domingo, 23 de agosto de 2026

Cuidado com a arquitetura “fast fashion”: busca por ambientes instagramáveis pode gerar cansaço visual e reformas mais frequentes

Uso excessivo de cores e elementos marcantes reduz a longevidade dos projetos e incentiva uma lógica de consumo incompatível com a arquitetura residencial, alerta Alexandre Galvão, arquiteto fundador da GAS Arquitetura

 

A popularização de ambientes pensados para impressionar nas redes sociais tem influenciado cada vez mais projetos de arquitetura de interiores. Mas a busca pelo efeito "uau" pode ter consequências que vão além da estética. Segundo o arquiteto Alexandre Galvão, o uso excessivo de cores intensas, texturas e elementos de forte impacto visual tende a provocar saturação sensorial, reduzindo o tempo de permanência confortável nos ambientes e estimulando reformas mais frequentes. 

"O objetivo da arquitetura residencial é criar espaços que acompanhem a vida das pessoas por muitos anos. Quando o projeto é guiado apenas pelo impacto visual imediato, ele perde longevidade", afirma. 

O arquiteto explica que a percepção das cores muda com o tempo. Um ambiente predominantemente azul, por exemplo, pode transmitir sensação inicial de relaxamento, mas a exposição contínua pode levar ao cansaço visual e emocional. "A saturação cromática faz com que a pessoa enjoe mais rapidamente do ambiente e queira reformá-lo muito antes do necessário", diz. 

Além do impacto financeiro, esse comportamento traz consequências ambientais. Reformas recorrentes aumentam o consumo de materiais, geram resíduos e reforçam uma lógica de descarte que, segundo Galvão, deveria ser evitada na arquitetura residencial. 

"A casa não deveria seguir a lógica do fast fashion. Ela precisa ser pensada para durar, oferecendo conforto e bem-estar ao longo do tempo, e não apenas um cenário bonito para fotografias." 

Em vez de recorrer a cores muito marcantes para criar sensações, Alexandre defende o uso estratégico da iluminação. A temperatura e a qualidade da luz exercem papel fundamental no conforto dos ambientes. Iluminações mais próximas da luz natural favorecem a concentração durante o dia, enquanto tons mais quentes ajudam o organismo a relaxar no período noturno. 

O arquiteto também recomenda atenção à qualidade das lâmpadas. Modelos com baixo Índice de Reprodução de Cor (IRC) alteram a percepção das tonalidades e podem aumentar o desconforto visual. "Uma lâmpada com bom IRC reproduz melhor as cores e proporciona um ambiente mais agradável para os olhos. Preferimos utilizar a iluminação para criar diferentes atmosferas, em vez de depender do excesso de cores", conclui.


Alexandre Galvão - arquiteto e fundador da GAS Arquitetura. Com mais de duas décadas de atuação e mais de 2 mil projetos desenvolvidos em todo o Brasil, construiu sua trajetória criando soluções para os setores de varejo, hotelaria e residencial. Liderou projetos para grandes redes e marcas nacionais, incluindo a implantação de 96 hotéis das bandeiras Ibis, Ibis Budget e Ibis Styles, da Accor. Defende uma arquitetura contemporânea inspirada no modernismo brasileiro, com foco em funcionalidade, durabilidade, uso racional de materiais e qualidade da experiência dos usuários.



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