Expansão do acesso
ao crédito, apostas e comprometimento da renda podem aumentar os impactos do
endividamento no ambiente de trabalho, avalia Reinaldo Domingos
O avanço do crédito consignado para trabalhadores com carteira assinada começa a colocar uma nova questão para as empresas: até que ponto o comprometimento da renda dos funcionários pode afetar sua vida financeira, seu comportamento e até sua relação com o trabalho?
A preocupação ganhou força com a ampliação do acesso ao crédito para trabalhadores regidos pela CLT. O programa Crédito do Trabalhador permite que empregados com vínculo formal contratem empréstimos consignados com desconto das parcelas diretamente na folha. A margem para o pagamento das prestações é de até 35% da remuneração disponível.
Para Reinaldo Domingos, PhD, educador e terapeuta financeiro, o avanço do crédito não deve ser analisado apenas sob a ótica da oferta de empréstimos. O ponto central, segundo ele, é a capacidade do trabalhador de avaliar o impacto de uma nova dívida sobre o orçamento familiar. “O crédito não é um problema em si. Ele pode ser uma ferramenta importante quando existe planejamento. A dificuldade aparece quando a contratação do crédito acontece sem que o trabalhador compreenda quanto daquela renda futura já estará comprometida”, afirma.
Empresas começam
a sentir os efeitos
O endividamento, segundo Domingos, deixou de ser uma questão restrita à vida financeira das famílias e pode produzir reflexos dentro das empresas. Funcionários com parcela significativa da renda comprometida podem enfrentar maior dificuldade para administrar despesas recorrentes, lidar com imprevistos e reorganizar o orçamento.
A própria dinâmica do consignado amplia essa relação entre crédito e trabalho. Como as parcelas são descontadas diretamente da remuneração, o impacto da contratação aparece todos os meses no salário recebido. Em caso de desligamento, parte das operações pode continuar sendo cobrada, inclusive por meio das garantias previstas no programa. O Ministério do Trabalho regulamentou, em 2026, mecanismos para utilização de garantias vinculadas às verbas rescisórias nas operações do Crédito do Trabalhador.
“Para a empresa,
não se trata de administrar a vida financeira do funcionário. Trata-se de
compreender que o endividamento pode chegar ao ambiente de trabalho e que a
prevenção também pode fazer parte das políticas de cuidado com as pessoas”,
afirma Domingos.
Novo debate
envolve o aluguel consignado
A discussão ganhou um novo capítulo em agosto, quando a Câmara dos Deputados aprovou projeto que permite o desconto em folha de valores referentes a aluguéis residenciais e encargos. O texto estabelece limite de até 30% da remuneração disponível e ainda será analisado pelo Senado.
A proposta não significa que um trabalhador poderá automaticamente comprometer 65% da renda com empréstimos e aluguel. São regras distintas e o projeto do aluguel ainda não está em vigor. O debate, porém, chama atenção para um ponto: diferentes compromissos financeiros podem disputar uma mesma renda mensal.
“Quando uma
parcela relevante da remuneração já está comprometida com crédito e outros
pagamentos fixos, sobra menos espaço para alimentação, transporte, saúde,
educação, contas domésticas e imprevistos. O risco não está em uma modalidade
isolada, mas na soma dos compromissos assumidos ao longo do tempo”, explica.
Crédito,
apostas e comportamento financeiro
Outro fator que pode agravar o problema é a utilização de plataformas de apostas por pessoas que já apresentam dificuldades para equilibrar o orçamento. Nesse cenário, o crédito pode deixar de ser utilizado para uma necessidade planejada e passar a financiar despesas ou comportamentos que não geram capacidade futura de pagamento.
Para Domingos,
essa combinação reforça a necessidade de tratar o endividamento também como uma
questão de comportamento financeiro. “A renegociação pode aliviar uma dívida,
mas não necessariamente modifica o comportamento que levou ao endividamento. Se
a pessoa continua tomando decisões sem considerar o impacto sobre a renda
futura, o problema pode voltar”, afirma.
Educação
financeira como prevenção
Na avaliação do especialista, as empresas podem desempenhar um papel preventivo por meio de programas estruturados de educação do comportamento financeiro. A proposta, segundo ele, não deve se limitar a palestras pontuais sobre orçamento ou crédito, mas trabalhar de forma contínua questões relacionadas a planejamento, consumo, endividamento e tomada de decisões.
A iniciativa também pode envolver as famílias dos trabalhadores, já que boa parte das decisões financeiras é tomada dentro do orçamento familiar. “Não cabe à empresa decidir se o trabalhador deve ou não contratar um empréstimo. Cabe criar condições para que ele tenha conhecimento para avaliar as consequências daquela decisão. A educação do comportamento financeiro atua justamente antes que o problema apareça”, diz Domingos.
O avanço do crédito entre diferentes grupos de trabalhadores coloca, assim, um desafio que vai além do sistema financeiro. Para o especialista, empresas, instituições financeiras, escolas, poder público e famílias precisam ampliar a discussão sobre prevenção ao endividamento.
“Não existe
solução mágica para uma situação financeira construída ao longo do tempo.
Existe conhecimento, planejamento e mudança de comportamento. Quanto mais cedo
esse trabalho começar, menores tendem a ser as consequências para o
trabalhador, sua família e também para a empresa”, conclui.
Reinaldo Domingos - PhD, é educador e terapeuta financeiro, escritor e presidente da DSOP Educação Financeira. Conhecido como Dr. Dívidas, atua na disseminação da educação do comportamento financeiro para famílias, empresas e instituições.
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