Com a saúde mental cada vez mais presente no debate
público entre jovens, cresce também um paradoxo: falar sobre o tema se tornou
mais comum, mas a busca por ajuda ainda costuma acontecer tarde. A avaliação é
de especialistas do setor de saúde e benefícios, que apontam que o desafio
atual vai além da conscientização, passa pela construção de uma cultura de
prevenção, informação e acesso mais claro ao cuidado, especialmente entre quem
está entrando na vida adulta.
Dados divulgados pela Fiocruz em dezembro de 2025
reforçam esse cenário. Embora conversas sobre ansiedade, exaustão e bem-estar
emocional estejam cada vez mais presentes nas redes e no cotidiano, a população
entre 15 e 29 anos segue entre as que menos acessam a Atenção Primária à Saúde
(APS) para cuidados mentais: apenas 11,3% dos atendimentos. Ao mesmo tempo,
apresenta taxas de internação hospitalar superiores à média nacional nos grupos
de 20 a 24 anos (624,8 por 100 mil) e de 25 a 29 anos (719,7 por 100 mil).
“Falar sobre saúde mental deixou de ser tabu, mas a
prevenção ainda não foi incorporada à rotina com a mesma intensidade”, observa
Wanderlei Machado, coordenador nacional de vendas do Grupo AllCross. “Muitas
vezes há percepção de que algo não vai bem, mas a busca por ajuda é adiada até
que o impacto atinja estudo, trabalho, relações e qualidade de vida.”
Da conversa ao cuidado: por que o acesso ainda
chega tarde
O “Informe II: Saúde Mental”, da Agenda Jovem da Fiocruz,
aponta que a taxa geral de internações psiquiátricas entre jovens chega a 579,5
por 100 mil habitantes, um índice elevado diante do baixo acesso a atendimentos
precoces. Entre os homens, o cenário é ainda mais crítico: eles representam
61,3% das internações, com taxa 57% superior à das mulheres, muitas vezes associada
ao uso de substâncias como forma de lidar com o sofrimento emocional.
“Existe mais abertura para falar sobre o tema, mas ainda
falta orientação prática sobre como começar a cuidar da saúde mental”,
complementa Machado. “Sem esse direcionamento, o cuidado tende a acontecer
apenas em momentos de crise.”
Nesse contexto, o Ministério da Saúde iniciou a etapa
nacional da primeira Pesquisa Nacional de Saúde Mental (PNSM-Brasil), com
conclusão prevista para 2026. O objetivo é mapear a prevalência de transtornos
e as barreiras de acesso ao cuidado, subsidiando políticas públicas mais
eficazes.
Prevenção como cultura — e como prática
cotidiana
Mais do que ampliar o debate, especialistas apontam a
necessidade de integrar a saúde mental à rotina, de forma contínua e
preventiva. Isso inclui não apenas o acesso a profissionais, mas também a
valorização de hábitos que funcionam como aliados no equilíbrio emocional.
Alimentação adequada, prática regular de atividade
física, sono de qualidade e a presença de hobbies ou atividades prazerosas no
cotidiano têm papel relevante na manutenção do bem-estar. Pequenos momentos de
prazer, como ler, ouvir música, estar em contato com a natureza ou desenvolver
habilidades criativas, também contribuem para a regulação emocional.
Outro fator importante é o suporte social. A convivência
familiar, quando estruturada de forma saudável, pode ser um elemento de
acolhimento e escuta. Da mesma forma, vínculos de amizade e redes de apoio
ajudam a reduzir o isolamento e fortalecem a sensação de pertencimento.
A espiritualidade ou a crença pessoal também aparece,
para muitas pessoas, como um recurso de fortalecimento emocional, oferecendo
sentido, conforto e resiliência diante de momentos difíceis.
“Saúde mental não começa no consultório, ela começa na
forma como a vida é organizada no dia a dia”, destaca Machado. “Criar uma
rotina com hábitos saudáveis, manter vínculos e buscar atividades que tragam
satisfação são formas de cuidado que ajudam a evitar que o sofrimento evolua.”
Reduzir barreiras e antecipar o cuidado
Na prática, promover prevenção significa facilitar o
acesso à informação e reduzir obstáculos. Isso inclui ajudar a identificar
sinais precoces, como alterações no sono, isolamento social ou uso de
substâncias como forma de lidar com emoções, além de orientar sobre onde e como
buscar ajuda.
Também envolve desestigmatizar o cuidado em saúde mental,
reforçando que procurar apoio não é exagero nem último recurso, mas parte da
vida.
“O desafio é fazer com que o debate se traduza em ação”, conclui Machado. “Cuidar da saúde mental precisa ser entendido como um processo contínuo, que envolve escolhas diárias, rede de apoio e acesso facilitado ao cuidado, antes que a situação se torne crítica.”
www.allcross.com.br
@grupo.allcross

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