Especialista
afirma que o foco agora deve ser o combate às fraudes e ao chamado turismo de
nascimento
A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de
manter o direito à cidadania automática para crianças nascidas em território
americano trouxe segurança jurídica para milhares de famílias brasileiras, incluindo
famosas que optaram por ter seus filhos no país.
Por 6 votos a 3, o tribunal rejeitou nesta
terça-feira (30) a ordem executiva assinada pelo presidente Donald Trump que
restringia a concessão da cidadania a filhos de imigrantes em situação irregular
e de turistas estrangeiros, preservando a interpretação histórica da 14ª Emenda
da Constituição americana.
O julgamento representa uma derrota para uma das
principais bandeiras da política migratória de Trump, mas não significa o fim
das medidas voltadas ao combate ao chamado "turismo de nascimento",
prática em que gestantes viajam aos Estados Unidos para que os filhos adquiram
automaticamente a cidadania americana.
Segundo Daniel
Toledo, advogado especializado em Direito Internacional, fundador da Toledo e Associados, a principal
consequência da decisão é que quem já teve filhos nos Estados Unidos dentro da
legalidade não sofrerá qualquer alteração em seus direitos. "A cidadania
dessas crianças permanece integralmente protegida pela Constituição americana.
A decisão da Suprema Corte apenas reafirma um entendimento que existe há mais
de um século. Quem teve um filho nos Estados Unidos seguindo as regras migratórias
não precisa se preocupar porque absolutamente nada muda em relação ao status de
cidadania dessas crianças", afirma.
Ao longo dos últimos anos, diversas brasileiras
conhecidas do público escolheram os Estados Unidos para o nascimento dos
filhos, tanto pela estrutura hospitalar quanto pela cidadania automática
garantida pela legislação americana. A decisão da Suprema Corte mantém esse
direito preservado.
O que realmente pode mudar
Embora tenha perdido a disputa constitucional, o
governo Trump ainda possui instrumentos para endurecer o controle migratório.
Na avaliação de Toledo, a tendência é que a Casa
Branca direcione seus esforços para intensificar a fiscalização de possíveis
fraudes durante a obtenção de vistos ou na entrada de estrangeiros no país.
"O governo dificilmente abandonará essa pauta.
O caminho agora deve ser aumentar a fiscalização sobre pessoas que entram nos
Estados Unidos ocultando sua verdadeira intenção. Se uma gestante solicitar um
visto de turismo afirmando que fará apenas uma viagem de lazer, quando seu
objetivo principal é dar à luz no país, essa situação pode ser analisada pelas
autoridades sob a ótica da fraude migratória."
Segundo o advogado, esse tipo de fiscalização já
existe, mas pode ganhar força após a derrota sofrida pelo governo na Suprema
Corte. "O presidente não conseguiu alterar a Constituição, mas continua
tendo competência para determinar um controle migratório mais rigoroso. Isso
pode significar entrevistas consulares mais detalhadas, análise mais criteriosa
dos pedidos de visto e maior fiscalização na entrada de estrangeiros."
Cidadania permanece garantida
Um dos principais receios de brasileiros que
tiveram filhos nos Estados Unidos era a possibilidade de perda da cidadania
americana das crianças.
Segundo Toledo, esse risco praticamente deixa de
existir após a decisão da Suprema Corte. "A cidadania por nascimento
continua sendo um direito constitucional. A Suprema Corte reafirmou que esse
direito não pode ser alterado por meio de uma ordem executiva. Para que isso
acontecesse, seria necessária uma emenda à Constituição, aprovada pelo
Congresso e ratificada pelos estados, um processo extremamente complexo."
Isso significa que crianças nascidas em solo
americano continuam sendo cidadãs dos Estados Unidos, independentemente da
nacionalidade ou da situação migratória dos pais, salvo exceções muito
específicas previstas na legislação, como filhos de diplomatas estrangeiros.
Fiscalização pode atingir
processos migratórios
Embora a cidadania permaneça preservada, Toledo
acredita que o governo poderá ampliar a revisão de processos migratórios em que
existam indícios de falsas declarações."É possível que haja uma rechecagem
mais rigorosa de casos em que o governo entenda que houve fraude na obtenção do
visto ou na entrada no país. O foco não será retirar a cidadania das crianças,
mas verificar se os pais cumpriram corretamente as regras migratórias."
Segundo ele, prestar informações falsas durante
entrevistas consulares ou para agentes da imigração pode gerar consequências
como cancelamento de vistos, impedimento de novas entradas nos Estados Unidos e
até processos administrativos.
"São situações completamente diferentes. A
cidadania da criança continua protegida. O que pode ser investigado é a conduta
dos pais durante o processo migratório."
Debate continua
Apesar da derrota judicial, Toledo acredita que a
política migratória continuará sendo uma das prioridades da administração
Trump.
"O governo perdeu uma batalha importante, mas
dificilmente encerrará essa discussão. A tendência agora é um endurecimento
administrativo, com foco em fiscalização, combate às fraudes e controle sobre o
chamado turismo de nascimento. Para brasileiros que pretendem viajar aos
Estados Unidos, a principal recomendação é agir com absoluta transparência em
todas as etapas do processo migratório."
Na prática, a decisão da Suprema Corte preserva um
dos pilares do direito constitucional americano, mas também inaugura uma nova
etapa da política migratória dos Estados Unidos, em que o foco tende a migrar
das mudanças constitucionais para um controle mais rigoroso sobre a forma como
estrangeiros ingressam no país.
Daniel Toledo - advogado da Toledo e Advogados Associados especializado em Direito Internacional, consultor de negócios internacionais, palestrante e sócio da LeeToledo PLLC. Toledo também possui um canal no YouTube com mais de 1 milhão de seguidores com dicas para quem deseja morar, trabalhar ou empreender internacionalmente. Ele também é membro efetivo da Comissão de Relações Internacionais da OAB Santos, professor honorário da Universidade Oxford - Reino Unido, consultor em protocolos diplomáticos do Instituto Americano de Diplomacia e Direitos Humanos USIDHR.
Para mais informações, acesse o site.
Toledo e Advogados Associados
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