amplos. Para o cirurgião plástico Pedro Morales, que
atua em Ribeirão Preto, o avanço das pesquisas exige cuidado com diagnósticos
baseados apenas em imagens ou conteúdo das redes sociais.
“O
aumento da informação sobre o lipedema é importante, mas reconhecer alguns
sinais não significa confirmar o diagnóstico. Dor, inchaço, sensação de peso e
alterações no volume das pernas também podem aparecer em outras condições. A
avaliação clínica é indispensável para compreender cada caso”, afirma.
Lipedema vai além da
aparência
O
lipedema é caracterizado por uma distribuição desproporcional e geralmente
simétrica do tecido adiposo, sobretudo nas pernas e nos quadris. Em alguns
casos, os braços também podem ser afetados, enquanto as mãos e os pés costumam
ser preservados.
Além
da alteração corporal, as pacientes podem apresentar sensibilidade, dor à
pressão, sensação de peso, cansaço nas pernas e facilidade para desenvolver
hematomas. O desconforto pode interferir na caminhada, na permanência em pé e
em outras atividades cotidianas.
O
consenso brasileiro classifica o lipedema como uma doença crônica e sistêmica.
O documento também destaca que a condição pode afetar a mobilidade, a saúde
mental e a qualidade de vida das pacientes.
“Não
se trata apenas do formato das pernas ou de uma questão estética. Algumas
pacientes convivem com dor e limitações por anos sem saber a origem dos sintomas.
Muitas acreditam que o problema está relacionado somente ao ganho de peso ou à
dificuldade para emagrecer”, explica Morales.
Lipedema e obesidade são
condições diferentes
O
lipedema não é causado pela obesidade, embora as duas condições possam coexistir.
A diferença está, entre outros aspectos, na distribuição do tecido adiposo e na
presença de sintomas como dor, sensibilidade e hematomas frequentes.
A
sobreposição entre os quadros pode dificultar o diagnóstico. O consenso
brasileiro também alerta que o lipedema pode ser confundido com linfedema,
doenças venosas e outras alterações que provocam aumento do volume dos membros.
“Uma
paciente pode ter lipedema e obesidade ao mesmo tempo, mas isso não significa
que sejam a mesma condição. O diagnóstico não deve considerar apenas o peso ou
a aparência corporal. É necessário avaliar a distribuição do tecido, os
sintomas, o histórico clínico e o impacto na rotina”, esclarece.
Um
consenso internacional da Lipedema World Alliance, publicado em 2026 na revista
Nature Communications, reforçou a necessidade de critérios mais claros para a
definição e o manejo da doença.
A
produção científica recente também aponta que ainda não existe um exame
laboratorial ou de imagem capaz de confirmar o lipedema isoladamente. O diagnóstico
depende principalmente do histórico da paciente e da avaliação clínica.
Tratamento deve começar pela
avaliação clínica
A
investigação inclui uma conversa detalhada sobre o início e a evolução dos
sintomas, mudanças corporais, histórico familiar e tratamentos anteriores. O
médico também avalia possíveis impactos na mobilidade e na rotina.
No
exame físico, são observados a distribuição do tecido adiposo, a simetria dos
membros, a sensibilidade e outros sinais clínicos. Exames complementares podem
ser solicitados para investigar condições associadas ou excluir outros
diagnósticos.
O
Consenso Brasileiro de Lipedema recomenda priorizar o tratamento conservador e
multidisciplinar. As estratégias podem envolver atividade física orientada,
fisioterapia, medidas de compressão, acompanhamento nutricional e suporte
psicológico.
“O
tratamento não segue uma receita única. Alguns pacientes apresentam sintomas
leves, enquanto outras convivem com dor, dificuldade de mobilidade e prejuízos
importantes na rotina. A conduta precisa considerar esse conjunto de fatores”,
pontua Pedro Morales.
Cirurgia não é indicada
automaticamente
A
abordagem cirúrgica pode ser considerada em casos selecionados, mas não
representa o primeiro passo para todas as pacientes. O consenso brasileiro
recomenda que a prioridade seja o alívio dos sintomas e a melhora da
mobilidade.
A
indicação deve ocorrer após avaliação individualizada e discussão sobre
benefícios, limitações, riscos e recuperação. O resultado estético não deve ser
o objetivo principal do tratamento cirúrgico do lipedema.
“A
consulta não deve começar com uma decisão pela cirurgia. Primeiro, é preciso
entender o que está acontecendo, confirmar o diagnóstico e organizar o cuidado.
Quando existe indicação cirúrgica, ela deve fazer parte de um planejamento
responsável e integrado ao acompanhamento da paciente”, afirma Morales.
Em
Ribeirão Preto, o acesso crescente a informações sobre o lipedema tem levado
mais mulheres a buscar esclarecimentos. Para o especialista, o principal avanço
está em retirar a condição do campo exclusivamente estético e ampliar o olhar
sobre os sintomas.
“Informação
de qualidade ajuda a paciente a reconhecer sinais que merecem atenção. Ao mesmo
tempo, é preciso evitar o autodiagnóstico. Pessoas com características
corporais semelhantes podem apresentar condições e necessidades completamente
diferentes”, conclui.
Pedro Morales - médico cirurgião plástico, empresário e autor, com atuação em Ribeirão Preto (SP). Na cirurgia plástica, trabalha com foco em planejamento, individualização, transparência e acompanhamento do paciente em todas as etapas do tratamento. Mais informações estão disponíveis no site drpedromorales.com.br e nas redes sociais, pelo Instagram e Facebook.
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