Calor acima da média, períodos de baixa umidade, fumaça e mudanças bruscas no tempo podem aumentar o desconforto de quem sofre com rinite, sinusite e outros problemas respiratórios
Calor intenso em um dia, chuva forte no outro, períodos de baixa
umidade, fumaça de queimadas e ar-condicionado funcionando por horas. Com a
influência do El Niño sobre a primavera e o verão deste ano, as mudanças no
clima também levantam uma questão de saúde. Segundo Dr. Bruno Borges de
Carvalho Barros, otorrinolaringologista pela
Associação Brasileira de Otorrinolaringologia, as condições ambientais
associadas ao El Niño podem repercutir sobre nariz, garganta e sistema
respiratório.
“O vírus da gripe não aparece porque o tempo mudou e uma pessoa
não desenvolve rinite simplesmente porque chegou o El Niño. O que temos são
alterações de temperatura, umidade, qualidade do ar e comportamento que podem
favorecer irritações, agravar doenças preexistentes ou aumentar a exposição a
determinados agentes”, explica.
O nariz pode ser um dos primeiros a sentir o El Niño
O nariz funciona como uma espécie de filtro e condicionador do ar
que respiramos. Ele ajuda a aquecer, umidificar e filtrar o ar antes que ele
siga para as vias respiratórias inferiores.
Quando o ambiente fica muito seco, essa mucosa pode sofrer. “Podem
aparecer sensação de nariz seco, ardência, formação de crostas e até
sangramentos. Quem já apresenta rinite também pode perceber piora da obstrução
e maior desconforto”, afirma Bruno.
No calor, existe ainda outro fator: o aumento do uso de
ventiladores e ar-condicionado. Sair repetidamente de um ambiente muito quente
para outro muito frio e permanecer longos períodos sob ar refrigerado pode
favorecer ressecamento e irritação em algumas pessoas. Além disso, aparelhos
sem manutenção adequada podem acumular poeira e outros agentes capazes de
piorar sintomas alérgicos.
El Niño pode piorar a rinite?
Pode contribuir para piora dos sintomas em algumas pessoas, mas a
relação não é tão simples quanto “El Niño causa rinite”.
Mudanças de umidade e temperatura, maior quantidade de poeira
suspensa, pólen, poluição e outros fatores ambientais podem funcionar como
gatilhos para indivíduos predispostos.
“É muito comum o paciente dizer: ‘Toda vez que o tempo muda, minha
rinite ataca’. Existe fundamento nessa percepção, mas precisamos entender qual
é o gatilho daquela pessoa. Para alguns é poeira, para outros mudança de
temperatura, baixa umidade, pólen ou poluentes”, explica o otorrino.
E rinite não significa necessariamente infecção. Espirros
repetidos, coceira no nariz e nos olhos, coriza transparente e obstrução nasal
podem apontar mais para um quadro alérgico do que para uma gripe.
E a sinusite?
Outra confusão frequente é atribuir qualquer dor facial ou nariz
entupido à sinusite.
Alterações climáticas podem piorar sintomas nasais, mas isso não
significa automaticamente que exista uma infecção dos seios da face.
“Rinite e sinusite são condições diferentes. Um nariz muito
obstruído pode causar bastante desconforto, pressão e alteração do sono sem
necessariamente significar uma sinusite bacteriana”, ressalta.
Por isso, sintomas persistentes, dor intensa, febre ou piora
importante devem ser avaliados individualmente.
El Niño - Calor e seca trazem outro problema: a fumaça
Dependendo da região, períodos de calor e baixa umidade também
podem coincidir com maior risco de queimadas. E a fumaça acrescenta um novo
componente à saúde respiratória.
Material particulado e outros poluentes podem irritar olhos, nariz
e garganta, provocar tosse e agravar sintomas respiratórios, especialmente em
crianças, idosos e pessoas com doenças preexistentes.
“O nariz e a garganta estão diretamente expostos ao ar que
respiramos. Se esse ar está carregado de fumaça e partículas, é comum aparecer
ardência, irritação, pigarro e desconforto”, explica Bruno.
Como proteger nariz e garganta no El Niño?
Alguns cuidados simples podem ajudar. Manter boa hidratação é
importante para o organismo e para as mucosas. Em períodos de baixa umidade, a
lavagem nasal com solução salina pode ser útil para higiene e hidratação nasal,
especialmente para quem sofre com ressecamento ou rinite, quando adequadamente
orientada.
Também é importante evitar fumaça, manter ambientes ventilados
quando a qualidade do ar permitir, realizar a limpeza e manutenção de aparelhos
de ar-condicionado e evitar mudanças térmicas exageradas sempre que possível.
Para quem tem rinite, asma ou outra doença respiratória
diagnosticada, a orientação é manter o tratamento prescrito em vez de esperar a
crise aparecer.
“Um erro comum é o paciente abandonar o tratamento quando está bem
e recorrer apenas a descongestionantes quando o nariz fecha. Alguns
descongestionantes nasais, principalmente os vasoconstritores, não devem ser
utilizados indiscriminadamente porque podem causar efeito rebote e manter um
ciclo de obstrução”, alerta o médico.
O médico alerta que sinais como sangramento nasal recorrente,
falta de ar, chiado, febre persistente, dor facial importante, secreção com
sintomas prolongados, perda persistente do olfato ou obstrução nasal que não
melhora merecem avaliação.
Ele conta que respirar pela boca constantemente também não deve
ser normalizado. “Se uma pessoa passa semanas dormindo de boca aberta porque o
nariz está sempre obstruído, não devemos simplesmente culpar o clima. O El Niño
pode trazer condições que agravam sintomas, mas uma obstrução persistente
precisa ter sua causa investigada”, explica.
O clima interfere no ambiente em que respiramos e pode modificar
nossos sintomas, mas não explica tudo. “Se o nariz vive entupido, a garganta
está sempre irritada ou as crises se tornaram frequentes, é importante
investigar. O objetivo não é apenas atravessar o El Niño melhor, mas entender
por que aquela pessoa está sofrendo tanto com cada mudança do tempo”, conclui.
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