Respostas geradas por inteligência artificial reduzem o acesso direto às fontes e passam a interferir na maneira como companhias, marcas e executivos são compreendidos. Imprensa e outras fontes espontâneas respondem por 84% das citações trazidas pela IA segundo levantamento internacional
Quando
um consumidor, investidor, candidato a emprego ou parceiro comercial pesquisa
uma empresa, a primeira informação encontrada já não é necessariamente uma
lista de links. Com a incorporação da inteligência artificial generativa aos
mecanismos de busca e a popularização de chatbots, cresce o número de pessoas
que recebem uma resposta pronta, sintetizada por uma plataforma.
A
mudança está criando uma nova frente de atenção para a reputação corporativa.
Além de administrar o que aparece nos resultados de busca, as organizações
precisam acompanhar como seus fatos, decisões, executivos, crises e
posicionamentos são interpretados e resumidos por sistemas de inteligência
artificial.
O
fenômeno já alcançou o mercado brasileiro. Segundo o Digital News Report 2026,
do Reuters Institute for the Study of Journalism, 13% dos entrevistados no
Brasil afirmaram utilizar chatbots de inteligência artificial semanalmente para
acessar notícias, acima da média global de 10%. A pesquisa foi realizada pela
YouGov, entre janeiro e fevereiro de 2026, e representa principalmente a
população brasileira conectada à internet.
No mundo, o uso semanal de chatbots para notícias avançou de 7% para 10% em um ano. Entre os mais jovens, a adoção é maior: 17% dos participantes da faixa etária mais nova disseram utilizar esses sistemas para se informar, ante 5% entre os mais velhos. Apenas 1% considera a IA sua principal fonte de notícias, mas os dados indicam que os chatbots já funcionam como uma camada complementar de interpretação da informação.
Como o público busca a informação da sua empresa?
No
Brasil, fazer perguntas adicionais sobre uma notícia aparece como o uso mais
frequente dos chatbots. Globalmente, 42% dos usuários recorrem à IA para
aprofundar uma informação, 35% para obter as notícias mais recentes, 34% para
produzir resumos e 33% para avaliar a confiabilidade de uma fonte.
Para
a Elementar Comunicação, especializada em CEO Positioning e reputação
corporativa, esses comportamentos mostram que a inteligência artificial começa
a ocupar uma função que anteriormente dependia da navegação por diferentes
sites, ou seja, ela ajuda a reunir informações, selecionar fontes e entregar ao
usuário uma conclusão.
“A
diferença entre o buscador tradicional e a busca generativa não está apenas na
tecnologia utilizada, mas principalmente no grau de intermediação. Em uma
página convencional de resultados, o usuário recebe diferentes links, títulos e
fontes e pode compará-los antes de formar uma opinião”, explica Leandro
Herculano, Co-fundador e Diretor da Elementar.
Em
uma resposta gerada por IA, essa avaliação inicial é parcialmente realizada
pela própria plataforma, que decide quais informações incluir, quais omitir,
quais fontes citar e como organizar a narrativa.
Essa
transição ganhou escala com a incorporação da IA diretamente ao Google. As
chamadas Visões Gerais Criadas por IA, ou AI Overviews, passaram a ser
disponibilizadas no Brasil em agosto de 2024, em português. Em maio de 2026, o
Google apresentou uma nova geração de sua Busca, baseada em respostas
conversacionais, recursos multimodais e agentes capazes de acompanhar temas continuamente.
Segundo
dados divulgados pela própria empresa, o Modo IA do Google ultrapassou um
bilhão de usuários mensais aproximadamente um ano após seu lançamento, enquanto
o volume de consultas nessa modalidade vinha mais do que dobrando a cada
trimestre. A consequência é que uma parcela crescente das pesquisas não termina
necessariamente com a visita ao site de uma empresa, de um veículo jornalístico
ou de outra fonte original. Por isso, a Elementar destaca que estar bem
posicionado digitalmente tem impacto naquilo que será lido pelo público no
resumo feito pelos chatbots.
