sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Com turismo em alta, segurança vira desafio estratégico para parques aquático


Com turismo em alta e 143 milhões de visitas aos parques e atrações brasileiras em 2025, treinamento, manutenção, atendimento médico, tecnologia e gestão de riscos passam a ser cada vez mais relevantes na operação do setor

 

Toboáguas, piscinas de ondas e novas atrações costumam concentrar as atenções quando um parque aquático anuncia investimentos. Há, porém, uma parcela menos visível dessa conta: quanto custa manter toda essa estrutura funcionando com segurança enquanto o número de visitantes cresce?

O desafio pode ser observado em Foz do Iguaçu, um dos principais destinos turísticos brasileiros. Em 2025, os principais atrativos da cidade registraram 5,85 milhões de visitas, crescimento de 48% em relação ao ano anterior. No segmento de parques aquáticos, o Blue Park superou 118 mil visitantes, alta de 44% na comparação com 2024.

O movimento acompanha uma expansão nacional. Os parques e atrações brasileiras receberam 143 milhões de visitantes em 2025, 4,8% acima do ano anterior, e faturaram R$ 9,5 bilhões, crescimento de 12,8%, segundo a quarta edição do Panorama Setorial de Parques, Atrações Turísticas e Entretenimento no Brasil, elaborado pela Noctua Advisory para o SINDEPAT e a ADIBRA.

O levantamento identificou ainda R$ 11,5 bilhões em investimentos programados no país. São R$ 7,1 bilhões em novos projetos e R$ 4,4 bilhões em reinvestimentos de empreendimentos já existentes. Entre os novos projetos mapeados, 28,6% são parques aquáticos.

O crescimento traz uma equação que vai além de colocar novas atrações em funcionamento. Mais visitantes significam maior complexidade operacional e necessidade de ampliar ou aperfeiçoar estruturas que nem sempre são percebidas pelo público.

Em um parque aquático, a segurança envolve contratação e capacitação de guarda-vidas, manutenção preventiva de equipamentos e atrações, monitoramento e tratamento da água, atendimento médico, sistemas de comunicação, controle de capacidade, sinalização, equipamentos de emergência, tecnologia e protocolos para diferentes tipos de ocorrência.

É uma estrutura que precisa estar pronta todos os dias, inclusive quando nada acontece.


Segurança entra na conta

No Blue Park, a operação envolve 220 colaboradores efetivos e aproximadamente 120 profissionais indiretos durante os períodos de maior movimento. Entre as equipes responsáveis diretamente pela segurança aquática estão os guarda-vidas, que possuem certificação internacional da Jeff Ellis & Associates, vinculada ao Programa Integral de Gestão de Risco Aquático (PIGRA). Desde 2018, o parque mantém essa certificação, cuja manutenção envolve três auditorias anuais, além de treinamentos especializados com os Bombeiros Militares.

A lógica é transformar a prevenção em uma atividade permanente, e não apenas reagir quando ocorre um acidente. “Segurança não é um trabalho que acontece apenas quando o parque abre. Existe uma preparação anterior, treinamento das equipes, acompanhamento dos procedimentos e auditorias ao longo do ano. É um processo contínuo”, afirma Elvio Andrade, diretor-geral do Blue Park.


Da manutenção ao atendimento médico

Os guarda-vidas são a face mais visível dessa estrutura, mas representam apenas uma parte de um sistema de segurança que começa antes da abertura do parque e envolve diferentes áreas da operação. 

Antes de uma atração receber o primeiro visitante do dia, entram em cena inspeções e rotinas de manutenção. Equipamentos, bombas, sistemas hidráulicos e demais componentes precisam operar dentro dos parâmetros estabelecidos. Em piscinas e atrações aquáticas, soma-se ainda o controle da qualidade da água.

A estrutura de pronto atendimento é outra frente essencial. Com ambulatório e equipe de enfermagem no local, o espaço cuida do bem-estar diário dos visitantes como pequenas indisposições e primeiros socorros, mantendo a prontidão para prestar o suporte inicial e direcionar casos mais complexos à rede hospitalar." 

Há ainda investimentos menos aparentes, como equipamentos de primeiros socorros, sistemas de comunicação entre funcionários, sinalização, controle de acesso e treinamento para que diferentes áreas saibam como agir diante de uma ocorrência.

A tecnologia também ganhou espaço. Câmeras e sistemas de monitoramento, ferramentas de comunicação e mecanismos de controle de acesso e capacidade ajudam os operadores a acompanhar o funcionamento das áreas e identificar situações que demandem intervenção.

No Blue Park, o próprio regulamento prevê limite de capacidade e possibilidade de bloqueio de novos acessos quando a lotação máxima é atingida. As regras também determinam a supervisão de crianças por adultos, evidenciando outro componente da equação: em ambientes aquáticos, a segurança depende tanto da estrutura oferecida pelo empreendimento quanto do comportamento dos visitantes.


Mais visitantes, mais complexidade

A escala do mercado ajuda a dimensionar o desafio. Em dois anos, o setor passou de 127 milhões para 143 milhões de visitas anuais, um acréscimo de cerca de 16 milhões. 

O mercado também responde por aproximadamente 202 mil empregos diretos, indiretos e terceirizados, segundo o Panorama Setorial.

Esse crescimento aumenta a necessidade de profissionalização da operação. Uma atração parada para manutenção reduz a capacidade do parque; equipes insuficientes podem restringir o funcionamento de determinadas áreas; falhas de treinamento ampliam riscos; e um acidente grave pode gerar consequências humanas, jurídicas, financeiras e reputacionais.

É por isso que a segurança passa a ser também uma decisão de negócio. No caso de Foz do Iguaçu, a questão ganha uma dimensão adicional. Com a expansão do fluxo turístico e a multiplicação de experiências oferecidas aos visitantes, a qualidade da operação passa a integrar a própria competitividade do destino.


O custo que ninguém vê

É justamente essa estrutura que raramente aparece nas campanhas de divulgação dos parques. O visitante percebe uma nova atração, um toboágua ou uma piscina. Dificilmente percebe o investimento feito para manter tudo funcionando.

As auditorias externas entram nessa lógica. No caso do Blue Park, a certificação internacional mantida desde 2018 faz com que a segurança seja submetida periodicamente à avaliação de uma organização externa, adicionando uma camada de controle aos procedimentos internos.

“Existe uma estrutura que o visitante não vê. Quando ele entra no parque, tudo precisa estar funcionando: equipamentos, equipes, protocolos, atendimento e comunicação. Segurança exige investimento permanente, porque não é possível pensar nela apenas depois que alguma coisa acontece”, diz Andrade.

A discussão sobre quanto custa manter um parque seguro, portanto, não se resume a chegar a um único valor. A conta está espalhada por diferentes áreas da operação e continua existindo independentemente de o parque receber mil ou milhares de pessoas naquele dia.

Em um setor que movimentou R$ 9,5 bilhões em 2025 e tem R$ 11,5 bilhões em investimentos programados, o desafio é fazer com que o investimento na infraestrutura de segurança acompanhe o ritmo da expansão.

Para o visitante, o resultado ideal é quase invisível: entrar, aproveitar as atrações e ir embora sem precisar pensar nos protocolos que existem ao seu redor. Para quem administra um parque, é justamente o contrário. A segurança começa muito antes de o primeiro visitante entrar na água.


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