Uso excessivo de cores e elementos marcantes reduz a longevidade dos projetos e incentiva uma lógica de consumo incompatível com a arquitetura residencial, alerta Alexandre Galvão, arquiteto fundador da GAS Arquitetura
A popularização de ambientes pensados para impressionar nas redes
sociais tem influenciado cada vez mais projetos de arquitetura de interiores.
Mas a busca pelo efeito "uau" pode ter consequências que vão além da
estética. Segundo o arquiteto Alexandre Galvão, o uso excessivo de cores
intensas, texturas e elementos de forte impacto visual tende a provocar saturação
sensorial, reduzindo o tempo de permanência confortável nos ambientes e
estimulando reformas mais frequentes.
"O objetivo da arquitetura residencial é criar espaços que
acompanhem a vida das pessoas por muitos anos. Quando o projeto é guiado apenas
pelo impacto visual imediato, ele perde longevidade", afirma.
O arquiteto explica que a percepção das cores muda com o tempo. Um
ambiente predominantemente azul, por exemplo, pode transmitir sensação inicial
de relaxamento, mas a exposição contínua pode levar ao cansaço visual e
emocional. "A saturação cromática faz com que a pessoa enjoe mais
rapidamente do ambiente e queira reformá-lo muito antes do necessário",
diz.
Além do impacto financeiro, esse comportamento traz consequências
ambientais. Reformas recorrentes aumentam o consumo de materiais, geram
resíduos e reforçam uma lógica de descarte que, segundo Galvão, deveria ser
evitada na arquitetura residencial.
"A casa não deveria seguir a lógica do fast fashion. Ela
precisa ser pensada para durar, oferecendo conforto e bem-estar ao longo do
tempo, e não apenas um cenário bonito para fotografias."
Em vez de recorrer a cores muito marcantes para criar sensações,
Alexandre defende o uso estratégico da iluminação. A temperatura e a qualidade
da luz exercem papel fundamental no conforto dos ambientes. Iluminações mais
próximas da luz natural favorecem a concentração durante o dia, enquanto tons
mais quentes ajudam o organismo a relaxar no período noturno.
O arquiteto também recomenda atenção à qualidade das lâmpadas. Modelos com baixo Índice de Reprodução de Cor (IRC) alteram a percepção das tonalidades e podem aumentar o desconforto visual. "Uma lâmpada com bom IRC reproduz melhor as cores e proporciona um ambiente mais agradável para os olhos. Preferimos utilizar a iluminação para criar diferentes atmosferas, em vez de depender do excesso de cores", conclui.
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