Mudanças de comportamento, isolamento social e perda de interesse por atividades cotidianas podem indicar que algo não vai bem com a saúde mental na terceira idade
O envelhecimento é acompanhado por mudanças importantes na rotina,
nos relacionamentos e na saúde, mas nem toda alteração de comportamento deve
ser encarada como uma consequência natural da idade. A depressão em idosos, por
exemplo, pode se manifestar de maneira diferente daquela observada em adultos
mais jovens e, por isso, seus primeiros sinais podem passar despercebidos por
familiares e cuidadores.
Segundo a psicóloga Karen Jones, da Said Rio, empresa
especializada em assistência domiciliar, um dos principais desafios está
justamente em diferenciar manifestações relacionadas à depressão de mudanças
que muitas vezes são atribuídas automaticamente ao envelhecimento.
“É muito comum que sinais de depressão sejam interpretados como
parte natural da velhice. O idoso pode ficar mais quieto, deixar de participar
de atividades que antes gostava, apresentar alterações no sono ou no apetite e
até se queixar mais frequentemente de dores físicas. Esses sinais precisam ser
observados em conjunto e, principalmente, em comparação com o comportamento
habitual daquela pessoa”, explica.
Entre os sinais que podem indicar um quadro depressivo estão a
perda persistente de interesse ou prazer em atividades que antes eram
agradáveis, isolamento social, alterações no sono, mudanças no apetite, falta
de energia, dificuldade de concentração, sentimentos de inutilidade ou culpa e
queixas físicas recorrentes sem uma causa aparente. Em alguns casos, o idoso
também pode apresentar irritabilidade ou mudanças de humor, em vez de
demonstrar tristeza de maneira evidente.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que a depressão não é
uma consequência inevitável do envelhecimento e que condições de saúde física,
perdas, isolamento social e outros fatores podem contribuir para o surgimento
de problemas de saúde mental na terceira idade.
Para Karen, a atenção de familiares e cuidadores é fundamental
para perceber mudanças que podem ser sutis. “Quem convive diariamente com o
idoso consegue perceber alterações que talvez não sejam identificadas em uma
consulta pontual. Se uma pessoa que costumava conversar, sair, assistir aos
seus programas favoritos ou participar de atividades passa a evitar essas
situações de forma persistente, é importante investigar o que está
acontecendo”, afirma.
Outro ponto que merece atenção é a solidão. Mudanças na estrutura
familiar, aposentadoria, perda do companheiro ou de amigos e redução da
convivência social podem diminuir os estímulos e as interações presentes na
rotina. Entretanto, o isolamento não deve ser considerado simplesmente uma
característica da idade.
A participação da família e a manutenção de vínculos sociais podem
contribuir para o bem-estar emocional do idoso, assim como atividades que
estimulem a autonomia e respeitem seus interesses. Nesse processo, o
acompanhamento psicológico pode ajudar tanto na identificação dos sintomas
quanto na compreensão dos fatores que estão afetando a saúde mental.
“O mais importante é não minimizar o sofrimento do idoso. Frases
como ‘isso é da idade’ ou ‘ele sempre foi assim’ podem fazer com que um
problema seja ignorado. A depressão é uma condição de saúde e pode ser
acompanhada e tratada por profissionais. Quanto antes os sinais forem
percebidos, mais rápido podemos buscar ajuda”, destaca a psicóloga.
O cuidado também deve envolver uma avaliação ampla do paciente. Na
assistência domiciliar, a atuação de uma equipe multidisciplinar permite
observar diferentes aspectos da rotina do idoso. Médicos, psicólogos,
nutricionistas, fisioterapeutas, enfermeiros e cuidadores podem compartilhar
informações e contribuir para uma compreensão mais completa das necessidades de
cada paciente.
Para Karen, olhar para a saúde mental deve fazer parte do cuidado
integral na terceira idade. “Cuidar de um idoso não significa apenas acompanhar
seus medicamentos ou garantir que ele esteja fisicamente bem. Também precisamos
observar como ele está se sentindo, se mantém seus vínculos, se encontra prazer
na rotina e se continua exercendo sua autonomia. Saúde mental também é
qualidade de vida”, conclui.

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