terça-feira, 15 de setembro de 2026

Crédito caro redesenha o consumo nos restaurantes

Mudanças no comportamento do consumidor pressionam o foodservice  para aumentar a recorrência, preservar margens e fortalecer a percepção de valor


Os juros elevados e a perda de poder de compra das famílias estão mudando a forma como os brasileiros consomem alimentação fora do lar. O consumidor passou a sair menos, pesquisar preços, dividir pratos, abrir mão de sobremesas e bebidas e escolher estabelecimentos que entreguem maior percepção de valor. Ao mesmo tempo, bares e restaurantes enfrentam o desafio de preservar margens em um período de custos pressionados. 

Pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), divulgada em março de 2026, mostra que 23% das empresas do setor operaram com prejuízo em janeiro, enquanto apenas 41% registraram lucro, reflexo da combinação entre juros elevados, consumo mais fraco e dificuldade para repassar custos.

Marcelo Marani, professor formado em Ciência da Computação, mestre em Administração de Empresas, fundador e CEO da Donos de Restaurantes, escola especializada na capacitação de empresários do foodservice, afirma que a mudança mais importante não está apenas na economia, mas na maneira como o consumidor toma decisões. "Os juros altos mudaram o jeito de comer fora. Hoje o cliente analisa cada gasto, compara preços e quer sentir que fez uma boa escolha. O restaurante que insiste no mesmo modelo comercial corre o risco de perder frequência de visitas, mesmo mantendo a qualidade da comida."


O consumidor ficou mais racional

Embora a alimentação fora do lar continue fazendo parte da rotina dos brasileiros, o comportamento de consumo tornou-se mais seletivo. Segundo o IBGE, a inflação dos alimentos continua pressionando o orçamento das famílias, enquanto bares e restaurantes vêm segurando reajustes para não afastar clientes, reduzindo sua capacidade de recompor margens.

Consumidores compartilham porções, substituem refeições completas por lanches, evitam pedidos adicionais e escolhem restaurantes onde percebem melhor relação entre preço, experiência e qualidade. "Antes bastava oferecer um bom prato. Hoje é preciso entregar valor percebido. O cliente aceita pagar quando entende claramente o que está recebendo. Se ele não enxergar essa diferença, simplesmente troca de restaurante ou reduz o consumo", explica o professor.


Ticket médio deixa de ser o principal indicador

Para o especialista, muitos empresários ainda tentam aumentar o faturamento apenas elevando o ticket médio, estratégia que pode produzir efeito contrário quando o consumidor está mais sensível ao preço.

Segundo o CEO, o foco passa a ser ampliar a recorrência das visitas e facilitar a decisão de compra por meio de um mix de produtos mais inteligente. "Nem sempre vender o prato mais caro é a melhor estratégia. Muitas vezes faz mais sentido criar opções de entrada, combos, menus executivos ou produtos de menor desembolso que mantenham o cliente frequentando o restaurante."

Ele afirma que revisar o cardápio é uma necessidade estratégica. Pratos pouco rentáveis, excesso de itens e ofertas sem diferenciação dificultam tanto a operação quanto a decisão do consumidor.


Restaurantes precisam vender percepção de valor

Outro movimento observado é que preço deixou de ser o único fator competitivo. Atendimento, agilidade, ambiente, conveniência e programas de relacionamento passaram a pesar ainda mais na decisão de onde comer.

Para o professor, empresários que conhecem o comportamento dos clientes conseguem ajustar rapidamente suas estratégias comerciais. "Quem acompanha dados percebe rapidamente quando determinado produto perde saída, quando o cliente reduz o consumo ou quando determinados horários passam a ter menos movimento. Essas informações permitem adaptar promoções, horários e ofertas antes que a queda de faturamento apareça."


Mudança deve permanecer mesmo com melhora da economia

Mesmo quando o crédito voltar a ficar mais barato, Marani acredita que parte desse comportamento permanecerá. "O consumidor aprendeu a comparar mais, pesquisar mais e gastar melhor. Essa mudança dificilmente será revertida completamente. Os restaurantes que entenderem esse novo padrão de consumo estarão mais preparados para crescer independentemente do ciclo econômico."

Para ele, o novo momento do foodservice exige uma combinação entre gestão eficiente, estratégia comercial e compreensão profunda do comportamento do consumidor. "O restaurante deixou de competir apenas pela comida. Hoje ele disputa espaço dentro do orçamento das famílias."

 

 


Marcelo Marani - fundador e CEO da Donos de Restaurantes, uma das principais escolas para donos de restaurantes da América Latina. Professor formado em Ciência da Computação, com mestrado em Administração de Empresas, defendeu em 2007 uma tese que mostrava que 70% dos donos de restaurantes não trabalham com qualquer tipo de fidelização. Empresário, sócio de mais de 10 empresas do foodservice, com um faturamento de R$28MM em 2025, tem mais 27 anos de experiência no mercado de alimentação e é considerado um dos maiores especialistas em gestão e aumento de faturamento para restaurantes do Brasil. Marani é autor do livro Transforme o seu Restaurante em um Negócio Milionário, da editora Gente. É também host do podcast mais escutado no Brasil para donos de restaurantes. Foi apresentador de TV, no programa Café com Chef da Band domingo de manhã. Já treinou mais de 35 mil empresários, em 23 capitais do Brasil, e já fez trabalhos em Portugal e na Argentina. Para mais informações, visite o Instagram ou pelo site.



Fontes de pesquisa

Abrasel
https://bonito.abrasel.com.br/noticias/noticias/inflacao-alimentacao-fora-do-lar-desacelera-abaixo-alta-alimentos-bebidas260519055024/

Abrasel
https://odp.abrasel.com.br/noticias/noticias/situacao-financeira-de-bares-e-restaurantes-volta-a-piorar-em-janeiro260306014352/

IBGE
https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/46648-em-abril-ipca-fica-em-0-67



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