Especialista do Hospital e Maternidade Santa Joana
alerta para a importância da testagem, vacinação e acompanhamento adequado
durante a gravidez
As
hepatites virais ainda representam um importante desafio de saúde no Brasil,
especialmente quando envolvem gestantes e recém-nascidos. Durante o Julho
Amarelo, mês de conscientização sobre prevenção, diagnóstico e tratamento
dessas infecções, especialistas reforçam a importância da testagem no pré-natal
como uma medida essencial para proteger a saúde materno-infantil.
De
acordo com o Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2025, do Ministério da
Saúde, o Brasil registrou 826.292 casos de hepatites virais entre 2000 e 2024.
Desse total, 302.351 foram de hepatite B e 342.328 de hepatite C, dois tipos
que merecem atenção especial na gestação pelo risco de complicações e, no caso
da hepatite B, pela possibilidade de transmissão vertical.
Entre
os casos de hepatite B registrados no país no mesmo período, 30.965 ocorreram
em gestantes, o equivalente a 10,3% do total de notificações. O dado reforça a
necessidade de rastreamento durante o acompanhamento pré-natal, mesmo quando a
mulher não apresenta sintomas.
“As
hepatites virais podem evoluir de forma silenciosa por muitos anos. Na
gestação, esse silêncio é ainda mais preocupante, porque o diagnóstico tardio
pode comprometer a oportunidade de prevenção da transmissão para o bebê. Por
isso, a testagem no pré-natal não deve ser vista como uma etapa burocrática,
mas como uma medida concreta de proteção materno-infantil”, afirma Dra. Flávia
Falci, infectologista do Hospital e Maternidade Santa Maria, do Grupo Santa
Joana. .
A
hepatite B pode ser transmitida por via sexual, contato com sangue contaminado e
da mãe para o bebê durante a gestação ou no parto. Quando a infecção ocorre nos
primeiros anos de vida, há maior risco de evolução para a forma crônica da
doença, o que pode levar, no futuro, a complicações como cirrose e câncer de
fígado.
Apesar
dos riscos, a hepatite B pode ser prevenida por vacina, disponível no
calendário nacional de imunização. Na gestação, mulheres sem comprovação
vacinal ou com esquema incompleto devem ser avaliadas para atualização da
imunização, conforme orientação médica. Quando a gestante tem diagnóstico
positivo, a equipe de saúde também precisa organizar o cuidado do recém-nascido
desde o parto. O bebê deve receber a vacina contra hepatite B e, em casos
indicados, a imunoglobulina específica nas primeiras horas de vida, estratégia
fundamental para reduzir o risco de transmissão.
“O
pré-natal bem feito permite identificar a gestante com hepatite B, orientar a
família, planejar o parto e garantir que o recém-nascido receba a proteção
correta no momento adequado. Em muitos casos, a diferença está justamente na
organização da linha de cuidado antes do nascimento”, explica Dra. Flávia.
A
hepatite C também exige atenção durante a gravidez. A infecção pode ser
transmitida por contato com sangue contaminado e, em menor proporção, da mãe
para o bebê. Diferentemente da hepatite B, ainda não existe vacina contra a
hepatite C. Por isso, a principal estratégia é diagnosticar precocemente,
acompanhar a gestante e planejar o seguimento adequado após o parto.
Segundo
o Ministério da Saúde, em 2024, a taxa de detecção de hepatite C no Brasil foi
de 9,1 casos por 100 mil habitantes. A região Sudeste concentrou a maior parte
dos casos acumulados entre 2000 e 2024, com 57,7% das notificações do país. O
rastreamento no pré-natal ajuda a identificar quadros que poderiam permanecer
desconhecidos por anos, já que muitas pessoas com hepatite C não apresentam
sintomas na fase inicial e só descobrem a infecção após alterações em exames,
investigação clínica ou evolução para quadros mais avançados.
“Quando
falamos em hepatite C na gestação, o ponto central é não perder a oportunidade
de diagnóstico. Mesmo que determinadas condutas terapêuticas sejam definidas
para depois do parto, saber que a infecção existe muda o acompanhamento,
direciona orientações e permite proteger a saúde da mulher no longo prazo”,
afirma a infectologista.
Um
dos maiores desafios das hepatites virais é justamente a evolução silenciosa.
Em muitos casos, a infecção não provoca sintomas claros. Quando aparecem, os
sinais podem ser confundidos com outros problemas de saúde, como cansaço,
mal-estar, náuseas, dor abdominal, perda de apetite, urina escura, fezes claras
e pele ou olhos amarelados.
Na
gestação, esses sintomas podem ser ainda mais difíceis de interpretar, já que
algumas queixas, como enjoo e indisposição, também podem ocorrer em diferentes
fases da gravidez. Por isso, os exames laboratoriais são fundamentais. O
Ministério da Saúde recomenda que gestantes realizem testes para hepatites
virais B e C no início do pré-natal. A identificação precoce permite definir
condutas, orientar a paciente, avaliar parceiros quando necessário e organizar
o cuidado do bebê.
“Esperar
sintomas aparecerem não é uma boa estratégia. As hepatites podem estar
presentes mesmo em pessoas aparentemente saudáveis. O pré-natal é uma janela de
oportunidade para rastrear infecções, atualizar vacinas, orientar
comportamentos de prevenção e reduzir riscos evitáveis”, reforça a médica.
Além
da testagem, a prevenção envolve vacinação contra hepatite B, uso de preservativo,
não compartilhamento de objetos perfurocortantes, atenção a procedimentos com
risco de contato com sangue e realização de exames conforme orientação médica.
No contexto materno-infantil, o cuidado integrado entre obstetras, clínicos,
infectologistas, pediatras e equipes de enfermagem é essencial para garantir
que a gestante receba o diagnóstico, entenda o resultado e tenha acesso ao
acompanhamento necessário.
“O Julho Amarelo é um chamado para ampliar a informação. Não se trata apenas de falar sobre uma doença do fígado, mas de lembrar que prevenção, diagnóstico e acompanhamento mudam histórias. Na gestação, isso significa proteger duas vidas ao mesmo tempo”, conclui o Dra Flávia.
Hospital e Maternidade Santa Maria
www.maternidadesantamaria.com.br
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