terça-feira, 24 de março de 2026

Mais informados e mais expostos à desinformação: médicos enfrentam novo perfil de pacientes

Envato
A grande quantidade de conteúdos na internet reforça a importância do pensamento crítico e da formação baseada em evidências científicas

 

Seis em cada dez brasileiros buscam informações sobre saúde na internet, segundo a Pesquisa IESS/Vox Populi 2025. O levantamento, realizado entre julho e agosto de 2025 com 3,2 mil entrevistados em oito regiões metropolitanas do país, indica que, embora o hábito esteja consolidado, a confiança nos conteúdos encontrados ainda é limitada entre a população, refletindo preocupações com a confiabilidade do que circula no ambiente digital.

Para Natália Garção, médica geriatra da Sanar, medtech voltada à educação médica, o interesse da população por buscas relacionadas ao tema pode ser positivo quando acompanhado de fontes confiáveis. “É importante que as pessoas tenham curiosidade sobre sua própria saúde e busquem entender mais sobre doenças, prevenção e tratamentos. Isso pode até enriquecer a conversa no consultório. Por outro lado, quando as fontes não são confiáveis, há risco de interpretações equivocadas que podem dificultar o processo de orientação médica”, explica.

Entretanto, a médica alerta que a questão vai além da qualidade do conteúdo acessado. “Mesmo quando ele vem de fontes seguras, é preciso considerar que a medicina envolve temas complexos, que nem sempre são de fácil compreensão para quem não é da área. Por isso, o acompanhamento de um profissional de saúde é essencial para validar e orientar esse entendimento, funcionando, na prática, como a principal referência de confiança para o paciente”, completa Garção.

Ainda segundo o levantamento, ao buscar compreender sintomas e possíveis diagnósticos, nove em cada dez usuários indicam o Google como principal ponto de partida para pesquisar doenças e possíveis tratamentos. O estudo também aponta que 19% dos entrevistados já utilizam ferramentas de inteligência artificial para compreender assuntos relacionados à saúde.

Para Tamiris Machado, médica e Head do Núcleo de Pós-Graduação da Sanar, o cenário atual exige que os profissionais estejam preparados para avaliar criticamente os materiais disponíveis “Hoje o desafio não é ter acesso, mas desenvolver critérios para verificar as evidências disponíveis. Nesse contexto, a formação médica precisa fortalecer o pensamento crítico e a capacidade de análise científica para que o médico consiga tomar decisões seguras na prática clínica”, afirma.

Em paralelo, a presença de médicos nas redes sociais ganha relevância como fonte confiável. Para o neurologista Carlos Eduardo Borges Passos Neto, coordenador da Pós-Graduação em Neurologia da Sanar e coordenador pedagógico do Sanarflix, esse contexto reforça a importância da presença ativa de profissionais qualificados na produção e disseminação de conhecimento em saúde.

“Vivemos em um momento em que os dados circulam com muita facilidade, por diferentes canais, e nem sempre com o mesmo nível de rigor ou confiabilidade. Isso cria um desafio adicional para médicos e para a sociedade. Por isso, é importante estimular que profissionais comprometidos com uma prática baseada em evidências também ocupem esses espaços, contribuindo para levar informação de qualidade e ajudar a combater a desinformação”, afirma.

Diante desse ambiente informacional cada vez mais intenso, especialistas defendem que a formação baseada em evidências e a educação médica continuada tornam-se ainda mais importantes para preparar profissionais capazes de interpretar conteúdos científicos e orientar pacientes com segurança.

 

Sanar


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