Dr. Rodolfo Gusmão, médico integrativo e CEO do Instituto Aeon, explica por que descobrir uma anemia é apenas o primeiro passo e como diferentes causas exigem tratamentos completamente distintos
Cansaço, palidez, falta de disposição e dificuldade para realizar
atividades que antes pareciam simples. Quando esses sintomas aparecem
acompanhados de uma alteração no hemograma, é comum que a primeira suspeita
seja falta de ferro, e que a solução pareça igualmente óbvia: suplementá-lo.
Mas anemia não é sinônimo de deficiência de ferro.
Na prática, anemia é caracterizada pela redução da concentração de
hemoglobina no sangue e pode ter diferentes causas, desde deficiências
nutricionais até doenças crônicas, alterações autoimunes e destruição acelerada
das hemácias. Por isso, identificar a anemia é apenas o começo da investigação.
“Um dos principais erros é tratar anemia como se fosse sempre
falta de ferro. O hemograma mostra que existe uma alteração, mas precisamos
descobrir por que ela aconteceu. Dependendo da causa, simplesmente repor ferro
não vai resolver o problema”, explica o Dr. Rodolfo Gusmão, médico integrativo
e CEO do Instituto Aeon.
Quando existe ferro, mas o organismo não consegue utilizá-lo
A chamada anemia da inflamação, também conhecida como anemia de
doença crônica, está associada a condições que mantêm o organismo em estado
inflamatório, como algumas infecções, doenças autoimunes, câncer e doença renal
crônica.
Nesse cenário, a questão não é necessariamente uma ausência
absoluta de ferro. A inflamação aumenta a produção de hepcidina, hormônio que
participa da regulação do metabolismo do mineral. Com isso, menos ferro fica
disponível para a produção adequada das hemácias.
É justamente aí que os exames podem confundir quem espera
encontrar sempre ferritina baixa. Segundo o Merck Manual, na anemia de doença
crônica, a ferritina pode aparecer normal ou elevada, já que também funciona
como uma proteína de fase aguda e pode aumentar em processos inflamatórios.
“É um exemplo muito claro de por que não podemos olhar um marcador
isoladamente. O paciente pode estar anêmico e apresentar ferritina aparentemente
adequada ou alta. Nesse caso, precisamos entender o contexto inflamatório e a
disponibilidade do ferro, e não simplesmente aumentar sua reposição”, explica
Dr. Rodolfo.
Quando a vitamina B12 está envolvida
Outro quadro que pode passar despercebido é a anemia perniciosa,
uma condição autoimune relacionada à deficiência de vitamina B12.
Nesse caso, o organismo desenvolve um processo que compromete a
produção ou a ação do fator intrínseco, proteína produzida no estômago e
necessária para que a vitamina B12 seja adequadamente absorvida no intestino. A
condição está frequentemente associada à gastrite atrófica autoimune.
A investigação é especialmente importante porque a deficiência de
B12 não afeta apenas o sangue. Dependendo da intensidade e da duração, também
podem aparecer manifestações neurológicas, como formigamento nas mãos e nos
pés, alterações de equilíbrio e problemas cognitivos.
“Se existe uma dificuldade de absorção, não basta simplesmente
dizer ao paciente para consumir mais B12. Precisamos descobrir por que essa
vitamina está baixa. Na anemia perniciosa, existe um mecanismo autoimune por
trás, e isso muda completamente a forma de conduzir o caso”, afirma o médico.
Quando as hemácias são destruídas antes da hora
Na anemia hemolítica, a lógica é diferente. Em vez de o problema
estar principalmente na produção das células sanguíneas, as hemácias são
destruídas mais rapidamente do que o organismo consegue substituí-las.
Essa destruição precoce, chamada hemólise, pode ter diferentes
causas, incluindo doenças autoimunes, alterações hereditárias, infecções,
medicamentos e outros mecanismos. Além dos sintomas comuns de anemia, alguns
pacientes podem apresentar sinais como icterícia, urina escura e aumento do
baço. Dependendo da intensidade e da rapidez da hemólise, o quadro pode exigir
avaliação médica imediata.
“É uma situação completamente diferente de uma anemia por
deficiência nutricional. Se as hemácias estão sendo destruídas precocemente,
precisamos identificar o que está provocando essa destruição. Mais uma vez, o
tratamento depende da causa, não apenas do resultado do hemograma”, ressalta
Dr. Rodolfo.
O hemograma é o começo, não o fim
Os três exemplos mostram por que receber um diagnóstico de anemia
não deveria encerrar a investigação. Dependendo das características encontradas
no hemograma e do histórico do paciente, podem ser necessários exames
complementares para avaliar metabolismo do ferro, vitamina B12, marcadores de
inflamação, sinais de hemólise e outras possíveis causas.
Isso também significa que suplementar ferro por conta própria ao
perceber cansaço ou uma alteração laboratorial não é uma estratégia segura.
“Anemia é um sinal de que alguma coisa precisa ser entendida. Às
vezes é falta de ferro, mas também pode existir uma doença inflamatória, uma
dificuldade de absorção ou uma destruição aumentada das hemácias. O mais
importante é não tratar apenas o número. Precisamos descobrir o que está por
trás dele”, conclui Dr. Rodolfo.
Instituto Aeon
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