sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Vida longa ao rei e aos súditos, com respaldo da genética


A longevidade da rainha Elizabeth II chamou a atenção nos últimos anos, ou “sempre chamou” para os mais jovens, sendo motivo para uma imensa e universal geração de memes.

 

Vis a vis à virtuosa longa passagem da monarca, que entra notavelmente para a história, a régua da longevidade só tende a esticar. E pessoas falecendo por volta dos 96 anos já não será algo tão atiçador à criatividade dos inventivos da web. Diante disso, não é contrassenso afirmar que o rei Charles III, que assume o trono aos 73 anos de idade, tenha, ainda, um longo caminho a percorrer.

 

Pesquisas científicas traçam um novo panorama acerca da longevidade humana. Há indícios, por exemplo, de que poderemos viver até os 150 anos. O número de centenários no planeta, que em 1950 era de 24 mil, hoje está na casa dos 300 mil, e há projeções para 2050 de que esse número salte para 3,8 milhões.

 

Neste cenário, serão cada vez maiores os investimentos em inovações com foco em saúde, de modo a proporcionar melhor qualidade de vida para esse público, bem como pavimentar o caminho para aqueles que almejam viver por mais tempo, com vitalidade e independência.

 

Parte da transformação da saúde passa pela digitalização para melhoria da gestão. Mas outra parte significativa está nas mudanças científicas que vêm ocorrendo, como, por exemplo, o mercado de pesquisas genéticas, que no mundo movimenta cerca de US$ 1,5 trilhão por ano. Nos países desenvolvidos, quatro em cada cinco startups de saúde têm algum tipo de produto baseado em análise genética.

 

Os avanços no campo da genética, com base no desenvolvimento de procedimentos atinentes à medicina 4P (preditiva, preventiva, personalizada e participativa), canalizam as megatendências que influenciam o domínio dos cuidados de saúde dissemelhantemente às abordagens tradicionais passadas, que se concentravam na medicina reativa, passiva, centrada nos hospitais e dirigida por sintomas. Converge com essa premissa a visão de que os cuidados com a saúde se darão em casa, deixando para os hospitais apenas a função de prover amparo.

 

Testes genéticos possibilitam o conhecimento do mapa de predisposições genéticas de cada indivíduo, e o assistem ao longo de sua jornada, catalisam o desenvolvimento de linhas de cuidado, a um custo cada dia mais baixo e baseado em um modelo de negócio que fomenta a concepção de dispositivos mais simples e acessíveis, com o intuito de democratizar o ingresso da população à saúde.

 

Por exemplo, está para ser lançado no mercado brasileiro um produto revolucionário voltado à extração de material genético, que possibilita a coleta de DNA e RNA em até dois minutos, tempo recorde em nível mundial, e em qualquer lugar, sem a necessidade de laboratório ou pessoal especializado, e que pode ser armazenado em temperatura ambiente, uma disruptura nesse segmento, especialmente para um país tropical como o Brasil – os extratores de DNA e RNA tradicionais precisam ser acondicionados a baixas temperaturas, o que gera custo de refrigeração, transporte, e dificulta seu manuseio.

 

Esse método disruptivo, que tange sobre identidade genética, chega a um preço popular, para ganhar escala, e tem o potencial de tornar o diagnóstico genético de doenças um processo mais eficiente e econômico, que poderá ser utilizado em diversas aplicações, tais como testes para que pessoas descobrir se têm predisposição a alguma doença, como câncer de mama ou de próstata. Isso traz benefícios a pacientes, governos, operadoras, instituições de saúde, laboratórios, clínicas, entre outros. Ademais, a inovação possibilitará a geração de uma quantidade relevante de prontuários genéticos e, consequentemente, de informações anonimizadas que permitirão traçar um perfil da saúde no país.

 

Tecnologias como essa podem beneficiar o Sistema Único de Saúde (SUS), colocando-o em condição de discutir genética, sinistralidade genética e medicina 4P pari passu às maiores nações do mundo. Ao passo que Estados e Municípios podem usar esse serviço de identidade genética para promover o planejamento da saúde populacional, ensejando a adoção de ações preventivas e de monitoramento mais efetivas.

 

O rápido aumento na idade das populações, os custos acelerados dos cuidados em saúde e a crescente carga de doenças crônicas apresentam grandes desafios aos sistemas de saúde, haja vista a grave crise financeira enfrentada pelos hospitais filantrópicos no Brasil. Contudo, avanços na medicina, como o desenvolvimento da genética, embarcada na megatendência da digitalização, trarão um grande impacto para a economia nacional, reduzindo as perdas de produtividade e diminuindo os custos de tratamento de doenças, priorizando a profilaxia, o diagnóstico precoce e o atendimento primário.

 

Quanto mais breve o diagnóstico de uma doença, menor a probabilidade do desenvolvimento de complicações mais sérias. Quem ganha com isso, no final das contas, são as pessoas, que viverão por mais tempo e com bem-estar, suportadas por um atendimento mais ágil, resolutivo e barato.

 

Para tanto, há alguns desafios a serem superados pelas autoridades de saúde municipais, estaduais e federal no tocante a estabelecer padrões para o papel da genética, dentro do amplo escopo das funções básicas da saúde pública, tais como: definição de critérios para o uso de testes genéticos para prever a probabilidade de doenças e o impacto das intervenções; fomento ao prontuário genético em linha com o Open Health; e elaboração de uma legislação de suporte à LGPD, à Lei de Transparência, entre outras correlatas, que torne mandatória a conservação da informação original em suas bases de origem – para maior segurança dos dados dos pacientes.

 

Jeff Plentz - fundador da techtools health


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