terça-feira, 8 de setembro de 2026

Dia da Amazônia: mudanças no clima e no território já transformam a alimentação das comunidades amazônicas

  Escuta realizada pela Vaga Lume em comunidades da região Norte revela impactos das mudanças no clima, nos rios e nas roças e mostra como esses processos chegam ao cotidiano e à mesa

 

No mês da Amazônia, celebrado em setembro, falar sobre o futuro da floresta também significa olhar para as transformações que já afetam a vida de quem vive nela. Alterações no clima, redução das chuvas, estiagens mais intensas, desmatamento e mudanças nos rios já fazem parte do cotidiano das comunidades amazônicas e repercutem em uma dimensão essencial da vida: a alimentação. Quando os períodos de chuva mudam, os rios baixam mais do que o habitual ou as condições para plantar se tornam menos previsíveis, também se alteram as possibilidades de produzir, pescar, colher e acessar alimentos. Assim, as mudanças no clima e no território acabam se refletindo no que é possível colocar à mesa e na frequência com que práticas alimentares tradicionais são realizadas. É o que revela uma consulta comunitária realizada pela Vaga Lume com as bibliotecas de sua rede, presente em 102 comunidades ribeirinhas, rurais, quilombolas e indígenas de 23 municípios da Amazônia Legal.
 

Na rede da Vaga Lume, as bibliotecas comunitárias são mais do que espaços de acesso à leitura; são lugares de encontros, conversas, registros e circulação de saberes, onde diferentes gerações se reúnem e conhecimentos locais são compartilhados. Foi nesse ambiente de troca que a consulta foi realizada, de forma participativa, por meio de encontros nesses espaços, organizados para reunir percepções coletivas sobre as transformações vividas em cada território.

Vaga Lume
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As respostas dessa escuta deram origem ao Guia de Atividades para a Semana da Amazônia Vaga Lume 2026, que vai orientar as atividades realizadas nas comunidades. Para elaborar o material, a organização perguntou o que as comunidades produzem e consomem, de onde vêm os alimentos, quais práticas fazem parte de suas culturas alimentares e o que mudou nos últimos anos. “As respostas reforçam uma Amazônia de muitas culturas alimentares e, ao mesmo tempo, registram de forma espontânea a preocupação com as transformações nos territórios e seus efeitos sobre aquilo que chega à mesa. Ao falar sobre alimentação, as comunidades descrevem as condições que tornam possível produzir e acessar esses alimentos, revelando como as mudanças no clima, nos rios e nas roças repercutem no cotidiano”, diz Lia Jamra, diretora-executiva da Vaga Lume. 

Entre os relatos, aparece uma sequência de mudanças que conecta clima, território e alimentação. Em Santarém (PA), a Comunidade Murumuru relaciona a diminuição da oferta de peixe à poluição e ao desmatamento dos rios. Em Atodi, também em Santarém, as grandes secas são apontadas como um obstáculo à produção agrícola e à chegada de alimentos. As transformações relacionadas ao clima também aparecem nas roças do Quilombo de Murumurutuba, em Santarém, onde a percepção da comunidade aponta para a diminuição das plantações familiares. 

“Os depoimentos mostram que essas transformações não ficam restritas ao ambiente. Quando a pesca é afetada, quando as estiagens dificultam o cultivo ou quando a produção familiar diminui, muda também a disponibilidade dos alimentos que tradicionalmente fazem parte da alimentação das comunidades quanto, também, as oportunidades de manter modos tradicionais de preparar os alimentos”, ressalta Lia. 

Essas mudanças transformam não apenas os hábitos alimentares das comunidades, mas também as formas de transmissão dos saberes ligados à alimentação. As alterações nas condições de produção atingem práticas que dependem diretamente do ritmo dos rios, das chuvas, das roças e da disponibilidade de determinados ingredientes. 