Presença de respostas de IA quase reduz pela
metade os cliques tradicionais
Uma
análise do Pew Research Center acompanhou a atividade de navegação de 900
adultos nos Estados Unidos e avaliou 68.879 pesquisas realizadas no Google em
março de 2025. Cerca de 18% das consultas produziram uma síntese gerada por
inteligência artificial. Nas páginas em que havia um resumo de IA, os usuários
clicaram em um resultado tradicional em apenas 8% das visitas. Nas páginas sem
resumo, a taxa chegou a 15%. Isso representa uma redução de aproximadamente 47%
na incidência de cliques em links tradicionais quando a resposta gerada estava
presente.
Os
links apresentados dentro da própria síntese receberam ainda menos atenção:
foram acessados em apenas 1% das visitas. Além disso, 26% das sessões
terminaram depois da visualização de uma página com resumo de IA, ante 16% nas
buscas compostas somente por resultados tradicionais.
Embora
o estudo seja restrito aos Estados Unidos e não permita uma extrapolação
automática para o comportamento brasileiro, ele ajuda a dimensionar uma mudança
estrutural, onde o usuário pode receber uma interpretação sobre uma empresa sem
entrar em seu site, consultar uma reportagem completa ou verificar diretamente
os documentos que sustentam a resposta.
“Para
as organizações, isso significa que tráfego e reputação não são equivalentes.
Uma companhia pode ter menos visitas em seus canais e, ao mesmo tempo,
continuar sendo mencionada, avaliada ou recomendada dentro de uma plataforma de
IA”, acrescenta Herculano.
Imprensa, fontes externas e LinkedIn influenciam as respostas da
IA
O
avanço da busca generativa reposiciona o papel da imprensa e de canais
profissionais como o LinkedIn na estratégia de reputação. Um levantamento da
Muck Rack, divulgado em maio de 2026, analisou mais de 25 milhões de links
citados por ChatGPT, Claude e Gemini em respostas sobre 17 setores econômicos.
Cerca
de 84% das citações vieram do conjunto classificado como earned media, que
inclui reportagens, pesquisas acadêmicas, páginas governamentais,
enciclopédias, conteúdos de terceiros e plataformas como LinkedIn e Reddit.
O
jornalismo respondeu por 27% dos links. Conteúdos sociais e produzidos por
usuários representaram 2,9%; materiais próprios de empresas e marcas, 13,7%;
releases, 1,1%; e conteúdos pagos ou publieditoriais, 0,3%.
O
ChatGPT apresentou citações em 96% das respostas, com média de cinco fontes. O
Gemini citou fontes em 82%, com média de oito. Já o Claude apresentou citações
em 55% dos casos, com média de 13 referências quando recorreu a fontes
externas. A Wikipedia foi o domínio mais citado pelo ChatGPT, o PubMed Central pelo
Claude e o Reddit pelo Gemini. Mais de 20 mil veículos jornalísticos apareceram
na amostra.
“Nesse
ambiente, o LinkedIn pode funcionar como uma fonte pública de identificação
profissional, trajetória, áreas de especialidade e posicionamentos
de executivos”, adiciona Herculano. Conteúdos
públicos da plataforma podem ser rastreados por mecanismos como Google, Bing e
ChatGPT, dependendo das configurações de visibilidade do usuário.
“O
LinkedIn também recomenda manter o perfil completo e atualizado, adicionar
informações profissionais e estabelecer ao menos uma conexão para ampliar sua
visibilidade aos mecanismos de busca”, completa.
Posts
configurados como “Qualquer pessoa” podem aparecer fora da plataforma e em
resultados de busca. Ainda assim, o LinkedIn não substitui a validação de
terceiros. Quando conteúdos autorais, reportagens, pesquisas e documentos
oficiais apresentam informações coerentes entre si, cresce a consistência do
que está disponível para buscadores e ferramentas generativas.
Com
tantos fatores, fica claro que a inteligência artificial transformou a
reputação corporativa em um exercício frequente de curadoria digital.
Organizações que focam exclusivamente no tráfego próprio ignoram que a IA
constrói narrativas a partir de uma vasta rede
de fontes externas. A credibilidade reside, então, na garantia de qualidade e
coerência das informações que circulam na imprensa e nas redes profissionais,
pois são esses os dados que ajudam a dar forma à percepção pública antes mesmo
de qualquer interação direta.
Na
era das primeiras impressões levadas ao extremo, o que fica se torna cada vez
mais importante para a reputação e o balanço econômico das empresas, sejam elas
pequenas ou grandes.
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