
Formulação ainda é experimental e foi testada em camundongos
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Estratégia desenvolvida por cientistas da USP e colaboradores utiliza vírus geneticamente modificado que se replica apenas uma vez no organismo. Tecnologia poderá ser adaptada contra zika, febre amarela e COVID-19
Pesquisadores
da Universidade de São Paulo (USP) e colaboradores alemães desenvolveram uma
estratégia inovadora para a produção de vacinas. Em artigo publicado na revista npj
Vaccines, o grupo apresenta a criação de um “imunizante inteligente” a
partir de uma versão geneticamente modificada do vírus chikungunya. A grande
vantagem dessa tecnologia é que o patógeno só consegue se replicar uma vez no
organismo – o estímulo exato e seguro para treinar o sistema imune a gerar
anticorpos, sem apresentar riscos de causar a doença.
Nos testes iniciais feitos em
camundongos, uma única dose da formulação foi capaz de proteger os roedores.
Mais do que uma solução promissora contra o chikungunya, os resultados abrem
caminho para a consolidação de uma nova plataforma vacinal, cuja base
tecnológica poderá ser adaptada para o combate a outras doenças no futuro.
“A ideia foi criar um vírus que
entra na célula e ativa o sistema imune, mas é fisicamente incapaz de se tornar
infeccioso. Assim, o imunizado não apresenta sintomas nem corre o risco de
desenvolver a doença. Isso é importante, pois permite uma proteção robusta sem
risco de efeitos colaterais, ampliando o uso também para pessoas
imunossuprimidas e idosos”, explica Danillo Lucas Alves Esposito, pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto
(FCFRP-USP) e primeiro autor do estudo.
A investigação recebeu apoio da
FAPESP por meio de três projetos (17/19137-7, 18/11939-0 e 23/09619-5) e foi conduzida em parceria com uma equipe da Universidade de Bonn
(Alemanha).
Estratégia
inédita
Tradicionalmente, as vacinas
são produzidas para treinar o sistema imune a partir de vírus atenuados
(enfraquecidos por meio de mutações genéticas) ou inativados (incapazes de se
replicar). Mais recentemente, a ciência desenvolveu tecnologias que dispensam o
uso do patógeno inteiro. Surgiram assim as vacinas de subunidades proteicas
(feitas apenas com fragmentos isolados do vírus), as recombinantes (que
utilizam proteínas virais produzidas artificialmente em laboratório), as
conjugadas (que unem um pedaço do patógeno a uma proteína mais forte para
potencializar a resposta imune) e as de vetor viral (que usam um vírus
inofensivo como “veículo” de entrega do antígeno). Há ainda as modernas vacinas
de DNA e RNA, que fornecem as instruções genéticas para que as próprias células
do paciente fabriquem a proteína viral e gerem a defesa imunológica.
A nova plataforma proposta no
estudo utiliza uma estratégia inédita baseada na inoculação de vírus incapazes
de completar a maturação dentro da célula do hospedeiro e de se tornarem
infecciosos, apesar de garantir a proteção contra infecções futuras.
“Isso é importante, pois hoje
temos uma vacina de vírus atenuado contra o chikungunya que, após um período de
suspensão, em 2025, voltou a ser aprovada pelo FDA [agência norte-americana que
regula medicamentos], porém com restrições. Ela não é indicada para pessoas
muito jovens, idosos, imunocomprometidos ou que têm algumas comorbidades [doenças
associadas], pois pode gerar efeitos adversos”, comenta o pesquisador.
Ainda segundo Esposito, quase
todo vírus passa por um processo de maturação fundamental para se tornar
infeccioso. No caso dos patógenos transmitidos por insetos (arbovírus) – como os
causadores da febre chikungunya, da zika, da dengue e da febre amarela –, essa
maturação acontece no final do ciclo de replicação dentro da célula hospedeira.
“Especificamente no caso do
chikungunya, a maturação depende da remoção de uma proteína de superfície [E3],
que cobre a proteína responsável por permitir a entrada do vírus na célula
[E2]. Quando a E3 não é removida, a E2 não fica exposta e o vírus não consegue
infectar”, explica o pesquisador à Agência FAPESP.
No ciclo natural do vírus
chikungunya, quem tem a função de retirar a proteína E3 e permitir que a E2
atue como chave para invadir a próxima célula é a furina, uma enzima do
hospedeiro. Para impedir esse processo e conseguir desenvolver o imunizante com
o vírus ainda imaturo, os cientistas utilizaram uma linhagem de células humanas
que não possui a enzima furina.
Dicas para
editar o genoma
Para gerar uma resposta imune
eficiente, explica Esposito, o vírus da vacina precisa se replicar ao menos uma
vez dentro das células. O desafio dos cientistas era permitir essa etapa
inicial sem que o patógeno continuasse se multiplicando. Para isso, eles
modificaram o genoma viral, substituindo o local de ação da furina por uma
sequência reconhecida pela enzima do vírus da corrosão do tabaco (TEV), que
infecta exclusivamente plantas. Por ser uma enzima totalmente ausente em
humanos e mosquitos, essa alteração garante que o patógeno não consiga
completar novos ciclos de infecção após a aplicação da vacina.
“Assim, o vírus é ‘ativado’
artificialmente antes da vacinação. Mas, como essa enzima não está presente no
organismo humano, o patógeno não consegue realizar novas infecções”, comenta o
pesquisador.
Após essa primeira replicação
controlada, todos os vírus produzidos já nascem imaturos e incapazes de
infectar outras células. “Eles funcionam apenas como antígenos, servindo de
modelo para o sistema imune”, completa.
Outro dado interessante do
estudo foi que, além da proteção contra o chikungunya, os animais imunizados
mostraram capacidade de neutralizar o vírus mayaro, sugerindo um potencial
protetor mais amplo. “Como vários arbovírus dependem da furina para se tornarem
infecciosos, a plataforma pode ser adaptada para zika, febre amarela e até
variantes do SARS-CoV‑2 [o vírus da COVID-19], por exemplo”, diz.
Além de buscar avançar com os
testes clínicos da vacina contra o chikungunya, o grupo pretende adaptar essa
plataforma vacinal para outros arbovírus.
O artigo Maturation-deficient
chikungunya virus elicits protective immune responses in a murine challenge
model pode ser lido em: nature.com/articles/s41541-026-01478-w.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/pesquisadores-criam-vacina-inteligente-e-mais-segura-contra-chikungunya/59006
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