Brasil reduziu casos associados a cães, mas circulação do vírus entre animais silvestres exige monitoramento contínuo e capacidade laboratorial
Celebrado em 28 de setembro, o Dia Mundial contra a
Raiva chama a atenção para uma doença evitável, mas quase sempre fatal depois
do aparecimento dos sintomas. Além da vacinação e do atendimento rápido após
possíveis exposições, o diagnóstico laboratorial e a vigilância epidemiológica
são fundamentais para identificar a circulação do vírus e orientar medidas de
controle.
Dados do Ministério da Saúde mostram que o Brasil
registrou 54 casos de raiva humana entre 2010 e junho de 2026. Desse total, 23
foram transmitidos por morcegos, 12 por primatas, dez por cães, cinco por
gatos, dois por raposas, um por bovino e um por cervídeo. Apenas dois pacientes
sobreviveram.
“O diagnóstico não deve ser visto apenas como a
confirmação de um caso. Cada resultado gera informações sobre onde o vírus está
circulando, quais animais estão envolvidos e quais populações podem estar sob
maior risco. Esses dados ajudam os serviços de saúde e de defesa sanitária a
direcionar a vigilância, a vacinação e outras medidas de prevenção”, explica
Tatiani Janegitz, gerente de Desenvolvimento de Mercado – Agronegócio da
Loccus, empresa brasileira especializada em soluções para biotecnologia e
diagnóstico molecular.
A redução da raiva transmitida por cães é um dos
avanços registrados no país. Segundo o Ministério da Saúde, o número de casos
de raiva canina caiu de 635 em 2002 para 13 em 2025. Até junho de 2026, foram
registrados seis casos em cães, todos relacionados a variantes virais de
animais silvestres. O cenário mostra que, mesmo com o controle do ciclo urbano
associado aos cães, a circulação do vírus na fauna mantém o risco de
reintrodução entre animais domésticos.
Diagnóstico ajuda a mapear a
circulação do vírus
A raiva é uma zoonose causada por vírus do gênero Lyssavirus
e pode atingir todos os mamíferos, incluindo seres humanos. A transmissão
ocorre principalmente pelo contato da saliva de um animal infectado com
ferimentos ou mucosas, geralmente por meio de mordidas, arranhões ou
lambeduras.
Como os sinais clínicos podem ser semelhantes aos
de outras doenças neurológicas, a confirmação depende de exames laboratoriais
realizados por unidades habilitadas. A imunofluorescência direta é considerada
uma técnica de referência para a identificação do antígeno viral em amostras de
tecido. Métodos moleculares, como a RT-PCR, podem complementar a investigação
ao detectar o material genético do vírus e contribuir para a identificação das
variantes em circulação.
“O diagnostico molecular acrescenta sensibilidade e
precisão à investigação, com menor risco de resultados falso-negativos,
especialmente em amostras com baixa carga viral ou qualidade comprometida. Além
disso, plataformas modernas de extração de RNA/DNA automatizada, permitem
rápido processamento das amostras, reduzindo significativamente o tempo do
diagnóstico quando comparada a métodos biológicos tradicionais”, afirma
Tatiani.
A caracterização das variantes virais permite
estabelecer relações entre casos humanos e animais, identificar as espécies
envolvidas na transmissão e acompanhar mudanças no perfil epidemiológico. Esse
monitoramento é particularmente importante diante da participação de morcegos e
de outros animais silvestres na manutenção do vírus.
Vigilância integra saúde
humana, animal e ambiental
Por circular entre diferentes espécies, a raiva
demanda uma abordagem integrada entre saúde humana, medicina veterinária,
defesa agropecuária, meio ambiente e laboratórios. A notificação de casos
suspeitos em animais permite investigar focos, mapear áreas de risco e adotar
medidas para evitar novas infecções.
No meio rural, a doença também afeta bovinos,
equinos e outros herbívoros, com impactos sanitários e econômicos. O Ministério
da Agricultura e Pecuária classifica a raiva como endêmica no Brasil. Somente
em 2021, foram confirmados 1.004 casos em herbívoros, com maior concentração
nas regiões Sudeste, que respondeu por 31,9% das ocorrências, e Sul, com 25%. A
suspeita ou ocorrência da doença nesses animais é de notificação obrigatória ao
Serviço Veterinário Oficial.
Para a população, a principal orientação é procurar
imediatamente um serviço de saúde após mordida, arranhão ou contato de saliva
com ferimentos ou mucosas. O local deve ser lavado com água e sabão, e o
atendimento não deve aguardar o resultado de exames ou o surgimento de sintomas.
Caberá à equipe de saúde avaliar a necessidade de vacinação e de outras medidas
de profilaxia.
A vacinação periódica de cães, gatos e animais de
produção nas situações recomendadas, o monitoramento de morcegos, a notificação
de suspeitas e o diagnóstico laboratorial formam uma rede de prevenção. Mesmo
com a redução dos casos transmitidos por cães, manter essa estrutura ativa é
essencial para impedir que o vírus volte a avançar.
Loccus

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