sexta-feira, 26 de junho de 2026

Museu das Culturas Indígenas inaugura exposição que transforma palavras sagradas Guarani Mbya em gravuras, sons e memória coletiva

Imagem documenta o processo de criação da mostra
que entra em cartaz no Museu das Culturas Indígenas.
  
Foto: Eduardo Duwe
Museu das Culturas Indígenas

 Ayvu Porã – Belas Palavras”, em cartaz a partir de 27 de junho, reúne narrativas tradicionais, xilogravuras e radioarte em uma instalação audiovisual construída coletivamente pelos mestres Guarani Mbya e as comunidades indígenas de São Paulo. 

 

O Museu das Culturas Indígenas (MCI) inaugura, em 27 de junho, a exposição temporária Ayvu Porã - Belas Palavras, uma experiência imersiva que convida o público a conhecer a riqueza da tradição oral Guarani Mbya por meio de gravuras, instalações audiovisuais e radioarte desenvolvidos coletivamente por comunidades indígenas do Estado de São Paulo. O MCI é uma instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, gerida pela ACAM Portinari (Associação Cultural de Apoio ao Museu Casa de Portinari), em parceria com o Instituto Maracá e o Conselho Indígena Aty Mirim.

Com apoio do ProAC, do Instituto Çare e do Museu das Culturas Indígenas, o projeto criado pelo coletivo Tenonderã Ayvu envolveu as aldeias Tekoa Itaendy (São Paulo), Rio Silveira (Bertioga), Tangará (Itanhaém), Guyra Pepo (Tapiraí) e Takuary-Ty (Cananéia) em oficinas de escuta, desenho, xilogravura, produção artesanal de papel e tintas e  registro audiovisual. O resultado é uma exposição que articula arte, memória, educação e espiritualidade e reafirma a importância dos saberes indígenas na construção de acervos contemporâneos produzidos com protagonismo das próprias comunidades.


A palavra como origem

O título da mostra faz referência ao conjunto de rezas e cantos tradicionais Guarani conhecidos como “Ayvu Porã”, as “Belas Palavras”, consideradas manifestações vivas dos espíritos ancestrais. Inspirada na cosmologia Guarani Mbya, a exposição parte da compreensão de que a palavra é também sopro, memória e força criadora. A partir dessa perspectiva, a madeira e o avaxy eteí, o milho tradicional — elementos sagrados associados ao poder criador de Nhanderu — tornam-se suportes para gravar histórias, cantos e ensinamentos compartilhados por diferentes gerações.


Peças produzidas para a exposição.
 Foto: Eduardo Duwe
Museu das Culturas Indígenas


A obra dialoga diretamente com os fundamentos cosmológicos Guarani ao aproximar o visitante de narrativas que relacionam céu, terra, água, árvore e ar como elementos inseparáveis da existência. A mostra propõe uma experiência de aproximação com formas indígenas de compreender e habitar o mundo. 

 

Escuta, memória e criação coletiva 

Durante as atividades de produção das obras, crianças, jovens e adultos participaram de rodas de conversa conduzidas por lideranças espirituais Guarani Mbya. As histórias compartilhadas pelos anciãos foram registradas em áudio e vídeo e, posteriormente, transformadas em desenhos e gravuras produzidos coletivamente. O processo artístico torna-se, assim, uma ferramenta de preservação da memória e de fortalecimento dos vínculos entre gerações.

No centro dessa metodologia está o conceito de “omonhendu”, expressão Guarani associada ao ato de “fazer escutar”. A escuta, nesse contexto, não é passiva: ela mobiliza o corpo, a imaginação e a criação, transforma narrativas orais em imagens, sons e objetos que perpetuam os conhecimentos ancestrais.

 

Arte, território e protagonismo indígena

A exposição apresenta matrizes xilográficas, gravuras, registros audiovisuais em uma instalação sonora construída a partir das narrativas registradas nas aldeias participantes. Parte desse acervo poderá ser acessada posteriormente pelo público por meio de uma webradio especialmente concebida para a obra, ampliando o contato com histórias tradicionalmente compartilhadas nas casas de reza e nos espaços comunitários.

Os materiais utilizados na mostra são majoritariamente provenientes dos territórios Guarani Mbya, como a madeira de árvores caídas naturalmente, milho tradicional cultivado nas aldeias e pigmentos produzidos a partir de argila, jenipapo e urucum. A exposição também incorpora técnicas japonesas de fabricação artesanal de papel à base de água, desenvolvidas ao longo das oficinas realizadas com as comunidades participantes.

A aproximação entre esses saberes de culturas tão distantes não ocorre apenas por questões técnicas. Segundo os idealizadores do projeto, as tradições japonesas e Guarani Mbya compartilham uma compreensão da natureza como uma presença viva e espiritualmente habitada. Nesse contexto, madeira, papel, pigmentos e água deixam de ser apenas suportes artísticos e passam a integrar a própria narrativa da exposição ao conectar matéria, memória, território e transformação.

Além de valorizar a oralidade, a exposição contribui para a formação de um acervo contemporâneo de histórias, iconografias e registros audiovisuais produzidos com protagonismo indígena. O projeto dialoga com iniciativas anteriores do coletivo Tenonderã Ayvu, responsável por ações como o documentário Tenonderã – Um Olhar para o Futuro, o livro artesanal Pyxai, o videoclipe Pemomba Eme e festivais culturais realizados no território Guarani do Jaraguá.

 

SERVIÇO

Ayvu Porã - Belas Palavras

Abertura: 27/06/2026

Visitação: de terça a domingo, das 9h às 18h; às quintas até 20h

Museu das Culturas Indígenas  

Endereço: Rua Dona Germaine Burchard, 451, Água Branca – São Paulo/SP      

Telefone: (11) 3873-1541     

E-mail: contato@museudasculturasindigenas.org.br          

Site: www.museudasculturasindigenas.org.br           

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