terça-feira, 8 de setembro de 2026

A riqueza que alimenta a escravidão social: O voto como única via de libertação

 

É um exercício doloroso, mas imperativo, confrontar a realidade do Brasil contemporâneo à luz de suas estatísticas e contradições. Ostentamos a posição de quinta maior extensão territorial do planeta e nos consolidamos firmemente como a décima maior economia do mundo. Sob o nosso solo, repousam terras agricultáveis de fertilidade incomparável, que nos transformaram em um dos três maiores produtores e exportadores globais de alimentos. No subsolo, guardamos riquezas minerais, petróleo e gás com um potencial de descoberta que ainda desafia a imaginação. Para além das dádivas naturais, possuímos um patrimônio humano composto por pessoas honestas, competentes e dotadas de profunda expertise em múltiplos campos — incluindo um vasto contingente de servidores públicos concursados que, embora sistematicamente ignorados e pessimamente remunerados, sustentam o esqueleto do Estado. Diante de tamanha opulência, a pergunta que se impõe, de forma inevitável e urgente, é: como podemos aceitar que, pleno século XXI, mais de 100 milhões de brasileiros continuam vivendo com menos de um salário minimo mensal, isto é, sim viver na pobreza. 

A resposta para essa desconcertante equação não reside na escassez de recursos, mas na crônica insensibilidade e na incompetência de governantes que se sucederam ao longo das últimas três décadas, no período posterior à promulgação da Constituição de 1988, e em especial após o maldito instituto da Reeleição (04/06/1997) sob o manto de discursos que se autointitulam salvadores da pátria, instalou-se uma cultura de má gestão, tolerância absurda com a corrupção proliferando corruptos e corruptores e uma impunidade institucionalizada que, tragicamente, deixou de causar indignação na sociedade. O Brasil padece hoje de um excesso sufocante de corruptos e corruptores, muitos dos quais circulam livremente ostentando crachás de autoridades. O resultado dessa degeneração ética é a perpetuação de injustiças profundas e já insuportáveis, que fragmentam o país em abismos sociais, regionais, raciais, econômicos e educacionais há mais de trinta anos. 

Essa miopia governamental reflete-se diretamente na manipulação das ferramentas de assistência social. O Bolsa Família, o mais importante Programa Social brasileiro que hoje atende a cerca de 20 milhões de famílias englobando aproximadamente 60 milhões de pessoas, que jamais deveria ser instrumentalizado como uma muleta política ou como um subproduto da suposta bondade de quem governa. Trata-se, na verdade, de uma obrigação humanitária e estatal inegociável para atenuar a fome crônica provocada pela má gestão e ineficiência dos próprios governantes. A prova cabal de que a sensibilidade social dessas lideranças é pura retórica reside no fato de que, desde março de 2023, o benefício básico não sofreu qualquer correção inflacionária. Esse congelamento retirou silenciosamente entre 15% do poder de compra dessas famílias. Na prática, significa que cerca de R$ 1.400,00 por ano foram confiscados do orçamento de cada lar vulnerável. É um cálculo cruel que se traduz diretamente na redução do arroz, do feijão e do leite que deveriam estar alimentando crianças e idosos. R$29 bilhões/ano foram tirados dos que nada tem para propiciar mais privilégios e penduricalhos aos que tudo tem. 

Enquanto a inflação corrói o prato dos mais pobres, o topo da estrutura governamental utiliza recursos bilionários para a concessão de favores, benefícios e subsídios que alimentam o mecanismo de perpetuação no poder. Testemunhamos, recentemente, o repasse de bilhões de reais aos bancos a taxas subsidiadas de 1,25% a 1,50% ao ano para refinanciar inadimplentes, dos programas sociais do governo enquanto as fontes desses mesmos recursos públicos são captadas a taxas de mercado atreladas à Selic (14,25% ao ano). Esse descompasso financeiro nada mais é do que uma parcela do preço cobrado por uma metástase política chamada reeleição, onde quem ocupa a cadeira utiliza o Erário para pavimentar sua permanência, ignorando que as inadimplências vêm sendo fortemente causadas pelos governos incentivando consumo acima de suas rendas, esquecendo que 27 milhões de aposentados e pensionistas, além dos 4 milhões de idosos e deficientes vinculados ao BPC, que vivem com apenas um salário-mínimo por mês. (Valor bruto de R$1.621,00/mês) 

Diante desse cenário de subjugação econômica e clientelismo, (típicos dos governos de cooptação), o cidadão precisa despertar para uma verdade fundamental: em uma democracia, o voto é o único instrumento legítimo e eficaz de libertação da escravidão social que já perdura por décadas. A escolha feita na urna possui uma força imensa, e sua cobrança se estenderá de forma implacável pelos quatro ou oito anos seguintes. É preciso votar com profunda consciência, rejeitando as armadilhas do assistencialismo eleitoreiro, as promessas impossíveis de serem cumpridas e compreendendo que, no momento do sufrágio, o poder de um bilionário ou de um doutor é milimetricamente igual ao de qualquer trabalhador brasileiro. O voto não é um favor que se presta a um candidato, mas um compromisso ético com o destino da nação. Somente através da lucidez e da coragem intelectual de cada cidadão seremos capazes de arrancar o Brasil das garras dos insensíveis e resgatar a dignidade que nos foi usurpada. Sem dúvida, o Brasil vem já há algum tempo sofrendo profunda crise ética, moral e de honestidade, inclusive e já existindo corruptos com crachás de autoridades. 

Os brasileiros gritam, clamam, por menos tributos, menos muletas, mais renda e mais verdades. 

 

Samuel Hanan - engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à deriva”, “Caminhos para um país sem rumo” e “Amazônia Brasileira, preservar para viver, responsabilidade mundial”. Site: https://samuelhanan.com.br

 

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