Especialistas alertam que campanhas pontuais não bastam e reforçam a necessidade de subsídio a tratamentos, segurança psicológica e acompanhamento da adesão terapêutica no ambiente de trabalho
Setembro chegou e, com ele, ganha força a discussão sobre o Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização e à prevenção da saúde mental. No ambiente corporativo, a pauta se torna ainda mais relevante com a atualização da NR-1, que passou a exigir a identificação e a gestão dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho.
Entre janeiro e junho de 2026, foram registrados 232.382 afastamentos por transtornos mentais, ante 267.690 no mesmo período de 2025, uma queda de 13,2%. Ainda assim, levantamento da Cajuína, por meio do projeto Data Cajuína, aponta que é cedo para afirmar que o país reverteu definitivamente a curva de crescimento observada nos últimos cinco anos.
Diante desse cenário, iniciativas voltadas à saúde mental precisam fazer parte da rotina das empresas. Palestras e campanhas continuam sendo importantes para abrir espaço ao diálogo, mas é necessário ir além, com ações contínuas que contribuam de forma efetiva para o bem-estar dos colaboradores.
Para mostrar
caminhos possíveis, especialistas trazem dicas de práticas e iniciativas que
podem ser implementadas no ambiente corporativo
1. Garantir acesso, uso
responsável e continuidade ao longo da jornada terapêutica
Para que o cuidado com a saúde mental aconteça durante todo o ano, as empresas
precisam ir além da conscientização e criar condições para que o tratamento
seja iniciado e mantido de forma adequada. Barreiras financeiras, dificuldade
de acesso, uso inadequado e interrupção precoce dos medicamentos podem
comprometer os resultados. Nesse contexto, o benefício farmácia corporativo pode
combinar subsídio aos medicamentos prescritos com o acompanhamento responsável
de indicadores da jornada de adesão, como início do tratamento, regularidade
das dispensações e possíveis interrupções. Quando integrado a canais de
acolhimento e acompanhamento profissional, esse recurso permite direcionar
ações de apoio no momento oportuno, respeitando a confidencialidade, a proteção
de dados e a autonomia do paciente.
“Na saúde mental, facilitar o acesso é essencial, mas o cuidado somente se
sustenta quando existe continuidade. A análise da jornada de adesão pode
sinalizar atrasos, irregularidades ou interrupções precoces, criando a
oportunidade de reconectar a pessoa aos canais de cuidado. O medicamento pode
ser uma ferramenta importante, mas precisa estar inserido em uma estratégia
mais ampla, com orientação profissional, acompanhamento e reavaliação ao longo
do tempo. É assim que a saúde mental deixa de ser uma pauta restrita a
campanhas pontuais e passa a fazer parte da cultura de cuidado da empresa”, enfatiza
o Dr. Ricardo Moraes,
Diretor Médico da Funcional,
empresa pioneira e líder em programas de acesso e adesão em saúde no Brasil.
2. Capacitar lideranças
para promover a segurança psicológica e identificar sinais precoces de
sobrecarga
Tão importante quanto diagnosticar os riscos e
garantir o acesso ao tratamento é assegurar que o ambiente de trabalho no dia a
dia seja pautado pela segurança psicológica. Os gestores diretos são a primeira
linha de contato e precisam estar capacitados para praticar a escuta ativa,
reconhecer alterações de comportamento na equipe e acolher o colaborador sem
julgamento ou caráter punitivo. Criar uma cultura na qual os profissionais se
sintam seguros para relatar que estão passando por um momento difícil é
fundamental para intervir antes que o estresse evolua para um quadro grave.
Para Ricardo Mattos, CEO
da Vetor Editora, empresa do grupo Giunti
Psychometrics, a atitude dos gestores é decisiva para a
prevenção: "A liderança é a ponte entre as políticas de saúde mental da
empresa e a realidade da equipe. Quando capacitamos os gestores para
identificar sinais sutis de sobrecarga e agir com empatia, transformamos a
segurança psicológica em uma prática diária. O colaborador precisa ter a
certeza de que pedir ajuda não colocará em risco sua reputação ou seu
emprego".
3. Integrar a saúde
financeira ao cuidado mental por meio de programas que auxiliam os efeitos psicológicos
causados pelo superendividamento.
Promover saúde mental no ambiente corporativo também exige olhar para a vida
financeira dos trabalhadores. O superendividamento, potencializado pela
expansão das apostas online (bets), pode gerar uma sobrecarga emocional
e impactos nas relações familiares. Nesse cenário, programas que ofereçam
educação financeira, apoio à renegociação de dívidas e suporte psicológico
sigiloso, inclusive via WhatsApp, podem atuar de forma preventiva e ampliar o
cuidado aos familiares.
Para Eduardo Melo,
psicólogo e supervisor do Programa de Saúde Mental na HealthBit,
consultoria especializada em saúde corporativa, não é possível falar de saúde
mental no trabalho sem considerar o impacto do estresse financeiro. “As dívidas
e a compulsão por apostas tiram o sono, comprometem o foco e podem
desestabilizar famílias. Oferecer um canal seguro para reorganizar a vida
financeira e receber apoio emocional é construir uma rede real de cuidado”.
4. Mapear os riscos
psicossociais com testes validados para diagnosticar o ambiente de trabalho
Para atender às exigências da NR-1 no gerenciamento de riscos psicossociais e
ir além de campanhas pontuais, as empresas devem utilizar instrumentos e testes
psicossociais validados cientificamente. Aplicadas por profissionais
habilitados, essas avaliações mensuram fatores como sobrecarga de trabalho,
grau de autonomia e segurança psicológica, fornecendo dados objetivos para o
Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Para Alessandra Pinatti
Kinjo, Mestre em Psicologia e Consultora da Vetor Editora, a avaliação psicossocial no
ambiente ocupacional é usada para diagnosticar a saúde da própria estrutura de
trabalho. “Ao utilizar ferramentas psicológicas com respaldo científico, a
organização identifica com precisão quais dinâmicas geram sobrecarga e consegue
intervir nos processos antes que a exaustão se converta em afastamentos ou
acidentes operacionais."
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