▼

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Crédito consignado avança entre trabalhadores e amplia preocupação das empresas com o endividamento


Expansão do acesso ao crédito, apostas e comprometimento da renda podem aumentar os impactos do endividamento no ambiente de trabalho, avalia Reinaldo Domingos

 

O avanço do crédito consignado para trabalhadores com carteira assinada começa a colocar uma nova questão para as empresas: até que ponto o comprometimento da renda dos funcionários pode afetar sua vida financeira, seu comportamento e até sua relação com o trabalho? 

A preocupação ganhou força com a ampliação do acesso ao crédito para trabalhadores regidos pela CLT. O programa Crédito do Trabalhador permite que empregados com vínculo formal contratem empréstimos consignados com desconto das parcelas diretamente na folha. A margem para o pagamento das prestações é de até 35% da remuneração disponível. 

Para Reinaldo Domingos, PhD, educador e terapeuta financeiro, o avanço do crédito não deve ser analisado apenas sob a ótica da oferta de empréstimos. O ponto central, segundo ele, é a capacidade do trabalhador de avaliar o impacto de uma nova dívida sobre o orçamento familiar. “O crédito não é um problema em si. Ele pode ser uma ferramenta importante quando existe planejamento. A dificuldade aparece quando a contratação do crédito acontece sem que o trabalhador compreenda quanto daquela renda futura já estará comprometida”, afirma.

 

Empresas começam a sentir os efeitos

O endividamento, segundo Domingos, deixou de ser uma questão restrita à vida financeira das famílias e pode produzir reflexos dentro das empresas. Funcionários com parcela significativa da renda comprometida podem enfrentar maior dificuldade para administrar despesas recorrentes, lidar com imprevistos e reorganizar o orçamento. 

A própria dinâmica do consignado amplia essa relação entre crédito e trabalho. Como as parcelas são descontadas diretamente da remuneração, o impacto da contratação aparece todos os meses no salário recebido. Em caso de desligamento, parte das operações pode continuar sendo cobrada, inclusive por meio das garantias previstas no programa. O Ministério do Trabalho regulamentou, em 2026, mecanismos para utilização de garantias vinculadas às verbas rescisórias nas operações do Crédito do Trabalhador. 

“Para a empresa, não se trata de administrar a vida financeira do funcionário. Trata-se de compreender que o endividamento pode chegar ao ambiente de trabalho e que a prevenção também pode fazer parte das políticas de cuidado com as pessoas”, afirma Domingos.

 

Novo debate envolve o aluguel consignado

A discussão ganhou um novo capítulo em agosto, quando a Câmara dos Deputados aprovou projeto que permite o desconto em folha de valores referentes a aluguéis residenciais e encargos. O texto estabelece limite de até 30% da remuneração disponível e ainda será analisado pelo Senado. 

A proposta não significa que um trabalhador poderá automaticamente comprometer 65% da renda com empréstimos e aluguel. São regras distintas e o projeto do aluguel ainda não está em vigor. O debate, porém, chama atenção para um ponto: diferentes compromissos financeiros podem disputar uma mesma renda mensal. 

“Quando uma parcela relevante da remuneração já está comprometida com crédito e outros pagamentos fixos, sobra menos espaço para alimentação, transporte, saúde, educação, contas domésticas e imprevistos. O risco não está em uma modalidade isolada, mas na soma dos compromissos assumidos ao longo do tempo”, explica.

 

Crédito, apostas e comportamento financeiro

Outro fator que pode agravar o problema é a utilização de plataformas de apostas por pessoas que já apresentam dificuldades para equilibrar o orçamento. Nesse cenário, o crédito pode deixar de ser utilizado para uma necessidade planejada e passar a financiar despesas ou comportamentos que não geram capacidade futura de pagamento. 

Para Domingos, essa combinação reforça a necessidade de tratar o endividamento também como uma questão de comportamento financeiro. “A renegociação pode aliviar uma dívida, mas não necessariamente modifica o comportamento que levou ao endividamento. Se a pessoa continua tomando decisões sem considerar o impacto sobre a renda futura, o problema pode voltar”, afirma.

 

Educação financeira como prevenção

Na avaliação do especialista, as empresas podem desempenhar um papel preventivo por meio de programas estruturados de educação do comportamento financeiro. A proposta, segundo ele, não deve se limitar a palestras pontuais sobre orçamento ou crédito, mas trabalhar de forma contínua questões relacionadas a planejamento, consumo, endividamento e tomada de decisões. 

A iniciativa também pode envolver as famílias dos trabalhadores, já que boa parte das decisões financeiras é tomada dentro do orçamento familiar. “Não cabe à empresa decidir se o trabalhador deve ou não contratar um empréstimo. Cabe criar condições para que ele tenha conhecimento para avaliar as consequências daquela decisão. A educação do comportamento financeiro atua justamente antes que o problema apareça”, diz Domingos. 

O avanço do crédito entre diferentes grupos de trabalhadores coloca, assim, um desafio que vai além do sistema financeiro. Para o especialista, empresas, instituições financeiras, escolas, poder público e famílias precisam ampliar a discussão sobre prevenção ao endividamento. 

“Não existe solução mágica para uma situação financeira construída ao longo do tempo. Existe conhecimento, planejamento e mudança de comportamento. Quanto mais cedo esse trabalho começar, menores tendem a ser as consequências para o trabalhador, sua família e também para a empresa”, conclui.

 


Reinaldo Domingos - PhD, é educador e terapeuta financeiro, escritor e presidente da DSOP Educação Financeira. Conhecido como Dr. Dívidas, atua na disseminação da educação do comportamento financeiro para famílias, empresas e instituições.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário