Do deserto que se cobre de flores à
Patagônia que abre suas trilhas, a primavera é a janela do ano para descobrir
um país que muda de paisagem a cada quilômetro. Um roteiro de norte a sul pelas
vivências que a estação torna únicas.
Há um momento do ano em que o Chile vive uma magia única. A neve
começa a ceder, os rios descem carregados com o degelo da cordilheira, as
trilhas voltam a abrir e, no norte, o deserto mais árido do mundo se transforma
em um tapete de flores. A primavera austral, que vai aproximadamente de
setembro a dezembro, não é uma estação qualquer: é uma janela curta em que acontecem
experiências impossíveis de viver em qualquer outra época do ano.
Para o viajante brasileiro, é também o melhor argumento para
planejar a viagem agora. Muitos desses fenômenos duram apenas algumas semanas,
e várias dessas experiências exigem reserva antecipada. A seguir, cinco
destinos que resumem a diversidade de um país que é, na prática, muitas
primaveras ao mesmo tempo.
Deserto Florido, Deserto do Atacama
No deserto mais árido do planeta (principalmente na Região de
Atacama, embora o fenômeno também alcance o norte da Região de Coquimbo)
acontece, em alguns anos, algo que parece contradizer a própria definição de
deserto: depois das chuvas, sementes que permaneciam adormecidas sob a terra
explodem em flores que tingem a paisagem de roxo, branco e amarelo até onde a
vista alcança. É o Deserto Florido, e 2026 promete ser uma de suas temporadas
mais intensas e extensas das últimas décadas, graças às chuvas registradas
durante o inverno.
As primeiras flores aparecem já no fim do inverno, atingem sua
maior extensão por volta de setembro e chegam ao auge de diversidade e
abundância em meados de outubro. Ao fenômeno se soma o início da temporada de
observação de fauna marinha no litoral da região: baleias, golfinhos e
pinguins-de-humboldt nos arredores das reservas costeiras.
O Deserto Florido não tem data garantida nem se repete todos os
anos com a mesma intensidade; é a natureza quem decide. Uma temporada como a
prevista para 2026 é, literalmente, uma oportunidade rara, que pode levar anos
para se repetir.
Vales Vinícolas da Zona Central
A pouco mais de uma hora de Santiago, a primavera pinta de verde
os vales de Casablanca, Maipo, Cachapoal, Colchagua, Curicó e Maule. É a época
em que as videiras voltam a brotar e os vinhedos se enchem de vida, com tardes
amenas e ensolaradas, ideais para degustações ao ar livre, gastronomia e
passeios entre as fileiras de parreiras.
Uma das formas mais originais de viver o enoturismo chileno é a
bordo do Tren Sabores del Valle, que parte de Santiago rumo à região de
Colchagua, um dos principais destinos vinícolas da América do Sul, combinando a
viagem de trem com música ao vivo, degustações a bordo, visitas guiadas a vinícolas
emblemáticas e roteiros pelas tradições locais. A primavera traz, ainda,
eventos especiais nas adegas e jardins das vinícolas, de sessões de pôr do sol
a celebrações da temporada.
Pucón e o Vulcão Villarrica, Araucanía
Aos pés do cone perfeito do vulcão Villarrica, Pucón é considerada
a capital do turismo de aventura do Chile. E a primavera é seu melhor cenário:
o degelo da cordilheira leva os rios à maior vazão do ano, o que transforma o
rio Trancura em um ímã para os amantes do rafting, com trechos que vão da
adrenalina pura a percursos mais contemplativos entre florestas nativas que
voltam à vida.
Depois da aventura, a região oferece sua outra grande
especialidade: as termas naturais ao ar livre, alimentadas pela atividade
vulcânica da área, perfeitas para relaxar em meio à natureza. As trilhas de
parques como o Huerquehue, entre araucárias milenares e lagoas cristalinas,
completam a experiência
.
Região de Los Lagos: Puerto Varas, Frutillar e Chiloé
Conhecida como “a cidade das rosas e dos vulcões”, Puerto Varas é
a porta de entrada para uma das paisagens mais fotografadas do Chile: os
vulcões Osorno e Calbuco, com seus picos nevados, refletidos nas águas do lago
Llanquihue. Na primavera, suas ruas e jardins se enchem de roseiras floridas,
e, ali perto, os Saltos del Petrohué (quedas-d’água de cor turquesa dentro do
Parque Nacional Vicente Pérez Rosales) mostram toda a sua força.
A região combina natureza com uma forte herança alemã, presente na
arquitetura de telhas de madeira, em cidades como Frutillar e seu Teatro del
Lago, e em uma confeitaria famosa pelos kuchen e tortas de frutas locais. Mais
ao sul, a ilha de Chiloé acrescenta seu universo próprio de palafitas, igrejas
históricas e o início da temporada de observação de pinguins.
Torres del Paine, Patagônia
Não há imagem mais associada à Patagônia do que as torres de
granito deste parque nacional. Existem diferentes maneiras de aproveitar a 8ª
Maravilha do Mundo: de um trekking de 4 a 8 dias pela montanha a uma navegação
entre as belezas de geleiras milenares, ou ainda um passeio de carro no estilo
safári, observando a diversidade de flora e fauna, com um cenário de montanhas
geologicamente dramáticas ao fundo.
A primavera também é um momento privilegiado para a vida selvagem:
começa a época de corte e reprodução de muitas espécies (o amor está no ar) e é
o período em que começam a aparecer os filhotes de guanaco, e o parque exibe
sua fauna emblemática: condores, raposas e pumas, em setores autorizados. Tudo
emoldurado por lagos turquesa, geleiras e a inconfundível silhueta do maciço
Paine.
Esta Reserva da Biosfera é também o cenário ideal para os esportes
outdoor: provas de trail e maratonas abrem a temporada.
Antártica: “E no fim do sul, a viagem continua”
Além do fim da América, e ainda mais ao sul do Estreito de Drake,
é possível visitar o continente branco, com suas maravilhas intocadas e fauna
única.
A partir de meados da primavera, começam as operações turísticas
para a Antártica. Com a cidade de Punta Arenas como porta de entrada, é
possível planejar a viagem com operadores locais, em voos e cruzeiros que
visitam este lugar único no planeta.
Baleias, pinguins, lobos-marinhos e elefantes-marinhos são apenas
algumas das espécies que podem ser vistas nessas viagens, cercadas de geleiras
e icebergs imponentes.
Com tecnologia de ponta e inovadora, os operadores usam
combustíveis limpos para gerar o mínimo impacto nesta reserva mundial.
Como planejar a viagem
- Entrada nos parques nacionais: o acesso aos parques e reservas administrados pelo Estado (como Torres del Paine e Vicente Pérez Rosales) deve ser comprado com antecedência na plataforma oficial da CONAF,
- pasesparques.cl.
Nos destinos de alta demanda, é obrigatório ter a reserva de hospedagem
confirmada antes de comprar o ingresso.
- Reservas com antecedência: os circuitos de Torres del Paine, o Tren Sabores del Valle e
as experiências de temporada costumam esgotar as vagas rapidamente. O
ideal é reservar com a maior antecedência possível.
- Melhor período: a janela ideal varia conforme o destino: o Deserto Florido
atinge seu auge entre setembro e outubro, e os circuitos patagônicos abrem
em outubro. Vale confirmar as datas exatas antes de fechar o roteiro.
- Clima de montanha: nos vales vinícolas e no sul, a amplitude térmica é alta,
com manhãs e noites frias. Recomenda-se usar roupas em camadas.
- Na Patagônia, recomenda-se roupa
em camadas e um agasalho extra, além de um bom calçado, e estar preparado
para um clima instável e desafiador.

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