Agosto teve 2,29 milhões de contratações e 2,13 milhões de desligamentos. Para especialista, o saldo de vagas esconde um giro de pessoal que custa caro às empresas e costuma começar nos primeiros meses do contrato
Na terça-feira (29), o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) informou que o desemprego caiu para 5,3% no trimestre
encerrado em agosto e que o país chegou a 103,5 milhões de pessoas ocupadas, o
maior número da série da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua
(PNAD Contínua), iniciada em 2012. No mesmo dia, o Novo Cadastro Geral de
Empregados e Desempregados (Novo Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego,
mostrou que o saldo de janeiro a agosto, de 1,13 milhão de vagas formais, é o
menor para o período desde 2020.
O que explica os dois movimentos é o tipo de trabalho que
está sendo criado. Das 774 mil pessoas que passaram a trabalhar no trimestre,
528 mil não tinham carteira assinada nem CNPJ, segundo o IBGE. O emprego com
carteira no setor privado ganhou 149 mil pessoas, variação que o instituto
considerou estável. Como o Caged registra apenas os vínculos formais, ele capta
a desaceleração que a PNAD, ao contar todos os ocupados, dilui.
"As duas notícias são verdadeiras e precisam ser lidas
juntas. O saldo vai para a manchete, e o volume de entradas e saídas fica
escondido dentro dele", afirma Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador
da FM2S, PhD em Engenharia pela Unicamp e gestor de carreiras.
Em agosto, foram 2.294.563 admissões e 2.128.736
desligamentos no mercado formal, para um saldo de 165.827 vagas.
Para o especialista, a leitura isolada da taxa de desemprego
exige cautela. "Olhar só para os 5,3% é perigoso. A taxa mostra que mais
gente está trabalhando, mas não diz em que condição nem por quanto tempo. Para
quem decide contratações ou planeja a própria carreira, esse número precisa vir
acompanhado dos outros", alerta.
Santos, que fundou startup de Educação e Consultoria com o
irmão, Murilo Marques dos Santos, observa que o desligamento costuma pesar mais
no caixa do que a contratação. "Quando alguém sai, a empresa paga a rescisão,
recruta de novo, treina de novo e espera meses até a pessoa nova render. Tudo
isso volta ao ponto de partida", diz.
Segundo ele, boa parte das saídas antes de um ano tem origem
nos primeiros 90 dias. "Nos desligamentos precoces que acompanhei, o
padrão se repete: a vaga prometia uma coisa e o dia a dia era outro, a pessoa
não sabia o que se esperava dela e ninguém havia combinado como a entrega seria
avaliada", explica.
Para reduzir esse giro, Santos recomenda que gestores
acertem três pontos antes de abrir uma vaga:
1- Plano de trabalho:
definir o que a pessoa precisa entregar em 30, 60 e 90 dias;
2- Expectativa ajustada: deixar claro, já na entrevista, o que a vaga é e o que ela
não é;
3- Avaliação combinada: estabelecer como e quando a entrega será medida.
"É um trabalho de uma tarde, e custa menos do que
contratar de novo", resume Santos. "Na próxima divulgação do Caged,
vale olhar além do saldo e perguntar quantas dessas vagas chegam a um
ano."
A recomendação também vale para quem está do outro lado da mesa. Para Santos, o candidato pode puxar essa conversa ainda no processo seletivo. "Perguntar o que se espera da vaga nos primeiros três meses e como a entrega será avaliada ajuda a pessoa a decidir se aquela oportunidade tem chance de durar. E mostra ao recrutador que ela pensa em resultado", afirma.
Virgilio Marques dos Santos -
PhD em Engenharia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Master
Black Belt em Lean Seis Sigma e sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria,
startup sediada no Parque Científico e Tecnológico da Unicamp.
Trabalha há 15 anos com desenvolvimento de carreiras, futuro do trabalho e
transformação organizacional. É autor do livro "Partiu Carreira", TEDx Speaker e
palestrante em temas de gestão, inovação e liderança.
Nenhum comentário:
Postar um comentário