Para a diretora da Vaga Lume, ouvir as comunidades sobre os hábitos alimentares também significa compreender essas relações e os efeitos das mudanças no cotidiano. “Quando a farinhada, a pescaria e o trabalho na roça se tornam menos frequentes em função das mudanças climáticas principalmente, os saberes locais começam a ocupar um espaço secundário. À medida que algumas formas tradicionais de produção e obtenção de alimentos enfrentam dificuldades, novas formas de abastecimento ganham espaço e é nesse contexto que as comunidades relatam o aumento da presença de alimentos industrializados”, ressalta.

 Alicia Peres_Murumuru_Vaga Lume
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No Quilombo Bom Viver, em Mirinzal (MA), as família relatam que nos últimos anos houve um aumento no consumo de refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos, macarrão instantâneo, embutidos, enlatados, sucos artificiais e alimentos congelados. Em Murumuru (PA), a chegada das padarias também impactou os hábitos alimentares: comidas tradicionais como o beiju de tapioca, de mandioca e de carimã, além da macaxeira e do cará cozido, hoje são menos consumidas, enquanto o pão francês ganhou espaço no cotidiano dos moradores. 

Em Barreirinhas (MA), a comunidade Cantinho descreve uma mudança mais ampla na relação entre território e alimentação. Segundo os moradores, houve um período em que a sobrevivência dependia principalmente dos recursos dos rios, mas o desmatamento e a construção de casas e mansões às margens alteraram essa realidade. Hoje, o acesso aos alimentos depende, em grande parte, da compra ou, para quem dispõe de um pedaço de terra, do cultivo. 

“Quando o território perde parte da capacidade de produzir alimentos, o acesso à comida passa a depender das condições de produção, circulação e compra. As mudanças ambientais podem tornar esse acesso ainda mais sensível, ao afetarem a pesca, o cultivo e a disponibilidade de alimentos. Não se trata apenas de saber o que as pessoas comem, mas de entender quais alimentos estão disponíveis, de onde vêm e o que é necessário para que continuem sendo produzidos e consumidos. A segurança alimentar surge, assim, das próprias respostas das comunidades, quando falam sobre a disponibilidade de peixe, as condições para plantar, o avanço dos alimentos industrializados e as mudanças nos modos de fazer e transmitir conhecimentos”, reforça Lia. 

E se por um lado foram identificadas práticas que perdem espaço no cotidiano, a escuta revelou conhecimentos que permanecem vivos e continuam preservados em práticas do dia a dia. A permanência dessas práticas ganha ainda mais significado diante das transformações relatadas pelas comunidades. Manter uma receita, uma técnica de preparo ou uma forma de produzir também significa manter vivo um conhecimento construído a partir da relação com o território e com os recursos disponíveis nele.

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Um exemplo vem do Quilombo Bom Viver, em Mirinzal (MA), onde a produção da farinha de mandioca envolve um modo de fazer que vai da colheita ao preparo e preserva técnicas transmitidas entre gerações. Todo o processo, desde a colheita até a torra da mandioca, é realizado seguindo técnicas transmitidas de geração em geração. Na Comunidade Graças a Deus, em Castanhal (PA), os moradores relatam que alimentos como pé de moleque, beiju e grude, associados e produzidos durante a Semana Santa, são uma tradição da região repassada de pais para filhos. Já em Santo Onofre, em Ponte Alta do Tocantins (TO), uma receita também ganha continuidade: o bolo de arroz com Baru, foi adaptado com a inclusão do fruto triturado. 

“Para a Vaga Lume, ouvir sobre alimentação é também ouvir sobre memória, saberes tradicionais, território e relações entre gerações. Ao perguntar o que chega à mesa, a gente encontra pistas sobre o que está acontecendo nos rios, nas roças e nas formas de produzir, preparar e transmitir conhecimentos. Também encontra sinais de como as mudanças no clima e no território repercutem no cotidiano das comunidades, alterando possibilidades de produzir, acessar e preservar alimentos e práticas alimentares. No Dia da Amazônia, são essas vozes dos territórios que ajudam a contar uma história que já está em curso”, finaliza Lia.


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