Sempre
que a rotina me leva a descer as rampas da estação Santa Cecília, ali na Linha
Vermelha, sou convidado a uma pausa involuntária. Antes de ser engolido na
corrida subterrânea, meus olhos sempre descansam nos versos de Cassiano Ricardo
estampados na parede.
É a poesia “Café Expresso”.
É ali que o poeta, joseense como eu, enxergou, com a
sensibilidade da alma caipira, a essência sanguínea de São Paulo. Ele fala
dessa injeção de ânimo, desse ouro negro que é a alma da nossa cidade e nos
faz, dia após dia, trabalhadores corajosos e disciplinados.
Cassiano
mostra como aqui, nesse território de concreto e garoa, construiu-se uma ética
popular: a disciplina do trabalho e da diversão.
Nas
mesmas rampas, a gente ainda pode ver “O Violeiro” de Almeida Júnior e
“Operários” da Tarsila do Amaral. Homogeneidade de uma massa operária? Pelo
contrário! É um milagre sociológico só possível na diversidade de São Paulo!
Já
pensou em quem tá naquele corre? Quem passa por ali? O executivo da Avenida
Paulista, a estudante da periferia, o migrante nordestino, o imigrante
boliviano, o refugiado sírio, o judeu, o herdeiro de quatrocentões, o filho de
operários…
Origens
sociais, regionais, étnicas e raciais que, em qualquer outro lugar do mundo,
significariam segregação, mas que aqui se unem num propósito comum: a
disposição para o fazer.
Mas a
gente não pode pensar só no trabalho! Claro que ele é importante! Mas o que faz
desta cidade uma potência de Inovação não é o suor, é a mistura.
Adoro
pensar na etimologia das palavras… É com ela que a gente enxerga a alma das
letras. Sabia que tem uma raiz que une “Diversidade” e “Diversão”? As duas
carregam essa ideia de “viração”, de mudar de direção, de encontrar novos caminhos.
A
“viração” é aquele jeito tão brasileiro — e tão paulistano — de se adaptar, de
sobreviver, de inventar saídas onde só parecia haver muros.
Essa é
a verdadeira riqueza de São Paulo!
A
Criatividade — tão valiosa para o empreendedorismo e para a inovação social —
não nasce da uniformidade. Ela brota do atrito, do encontro, da multiplicidade.
É na pluralidade de ideias, no choque entre a sabedoria caipira e a tecnologia
de ponta, entre o rap da quebrada e a orquestra sinfônica, que a Inovação acontece.
Mas
para criar, não basta ser diverso; é preciso também “di-verter”. É preciso o
tempo da pausa, o tempo do café não como estimulante para produzir mais, mas
como momento de reflexão.
É a
diversão — o desvio da rota obrigatória — que permite à mente respirar e
conectar pontos distantes. Sem esse “tempo de viração”, sem essa ludicidade,
seríamos apenas engrenagens. Com ela, somos criadores.
Portanto,
neste 25 de janeiro, gostaria de parabenizar São Paulo com a síntese das rampas
de Santa Cecília!
Que
continuemos sendo a terra da Disciplina e do Trabalho, sim, pois isso forjou
nosso caráter pioneiro, pujante e resiliente.
Mas que sejamos, acima de tudo, a Terra da Diversidade e da Diversão. Porque
somente onde o trabalho encontra a pausa e onde o diferente encontra o
semelhante, que floresce a verdadeira vocação desta cidade: a Criatividade.
Parabéns,
São Paulo! Que sua beleza continue sendo a capacidade de enxergar no caos a
semente do novo!
André Naves - Defensor Público Federal. Especialista em
Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política. Saiba mais
em www.andrenaves.com/ Instagram:
@andrenaves.def
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